Como os EUA espalham a especulação de que o coronavírus é artificial

Americanos acreditam que a pandemia se originou num laboratório de Wuhan, mas OMS diz não ver nenhuma evidência que comprove a tese

    O presidente dos EUA, Donald Trump, e seu secretário de Estado, Mike Pompeo, disseram diversas vezes, desde o início da pandemia do coronavírus, ainda no fim de 2019, que a covid-19 originou-se num laboratório da cidade de Wuhan, na China.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) respondeu na segunda-feira (4) dizendo que não há evidências que suportem tal afirmação. Para a organização, trata-se de uma mera especulação, uma vez que os americanos não apresentaram provas que sustentem essa teoria. O governo chinês, por sua vez, trata a acusação das autoridades dos EUA como simplesmente “insana”.

    O debate em torno da possibilidade de que o vírus tenha sido criado por cientistas chineses em laboratório alimenta uma disputa diplomática, comercial, militar e política que opõe duas das maiores potências mundiais – a China e os EUA.

    Foto: Carlos Barria/Reuters - 06.06.2019
    Trump com terno preto e gravata azul clara fala para dois microfones que aparecem de baixo para cima no quadro. Ao fundo dele, céu azul com nuvens brancas
    Presidente americano, Donald Trump

    Além das preocupações científicas em torno do novo vírus, há ainda elementos ideológicos, pelo fato de a China ser governada por um partido comunista, e eleitorais, pelo fato de Trump disputar um novo mandato nas eleições presidenciais de novembro.

    A disputa ocorre no meio de um cenário ainda cheio de incertezas, em que não existe uma cura à vista, e no qual o número de infectados passava, na terça-feira (5), de 3,5 milhões, com mais de 250 mil mortos em 187 países.

    As ‘enormes evidências’ americanas

    Pompeo, que responde pelas relações exteriores americanas, disse no domingo (3) ter “enormes evidências” de que a covid-19 foi produzida em laboratório. Ele não apresentou, no entanto, nenhuma das evidências que diz possuir.

    A afirmação do secretário de Estado americano foi feita em entrevista à emissora de televisão ABC. “Eu posso lhe dizer que existe uma quantidade significante de evidências de que isso [a covid-19] veio de um laboratório em Wuhan”, disse Pompeo ao entrevistador num dos trechos do programa.

    Três dias antes, em 30 de abril, o presidente americano havia dito algo semelhante, embora de forma menos assertiva que seu secretário: “Nós vamos ver de onde isso veio. Temos pessoas analisando isso de forma muito, muito forte; cientistas, pessoal de inteligência e outros. Vamos juntar essas informações e, em algum momento, teremos uma boa resposta. E a China terá de nos dizer.”

    Tanto as declarações de Pompeo quanto de Trump vão na contramão de um relatório da própria inteligência americana que sustenta que o vírus em questão “não foi feito pelo homem, nem foi geneticamente modificado”. O mesmo relatório diz, no entanto, que as pesquisas continuarão sendo feitas para determinar se a pandemia teve início “no contato com animais infectados ou se foi resultado de um acidente no laboratório de Wuhan”.

    O que o cruzamento de todas essas afirmações de autoridades americana sugere é que os EUA suspeitam que o vírus pode não ter sido fabricado artificialmente em laboratório, mas que ele era estudado no laboratório de Wuhan, de onde teria sido espalhado deliberadamente, ou de onde teria escapado inadvertidamente.

    Toxicologista japonês vê ‘vírus artificial’

    A tese a respeito do cultivo da covid-19 em laboratório não circula apenas no Pentágono e na Casa Branca. Também há cientistas de universidades independentes que investigam essa possibilidade.

    Um deles é o toxicologista japonês Anthony Tu, professor emérito da Universidade do Colorado, conhecido por suas pesquisas sobre armas químicas e biológicas, que trabalhou para o Departamento americano de Defesa entre 1984 e 2007, e assessorou as autoridades japonesas quando do atentado com gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995.

    Tu acredita que o vírus tenha escapado do laboratório de Wuhan por um “erro de manipulação, durante pesquisas de cultura”. O toxicologista diz que a cidade chinesa em questão possui um importante laboratório de virologia, inaugurado em 2015, com apoio francês, e classificado no mais alto nível de segurança, chamado P4 ou BSL-4, o mais restrito possível.

    O pesquisador diz que a covid-19 difere da Sars “por quatro pontos em sua estrutura molecular, quatro diferenças que são encontradas apenas muito raramente na natureza”. Ele menciona ainda que os serviços de inteligência já estavam atentos antes ao deslocamento a Wuhan de uma “grande especialista em armas bacteriológicas”, membro do Exército Chinês.

    O professor disse ser possível que “carcaças de animais usadas no laboratório tenham sido vendidas nos mercados locais em vez de serem incineradas, por agentes que quiseram ganhar dinheiro com a venda”. Ele relata que na época da queda da URSS, em 1991, recebeu “vários telefonemas e cartas da Rússia, de pessoas que propunham vender serpentes que tinham sido usadas em laboratórios soviéticos”, sugerindo que há um ativo mercado negro de vírus e bactérias.

    Na OMS e na China, incredulidade

    O diretor de emergências da OMS, Michael Ryan, considera que todas essas teorias são meramente especulativas, à medida que nenhuma evidência foi apresentada até hoje para sustentá-las.

    “Como uma organização que trabalha baseada em evidências, nós ficaríamos muito felizes em receber qualquer informação que nos remeta à origem do vírus”, disse Ryan, realçando que isso “seria uma peça de informação muito importante para o controle futuro da doença”.

    Até que essas evidências apareçam, “é muito difícil para a OMS trabalhar num vácuo de informações a esse respeito”. O diretor vê risco de politização do assunto na postura agressiva assumida pelas autoridades americanas, e afirma que é importante não perder o contato e o trabalho conjunto com os cientistas chineses envolvidos no tema.

    No registro mais político, a China reage de forma agressiva. A emissora estatal CCTV referiu-se às afirmações de Pompeo como “insanas e evasivas”, por desviarem o foco do problema que os EUA enfrentam, com o número de mortos chegando quase aos 70 mil na terça-feira (5).

    “O chamado ‘vírus vazado de um laboratório de Wuhan’ é uma mentira completa e absoluta. Os políticos americanos estão correndo para mudar o foco, ganhar votos e culpar a China enquanto seus próprios esforços para conter a epidemia são uma bagunça”, disse um comentarista da emissora, que espelha a posição oficial do governo chinês.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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