Quem é o major Curió, recebido por Bolsonaro no Planalto

Militar teve papel central na repressão à Guerrilha do Araguaia nos anos 1970, que deixou 41 mortos, e dá nome ao município que abrigou Serra Pelada, o maior garimpo a céu aberto do mundo

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    Um dia depois de participar de atos contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro recebeu, no Palácio do Planalto, o major Sebastião Curió, militar denunciado por crimes cometidos durante a ditadura militar (1964-1985).

    O encontro entre os dois não estava incluso na agenda oficial do presidente para segunda-feira (4) e teve um tom informal. Não se sabe qual foi o teor da conversa.

    Sebastião Curió, considerado um dos principais símbolos dos anos mais duros da repressão militar, tem contra si denúncias dos crimes de sequestro, ocultação de cadáver, tortura e assassinato.

    Curió, o militar

    Sebastião Curió Rodrigues de Moura nasceu em 1934, na cidade de São Sebastião do Paraíso (MG).

    Iniciou a vida militar em 1952, quando se juntou à Escola Preparatória de Cadetes do Exército de Fortaleza (CE). Na época, para complementar a renda, atuou como pugilista. Seu estilo de luta lhe valeu o apelido “Curió”, referência ao pássaro que fica muito agressivo quando se sente ameaçado. A alcunha posteriormente seria anexada oficialmente ao seu nome.

    Seu trabalho mais conhecido enquanto militar envolveu o combate à Guerrilha do Araguaia durante o período mais duro da ditadura, na década de 1970. O movimento, criado pelo Partido Comunista do Brasil, se estabeleceu ao longo do rio Araguaia, que corre pelas regiões Norte e Centro-Oeste do país.

    A Guerrilha do Araguaia (1967-1974) tinha como objetivo fomentar uma movimento comunista rural no país, por meio da cooptação de camponeses nos moldes de revolucionários chineses e cubanos.

    Curió foi encarregado de conseguir informações sobre os guerrilheiros, auxiliando o governo a montar estratégias para combatê-los. Nessa época, o militar foi munido de diversas identidades falsas, incluindo uma que o apontava como técnico do Ministério da Agricultura e uma outra que dizia que ele era repórter da TV Globo.

    Com os dados de inteligência coletados por Curió, o Exército executou 41 integrantes da guerrilha, de acordo com documentos revelados pelo próprio major em 2009.

    “Queria ser militar porque queria defender a pátria, achava bonito. Alguns guerrilheiros tinham os mesmos ideais que nós. Mas nossos caminhos eram diferentes. Eu achava que o meu caminho era o correto. Eles achavam que o deles era o correto. Não eram bandidos, eram jovens idealistas”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo na ocasião da revelação dos documentos.

    Em 2015, Curió confessou que ele próprio matou dois guerrilheiros do Araguaia: Antônio Theodoro Castro e Cilon Cunha Brun. No depoimento, o major afirmou que a dupla tentou fugir e, por isso, foi alvejada com tiros, negando que as mortes tenham sido execuções.

    Para a Comissão Nacional da Verdade, colegiado criado no governo Dilma Rousseff para investigar violações de direitos humanos no país entre 1946 e 1988, o major Curió é um dos 377 militares responsáveis pela repressão durante a ditadura.

    Pela Lei da Anistia, sancionada em 1979, Curió não pode ser responsabilizado juridicamente pelos crimes cometidos durante a ditadura.

    Curió, o político

    Em 1982, Sebastião Curió abandonou a carreira militar para entrar na política.

    Filiado ao finado PDS (Partido Democrático Social), sucessor da Arena (Aliança Renovadora Nacional) como partido alinhado ao regime militar, Curió foi eleito deputado federal pelo Pará, defendendo as pautas de garimpeiros e pecuaristas do estado.

    A influência de Curió no sudeste do Pará era tamanha que se chamava Curionópolis a vila que abrigava o distrito de Serra Pelada, o maior garimpo a céu aberto do mundo nos anos 1980. Em 1989, quando Curió não era mais deputado, o município emancipou-se de Marabá e tornou-se autônomo.

    Em 2000, o militar decidiu ele mesmo concorrer à prefeitura, sendo eleito por dois mandatos, ocupando cargo até 2008, filiado ao PMDB e posteriormente ao DEM.

    Como político, Curió foi condenado pelos crimes de enriquecimento ilícito, fraude de licitações e ferimento dos princípios de honestidade e legalidade da administração pública, todos referentes à prefeitura de Curionópolis. A chapa que o elegeu foi cassada, e o militar teve de pagar o montante de R$ 1,1 milhão pelos crimes.

    Após a condenação, afastou-se da vida pública e se mudou para Brasília, onde vive até hoje.

    Curió em 2020

    Para entender o que o major representa em 2020, o Nexo conversou com o jornalista Leonencio Nossa, autor do livro “Mata!”, que fala sobre Curió e a campanha contra a Guerrilha do Araguaia.

    O que o major Curió representa em 2020?

    Leonencio Nossa É um agente de uma política de Estado nos períodos da ditadura e da redemocratização, um personagem de uma história desconhecida — na ótica da maioria absoluta dos brasileiros.

    Como autor de um livro sobre o momento talvez mais fundamental do ciclo militar, a Guerrilha do Araguaia, reconheço que a minha geração ainda não conseguiu relatar a fase de 1964 a 1985 para além de alguns setores da sociedade. Logo, a figura do Major Curió representa, por mais ilustrativa que seja numa cadeia repressiva formada inclusive por ocupantes da Presidência e dos extintos ministérios da Aeronáutica, do Exército e da Marinha, um momento histórico que é tema de disputa narrativa. Isso ocorre com outros assuntos importantes da vida e da política.

    Como avalia o presidente recebê-lo no Planalto um dia após participar de um ato antidemocrático?

    Leonencio Nossa No final de março, Jair Bolsonaro fez um movimento parecido. Ele visitou o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, nome influente em uma parte da caserna.

    Agora, o encontro com o agente do Araguaia e dos movimentos do campo nos anos 1980 é a continuidade de um esforço para manter uma adesão ampla das Forças Armadas, essa área de poder político e social dividida por setores com possíveis diferenças de visões sobre o legado do regime e o futuro. Sob certa perspectiva e por vias que podem parecer difíceis, o país, eu digo o Brasil real e maior, discute como nunca antes sua história recente.

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