O impacto do Kraftwerk na música. E 5 de suas consequências

Florian Schneider, um dos fundadores do pioneiro grupo eletrônico, morreu aos 73 anos

    Temas

    O músico alemão Florian Schneider, um dos fundadores do grupo eletrônico Kraftwerk, morreu aos 73 anos. A notícia foi divulgada nesta quarta-feira (6). Um dos pilares da música eletrônica, o Kraftwerk espalhou sua influência por toda a música popular do fim do século 20.

    Schneider criou o grupo em 1970, na cidade de Dusseldorf, junto com Ralf Hutter. Em nota, Hutter falou sobre as notícias muito tristes de que seu amigo e companheiro durante muitas décadas, Florian Schneider, faleceu em decorrência de um câncer, apenas alguns dias depois de seu 73º aniversário.

    Os dois se conheceram em 1968, na Faculdade de Artes, em Dusseldorf. Inicialmente, eles se juntaram ao grupo Organisation, no qual Schneider tocava flauta, mas já submetida a efeitos eletrônicos. “Descobri que a flauta era muito limitada... Logo comprei um microfone, depois alto-falantes, depois um aparelho de eco, depois um sintetizador. Depois, joguei a flauta fora”, contou Schneider. Hutter descrevia o amigo como “perfeccionista do som”.

    Em 2008, Schneider deixou o Kraftwerk, que passou a ter apenas Hutter como remanescente da formação clássica da década de 70. O Kraftwerk segue na ativa. A agenda no site do grupo listava quase 40 shows agendados entre maio e agosto de 2020, todos adiados por conta da pandemia.

    O pioneirismo nas batidas eletrônicas

    Em álbuns como “Autobahn” (1974), “Trans-Europe Express” (1977) e “Computer World” (1981), o Kraftwerk elaborou uma estética visual e sonora que, simultaneamente, celebrava e ironizava a presença da tecnologia e das máquinas.

    Precursores do uso de instrumentos eletrônicos no pop, criaram uma linguagem musical totalmente baseada em ritmos eletrônicos e melodias sintetizadas. Antes do Kraftwerk, o sintetizador era um acompanhante ou um adereço, o que se pode constatar em incursões dos Beatles ou Pink Floyd nas sonoridades eletrônicas.

    A ideia de uma música toda feita por dispositivos eletrônicos, sem guitarras ou sopros, se tornou central no conceito estético do grupo. Mesmo as limitadas intervenções vocais eram muitas vezes processadas eletronicamente, resultando às vezes em timbres robóticos.

    O grupo provocava aqueles que viam sua proposta como desumanizadora e fria. “Tocamos as máquinas, às vezes elas nos tocam”, afirmou Hutter certa vez. Em 1978, proclamaram “we are the robots” (“somos os robôs”, em tradução livre) em “The Robots”.

    “Éramos os filhos de Werner von Braun e Werner von Siemens”, disse o ex-membro Wolfgang Flur no documentário Synth Britannia, em referência a importantes engenheiros alemães. O Kraftwerk negava qualquer parentesco com as raízes do rock e do pop de então, descendente de blues, folk ou soul.

    A ideia do grupo era formular uma nova música popular para uma nova Alemanha. No fim da década de 60, uma geração de jovens artistas do país se dedicou a fazer arte que olhasse para o futuro, livre da bagagem problemática do passado recente. Na música, grupos como Can, Faust e Kraftwerk viram nos sintetizadores um veículo para expressar esse sentimento.

    Diversos críticos e artistas comparam o impacto do Kraftwerk em gerações posteriores aos dos Beatles. É possível encontrar ecos de suas músicas em toda parte, do tecnobrega paraense ao rock de arena do Coldplay. O Nexo listou cinco importantes movimentos ou artistas posteriores em que sua inspiração é especialmente visível.

    Cinco seguidores

    David Bowie

    O cantor inglês era um fã entusiasmado de Kraftwerk. Em sua famosa trilogia de álbuns gravados em Berlim, “Low”, “Heroes” e “Lodger”, lançados entre 1977 e 1979, Bowie colocou sintetizadores em evidência e apostou em sonoridades abstratas e arranjos mais esparsos, influências do quarteto de Dusseldorf. “Heroes” trazia a faixa “V-2 Schneider”, uma homenagem a Florian.

    Synthpop

    O som da música pop dos anos 1980 foi marcado pelo uso do sintetizador. Bandas como Depeche Mode, Human League, Soft Cell e Eurythmics, responsáveis por sucessos mundialmente famosos, são todos filhotes assumidos de Kraftwerk. Em suas formações, não havia instrumentos de cordas ou sopro, apenas sintetizadores. Era um novo jeito de escrever canções pop.

    Hip hop

    “O Kraftwerk não fazia ideia do quão famosos eram entre as massas negras em 1977”, afirmou Afrika Bambaataa, DJ e rapper que é um dos precursores do hip hop. Segundo Bambaataa, músicas do Kraftwerk eram sucesso nos bailes de rua do Bronx. Em 82, seu sucesso “Planet Rock” pegou emprestado frases de teclado e batidas do Kraftwerk. A música é considerada embrião da sonoridade da fase inicial do funk carioca.

    Techno

    O gênero dançante e futurista de Detroit teve no Kraftwerk uma de suas inspirações fundamentais. Assim como tinha acontecido com Bambaataa, mais uma vez produtores negros americanos estavam acoplando os ritmos mecanizados e teclados alumiados dos alemães à sua bagagem de funk e soul.

    Daft Punk

    O grupo alemão também reverbera na dupla francesa de música eletrônica que reinou nas pistas e paradas de sucesso do século 21. Do extensivo uso de vocais processados eletronicamente, passando pela imagem robótica e pela exaltação irônica da tecnologia, o Daft Punk não seria possível sem as bases lançadas pelo Kraftwerk décadas antes.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: