Como ficam as pesquisas do IBGE quando não se pode ir a campo

Principal instituto de produção de estatísticas do país mudou a forma de coleta de informações em meio à pandemia. O ‘Nexo’ ouviu especialistas para entender os impactos

    Desde meados de março, diversos estados e municípios do Brasil optaram por adotar medidas de isolamento social, restringindo a circulação de pessoas para tentar desacelerar o contágio do novo coronavírus na população em meio à pandemia da doença.

    Nesse contexto, atividades baseadas no movimento constante de profissionais foram fortemente impactadas. Entre elas estão as pesquisas feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que ajudam a produzir dados econômicos importantes sobre a realidade do país. A projeção é de que a pandemia tenha um enorme impacto negativo na economia brasileira.

    Por conta da pandemia, o IBGE teve de adiar o Censo Demográfico, que ocorre uma vez a cada 10 anos e estava programado para 2020. A pesquisa, que prevê a visita de mais de 70 milhões de domicílios pelo Brasil, foi remarcada para 2021.

    O censo não foi a única pesquisa do IBGE afetada pela pandemia. Estudos mensais feitos pelo instituto também tiveram suas coletas temporariamente alteradas e adaptadas para o novo momento. Abaixo, o Nexo mostra as principais coletas de dados que sofreram mudanças e quais as soluções adotadas durante o período de crise sanitária.

    Os índices de preço

    O IBGE é o órgão responsável pela produção de índices de preço ao consumidor, que captam o aumento dos preços de produtos que são comercializados em todo o Brasil. A evolução desses índices indica qual a trajetória da inflação no país.

    O principal índice de inflação do país é o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Ele é usado no Sistema de Metas de Inflação, principal mecanismo de controle de preços do governo brasileiro. Além do IPCA, há outros índices importantes produzidos pelo IBGE, como o INPC, que identifica as mudanças de preços para famílias mais pobres, e o IPCA-15, cuja metodologia é a mesma do IPCA, mas o período considerado é diferente.

    Para produzir esses índices, o IBGE normalmente faz coleta presencial de informações, mas também obtém alguns dados online. Alimentos, produtos de higiene e roupas costumam ter preços coletados presencialmente, com agentes indo até os estabelecimentos e anotando os preços dos produtos. Já bens como livros, celulares e geladeiras já tinham dados coletados de forma mista antes da pandemia: uma parte das informações era obtida presencialmente e o restante era encontrado em endereços virtuais, nos sites dos próprios estabelecimentos. Por fim, a coleta referente a alguns bens e serviços como transporte por aplicativo e passagens aéreas são feitas por web scrapping, uma forma automatizada de obter informações online usando robôs.

    Para chegar ao índice de preços, os dados são compilados com base em hábitos de consumo dos brasileiros, com diferentes pesos para cada bem e serviço.

    O que mudou na coleta de preços

    A pandemia obrigou o IBGE a suspender a coleta presencial de informações de preços. O que antes era coletado no local passou a ser coletado online. Assim, preços de alimentos e roupas, por exemplo, são obtidos em sites virtuais manualmente (sem o uso de robôs). O índice de preços irá computar e refletir, portanto, os preços disponibilizados nos sites dos estabelecimentos.

    No caso de produtos com coleta mista, o instituto também optou por fazer coleta exclusivamente online. Os preços que eram recolhidos por web scrapping continuarão a ser obtidos dessa forma.

    A Pnad Contínua

    Todos os meses, o IBGE divulga a Pnad Contínua – a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. A cada três meses, o instituto visita 211 mil domicílios de todo o território nacional e coleta informações sobre trabalho e renda, entre outros itens. Por se tratar de uma amostra representativa, não engloba aqueles cuja renda está muito acima da realidade média brasileira.

    A Pnad é a pesquisa que revela as condições do mercado de trabalho brasileiro. É por meio dela que são divulgados números como a taxa de desemprego, o tamanho dos mercados formal e informal de trabalho e o rendimento médio mensal dos brasileiros. É a principal fonte de dados sobre a situação do emprego no país.

