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Como o meio ambiente reage à redução da atividade econômica

Emissões de gases do efeito estufa apresentam queda e há melhora na qualidade do ar. Mas reflexo sobre mudança climática depende das medidas a serem tomadas pós-pandemia

    A redução da atividade econômica em todo o mundo durante a pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pela OMS (Organização Mundial da Saúde), tem impactado o meio ambiente.

    Espera-se uma queda de cerca de 5% nas emissões de carbono em 2020, em relação ao ano anterior. Houve melhora na qualidade do ar de grandes cidades — na Índia, a cadeia de montanhas do Himalaia ficou visível a partir de cidades do norte do país pela primeira vez em décadas.

    Também foram registradas algumas aparições de animais silvestres em localidades urbanas. Muitas das postagens sobre essa fauna que estaria “tomando conta” das cidades desertas, no entanto, são falsas.

    Pesquisadores e ativistas não comemoram esses impactos. “É a pior maneira possível de se vivenciar uma melhora no meio ambiente e mostra o tamanho da tarefa [que temos pela frente]”, disse ao jornal britânico The Guardian o professor da Universidade de Columbia Michael Gerrard, referindo-se ao cenário trágico da pandemia, em que os benefícios ambientais dividem espaço com as mortes e a recessão.

    Segundo cientistas, a queda nas emissões provocada pela pandemia ainda está aquém da diminuição que precisa ser mantida ao longo dos próximos anos a fim de evitar um desastre climático. Para a ONU (Organização das Nações Unidas), seria necessária uma redução anual de 7,6% pela próxima década para limitar o aquecimento do planeta e suas consequências.

    Também é cedo para dizer se esses efeitos são temporários ou se a atual crise pode ter um impacto mais duradouro no curso da mudança climática. Esse rumo dependerá menos do vírus e mais das decisões políticas que se seguirão à crise sanitária.

    As emissões de gases do efeito estufa

    O lançamento de gases do efeito estufa na atmosfera afeta as condições climáticas da Terra, provocando o aquecimento global. Esses gases — além do dióxido de carbono (CO₂), o mais abundante, ficam entre os principais o metano (CH4) e o óxido nitroso (N₂O) — são decorrentes de atividades humanas, como a agropecuária, a indústria, o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis.

    Segundo uma análise publicada pelo site especializado na questão climática Carbon Brief, as emissões de carbono na China apresentaram redução de 25% nas quatro semanas que se seguiram ao Ano Novo Chinês, comemorado no fim de janeiro de 2020, quando medidas mais rígidas de combate ao coronavírus começaram a ser implementadas no país.

    A diminuição no período foi de 200 milhões de toneladas de CO2, o equivalente ao que a Holanda emite ao longo de um ano inteiro. Ao lado dos EUA, a China responde por mais de 40% das emissões de CO2 do mundo todo.

    Para a União Europeia, a previsão é de uma queda de quase 400 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2020, valor que supera o nível de emissões da França em um ano.

    A soma mundial pode chegar ao total de 2,5 bilhões de toneladas a menos de CO2 em 2020, atingindo o nível mais baixo de emissões em uma década.

    Isso porque esta é a primeira redução de emissões em escala global desde a crise financeira de 2008, quando a queda ficou por conta, principalmente, da menor atividade industrial devida à recessão. Mas o fenômeno foi temporário: o lançamento de gases-estufa voltou a crescer rapidamente com a recuperação econômica, a partir de 2010.

    Ao Nexo, o coordenador de projetos do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente) David Tsai destaca que, no Brasil, ainda que haja redução das emissões resultantes da queima de combustíveis fósseis no contexto da pandemia, o balanço final depende também do desmatamento, que continua mesmo durante a crise sanitária.

    A poluição do ar nas cidades

    Entre os efeitos da pandemia sobre o meio ambiente, a redução da poluição do ar chama a atenção, segundo David Tsai, porque a atmosfera responde muito rápido à diminuição da queima de combustíveis, que está associada principalmente à circulação de veículos motorizados.

    A atividade de transporte é em geral a principal causadora da poluição do ar nas cidades, com destaque para o uso do automóvel. Boa parte desses carros deixou de circular durante a pandemia, portanto, deixou de emitir poluentes.

    Ainda que a população tenha uma percepção da mudança na qualidade do ar, indicada pela maior visibilidade da atmosfera e por menos odores, Tsai afirma não ser possível, até o momento, observar cientificamente essas alterações de forma generalizada nas cidades brasileiras.

    Segundo ele, com exceção do estado de São Paulo, as redes de monitoramento da qualidade do ar no país são em geral insuficientes e não têm tecnologias que fornecem essa informação em tempo real. A maioria dos estados não tem qualquer monitoramento do tipo.

    O Iema vem analisando os dados da rede de monitoramento de qualidade do ar que opera na região metropolitana de São Paulo. Tsai afirma que os resultados preliminares indicam que as partículas inaláveis finas (um poluente crítico nas cidades) apresentaram reduções nítidas em algumas estações de qualidade do ar a partir da segunda quinzena de março, quando o distanciamento social começou a ser praticado.

    Um estudo atualmente em progresso no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares com os poluentes da região aponta para a mesma direção.

    São Paulo também aparece entre nove cidades globais que, de acordo com um relatório divulgado em 22 de abril pela empresa suíça IQAir, experimentaram uma melhora dramática em sua qualidade do ar durante o período em que vigoraram as medidas mais rígidas de isolamento social. São elas Nova Delhi, Londres, Los Angeles, Milão, Mumbai, Nova York, Seul, Wuhan e Roma.

    As fontes de poluição do ar coincidem, em grande parte, com as fontes de emissão de gases que provocam o efeito estufa (a queima de combustíveis é o fator comum). Mas o coordenador de projetos do Iema explica que os efeitos da redução de lançamentos de gases que afetam o sistema climático global não são tão evidentes de imediato quanto os da redução de gases e partículas poluentes prejudiciais à saúde.

    “Ao contrário dos poluentes atmosféricos, que em geral têm tempo de vida curto na atmosfera, da ordem de horas e dias, os gases de efeito estufa têm tempo de vida muito maior, da ordem de meses e anos. Assim, uma alteração momentânea na emissão de GEEs não causa alteração imediata nas concentrações desses gases na atmosfera”, disse Tsai ao Nexo.

    O sistema climático é determinado por uma complexidade de fatores, o que, segundo ele, dificulta que se atribua qualquer mudança no curto prazo às emissões de gases de efeito estufa nesse curto período de tempo.

    Possíveis cenários após a pandemia

    Em março, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que a redução temporária das emissões não deveria ser superestimada e que o vírus não iria frear a mudança climática. Declarou ser importante que o foco necessário para combater a doença não fizesse perder de vista a necessidade de derrotar o aquecimento global.

    Com os esforços de pessoas e governos centrados na pandemia, o enfrentamento da mudança climática corre o risco de ficar em segundo plano.

    Para a sociedade civil, há o desafio de continuar se mobilizando pela pauta apesar das medidas de distanciamento social, que devem permanecer por um bom tempo. A ativista sueca Greta Thunberg, que ganhou destaque mundial por sua jovem liderança no movimento Fridays for Future, convocou seus seguidores no Twitter a se adaptarem às circunstâncias e a continuarem protestando em uma “greve digital”.

    As discussões em nível global sobre o clima também podem sair prejudicadas: um dos encontros mais importantes do mundo sobre a questão, a COP-26 das Nações Unidas ocorreria em novembro, mas foi adiada para 2021.

    A pandemia do novo coronavírus tem sido vista como um ponto de inflexão para a crise climática. Apesar de evoluir mais lentamente do que a primeira, ela traz riscos ainda maiores para o planeta e a vida humana.

    A despeito do recuo temporário nas emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa, pesquisadores levantam a possibilidade de que elas retornem com força total quando o vírus estiver controlado, como consequência dos incentivos para que a economia retome seu passo. Essa tendência de retomada já tem sido observada na China.

    Por isso, muitos ambientalistas e cientistas defendem que a recuperação econômica seja feita pelos governos de maneira sustentável, com incentivo a setores como o de geração de energia limpa.

    Na quarta-feira (28), a chanceler da Alemanha Angela Merkel declarou em uma conferência virtual sobre o clima que os pacotes e medidas implementados por governos para regenerar a economia após a crise do novo coronavírus devem ser conciliados com a proteção ambiental, voltando-se para novas tecnologias e fontes energia renovável.

    Se, por um lado, a pandemia pode criar a ilusão de que ações voltadas para o combate ao aquecimento global podem ficar “para depois”, também há a expectativa de que o medo e o senso de urgência provocados pela disseminação do vírus atuem como catalisadores da sensibilização e mobilização de indivíduos, empresas e governos em torno da questão climática.

    As medidas tomadas para conter o avanço do novo coronavírus indicam que é possível fazer mudanças drásticas e sacrifícios econômicos para salvar vidas. Uma reportagem publicada pela emissora americana CNN lembra que a crise climática também é uma emergência global de saúde: milhões de pessoas morrem todo ano em decorrência da toxicidade do ar nas cidades.

    À CNN, a professora Donna Green, do Centro de Pesquisa em Mudança Climática da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, questiona a demora em colocar em prática ações nas mesmas proporções pelo clima. “[A situação atual] mostra que, se precisarmos agir, no nível nacional e internacional, nós podemos. Então por que não fizemos o mesmo pelo clima?”, diz.

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