    O que mudou na Pnad

    Com a pandemia, os cerca de 2.000 agentes do IBGE que trabalham na pesquisa não podem circular entre os lares das famílias para fazer perguntas sobre emprego e rendimentos.

    Para se adaptar à restrição de movimentação, o IBGE optou por migrar para a coleta por telefone. Durante a pandemia, os entrevistadores do instituto trabalham de casa e entram em contato com os domicílios por linhas telefônicas – podem ser aparelhos fixos ou celulares, desde que se consiga entrar em contato com a pessoa que mora na casa selecionada para a pesquisa. São 70 mil domicílios que devem ser contatados a cada mês, totalizando 210 mil no trimestre.

    As dificuldades da coleta remota da Pnad

    Uma reportagem publicada pelo jornal Valor Econômico em 29 de abril mostrou que o IBGE tem enfrentado dificuldades para conseguir respostas na condução remota da Pnad Contínua. A matéria ouviu pessoas de dentro do instituto envolvidas com a pesquisa em quatro estados diferentes do país.

    As coletas feitas em março, o primeiro mês afetado pelas mudanças decorrentes da pandemia, já mostraram uma diferença nas taxas de respostas à pesquisa. Em tempos anteriores à pandemia, a média de respostas era próxima a 90%. Em março de 2020, caiu para pouco mais de 60%. No mês de abril, a taxa está estimada em cerca de 35%, segundo as fontes ouvidas pelo jornal. Com menos respostas, a margem de erro da pesquisa pode crescer, o que restringe conclusões tomadas com base nos dados.

    Além da dificuldade de obter respostas, o IBGE encara problemas por não ter os números de telefone para entrar em contato com todos os domicílios escolhidos para a pesquisa. O contato por cartas foi tentado, mas não tem se mostrado uma opção eficiente.

    Diante da dificuldade, o governo federal editou uma medida provisória determinando o compartilhamento de dados telefônicos por empresas de telecomunicações ao IBGE. A ideia era facilitar o contato do instituto com as pessoas selecionadas para responder às pesquisas. A medida foi suspensa por decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, sob a justificativa de possíveis violações à privacidade.

    A situação levantou preocupações sobre um possível apagão estatístico em dados sobre emprego. Em entrevista à ONG Repórter Brasil publicada em 22 de abril, Cimar Azeredo, diretor-adjunto de pesquisa do IBGE, reconheceu as dificuldades de conduzir entrevistas por telefone e afirmou que, caso a pesquisa não atinja uma qualidade mínima, a Pnad Contínua pode ser temporariamente suspensa em meio à pandemia.

    Duas análises sobre o IBGE na pandemia

    Na sexta-feira (30), o IBGE divulgou a Pnad Contínua referente ao primeiro trimestre do ano, englobando janeiro, fevereiro e março de 2020. Nesse período, o desemprego ficou em 12,2%, com 12,9 milhões de pessoas à procura de trabalho. Em nota divulgada junto com a pesquisa, o IBGE afirmou que aplicou testes estatísticos e considerou os dados coletados à distância viáveis para divulgação.

    O Nexo conversou com dois especialistas para entender se as mudanças feitas pelo IBGE diante da pandemia poderão afetar a qualidade dos dados produzidos. Foram ouvidos:

    • Thiago Xavier, economista da Tendências Consultoria
    • Rogério Barbosa, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da USP e membro da Rede Políticas Públicas e Sociedade

    A coleta remota pode alterar a qualidade dos dados produzidos pelo IBGE?

    Thiago Xavier Para responder a essa pergunta, vale a pena pensarmos de forma concreta em qual alternativa temos. Do ponto de vista de recomendação sanitária, não poderíamos ter mantido a forma na qual a pesquisa se baseia, com visitas. No fundo, é um esforço para tentar se adequar a essa nova rotina nas pesquisas, a qual não só o Brasil, mas o mundo inteiro enfrenta.​

    Em segundo lugar, aqui vemos um esforço muito grande do pessoal do IBGE, especificamente da parte de emprego e renda, em sempre se adequar aos padrões internacionais. Nesse sentido, estamos bem alinhados com recomendações internacionais. E agora, neste período por telefone, vemos um esforço grande do IBGE, ainda que distante, em seguir práticas internacionais e manter o rigor na base do levantamento de dados. E olhando também para como o mundo e os grandes institutos formuladores de estatísticas estão reagindo a essa nova realidade.

    É uma discussão muito técnica. No fundo, a amostra tem uma série de cuidados para que seja representativa e o que ela mostre seja, no fundo, o que o país mostra. Conhecendo o histórico do IBGE, conhecendo esse alinhamento com as práticas internacionais mais desenvolvidas, tenho certeza de que eles estão trabalhando para manter o rigor da pesquisa.

    Rogério Barbosa Certamente. Acho que alguma perda de qualidade vai existir, mas isso é inevitável. Acho que o trade-off que temos à nossa frente é entre ter dados com uma qualidade razoável, porém inferior à que tínhamos nas coletas presenciais domiciliares, e simplesmente ficar num apagão estatístico. Então [a coleta remota] é a melhor saída possível. Acho que o IBGE está fazendo um trabalho incrível.​

    O IBGE tem um controle muito grande sobre as probabilidades de sorteios dos indivíduos, algo que os [outros] institutos não têm. Em princípio, na realização de uma pesquisa em qualquer área da ciência, todas as unidades observacionais deveriam ter a mesma probabilidade de sorteio. Uma amostra é representativa quando ela garante iguais probabilidades de participação de todo mundo.

    A melhor forma de fazer isso é, de fato, tendo um mapa da cidade [ou país], em que você tem um desenho de todos os domicílios, em que você faz um sorteio do número da casa. Isso significa que você consegue, sem precisar deliberadamente ficar em um lugar só da cidade, cobrir a cidade [ou país] inteira. É muito difícil fazer isso, obviamente. Precisa de muita gente trabalhando. Mas é por isso que o IBGE tem milhares de aplicadores da Pnad. É uma estrutura de Estado que nenhuma empresa individual conseguiria ter.

    O desenho amostral garante um conhecimento de antemão das margens de erro e garante uma coleta dirigida aos pontos corretos. Para sumarizar, eu diria que sim, vai haver queda de qualidade. Mas vai ser ainda uma qualidade IBGE. Não tenho dúvidas de que a Pnad presencial é muito melhor, mas não podemos deixar de fazer as pesquisas agora.

    Qual a importância de ter dados econômicos confiáveis e rigorosos durante a pandemia?

    Thiago Xavier É fundamental termos dados econômicos. Porque se a gente tem um apagão, não conseguimos de fato acompanhar minimamente o que está acontecendo com as pessoas do ponto de vista das pesquisas estatísticas.​

    A gente vai ter uma dificuldade muito grande de medir a efetividade de políticas [se tivermos um apagão]. Não vamos conseguir saber muito bem como as medidas que estão sendo anunciadas pelo governo estão de fato afetando a vida das pessoas, afetando rendimento, posições no mercado de trabalho.

    Então, num período em que as políticas públicas são fundamentais para diminuir o impacto nocivo para a vida cotidiana, vamos perder uma informação muito relevante sobre essa efetividade e sobre como as pessoas estão se comportando. No fundo, ter pesquisa estatística neste momento é crucial.

    Rogério Barbosa É central. Na verdade, começa pelo fato de que o isolamento social é inevitável e necessário. Mas temos uma consequência terrível que é a falência das famílias. Os mercados de trabalho para várias áreas estão paralisados porque os setores foram determinados como não essenciais, e vários governos estaduais e municipais paralisaram esses setores.​

    É necessário ter informação para dirigir a política para os lugares corretos, eventualmente facilitando empréstimos para determinados setores mais afetados, incluindo segmentos novos nas políticas emergenciais. E a identificação dos setores descobertos pela política depende de informação derivada de pesquisa. Se nós não tivermos um conhecimento mínimo sobre quem está de fora, muita gente vai experimentar esse período (que já é de tensão e crise) de uma forma ainda pior do que poderia ser feito. As pesquisas agora servem para orientação de políticas públicas feitas em tempo real.

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