Como a desigualdade afeta a disseminação do vírus em São Paulo

Condições de moradia e adesão ao isolamento social determinam diferentes riscos de morte pela doença para cada bairro da cidade que é epicentro da epidemia de covid-19 no Brasil

    Os dados sobre as mortes causadas pelo novo coronavírus na cidade de São Paulo reforçam as desigualdades socioeconômicas da capital paulista e revelam que a população mais vulnerável, em sua maioria negros, é a maior vítima da doença. O vírus chega a ser dez vezes mais letal nas regiões com os piores indicadores.

    A cidade de São Paulo concentra mais de 65% das 2.654 mortes pela covid-19 do estado registradas até a segunda-feira (4). As maiores taxas de mortalidade, porém, estão nos extremos do município, onde as condições de habitação são mais precárias. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, os 20 distritos que já apresentam de 50 a 150 mortes são os que mais possuem favelas e conjuntos habitacionais.

    Por isso, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, afirmou em entrevista na segunda-feira (4) que a prioridade do governo municipal é dar maior atenção justamente para as periferias.

    “O número de mortos, tanto confirmados quanto suspeitos, começa na zona central da cidade, mas vai aumentando muito na periferia, Brasilândia, Grajaú, Sapopemba, Cidade Tiradentes, mostrando o quanto isso está se disseminando na periferia. A gente conseguiu mostrar também o quanto isso se concentra nas áreas em que temos favelas na cidade de São Paulo”, afirmou.

    As informações da prefeitura revelam que as maiores taxas de letalidade por 100 mil habitantes estão em Campo Limpo (52%), Parelheiros (50%) e Itaim Paulista (42%), bairros onde o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é mais baixo. A taxa de letalidade é dez vezes o de áreas mais ricas. Na Vila Mariana e Pinheiros, que estão entre os maiores IDHs da capital, a taxa é de 6% e 5%, respectivamente.

    A epidemia chegou ao Brasil no final de fevereiro, trazida pelas classes mais ricas. O primeiro caso de covid-19 do país foi registrado em São Paulo, no dia 25 daquele mês. O paciente era um homem de 61 anos, que havia voltado da Itália. Ele detectou a infecção no hospital Albert Einstein.

    Mais de dois meses depois, a doença se espalhou para os bairros mais pobres e vem pressionando a rede pública de saúde. O quadro é observado não só em São Paulo, mas em outras capitais do país.

    105.222

    casos do novo coronavírus foram confirmados em todo o país pelo Ministério da Saúde até segunda-feira (4)

    7.288

    era o número de mortes na mesma data, segundo o governo federal

    36%

    das mortes pela covid-19 no país estavam no estado de São Paulo, no mesmo período

    O caso da Brasilândia

    Em números totais, o bairro mais afetado de São Paulo é a Brasilândia, que tem 265 mil habitantes. Até 30 de abril, os dados mais recentes apresentados pela prefeitura mostravam 103 mortes pelo novo coronavírus na região.

    A Brasilândia está entre as áreas com os piores indicadores socioeconômicos da cidade. De acordo com o Mapa da Desigualdade de 2019, 29,6% dos domicílios do bairro estão em favelas. Em Pinheiros, que apresenta a menor taxa de letalidade pela covid-19 da capital, apenas 0,08% dos domicílios se encontram na mesma situação.

    A taxa de emprego formal na Brasilândia é de 0,47 por dez habitantes com idade igual ou superior a 15 anos, enquanto em Pinheiros, o mesmo indicador é de 17,96. Um morador da Brasilândia vive, em média, até os 60 anos. Em Pinheiros e em Moema, a idade média ao morrer é de 78 e 80,6 anos, respectivamente, ainda segundo o Mapa da Desigualdade.

    Os indicadores de acesso a atendimento de saúde também são baixos na região. Há apenas 0,01 leito por mil habitantes, contra 1,34 em Pinheiros e 38,64 na Bela Vista. Um morador do bairro leva, em média, 62,46 dias para consultar um clínico geral na rede pública.

    Curiosamente, na região que hoje apresenta a maior taxa de letalidade pelo novo coronavírus, morria-se menos por doenças respiratórias até antes da epidemia – o que reforça a relação entre a letalidade da covid-19 e características socioeconômicas. Antes, a taxa de mortalidade por esse tipo de doença era de 6,75 por dez mil habitantes na Brasilândia, contra 12,60 em Pinheiros.

    Uma reportagem do jornal O Globo publicada no domingo (3) mostrou que o posto de saúde Vila Galvão, na Brasilândia, tem feito até 200 atendimentos por dia de suspeitos da doença. Um dos motivos para o contágio é a baixa adesão às medidas de isolamento social. Ao visitar o bairro, o jornal encontrou uma feira livre com mais de 50 barracas.

    Para o secretário estadual de Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, a aglomeração dentro das casas agrava a situação. “São muitas pessoas que vivem no mesmo domicílio. É preciso usar máscaras para prevenir a transmissão do vírus de uma pessoa à outra.”

    O governador de São Paulo, João Doria, decretou a obrigatoriedade do uso de máscaras em todo o estado a partir de 7 de maio. Mas em regiões de baixa renda, o item ainda é pouco usado.

    “A favela não tem condição de fazer quarentena. As famílias muitas vezes moram em cômodos pequenos, sem ventilação, e falta água. Álcool em gel e máscara são artigos de luxo na favela. Nossos moradores têm continuado nas ruas, acham que é uma doença de ricos”, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo o líder comunitário do bairro de Paraisópolis Gilson Rodrigues Rodrigues.

    Os riscos de morte

    Nesse contexto, a população de pretos e pardos acaba sendo mais vulnerável. Em Brasilândia, por exemplo, a proporção da população preta e parda é de 50,6%, enquanto em Pinheiros é de apenas 11%.

    Um estudo do Observatório Covid-19 em parceria com a Prefeitura de São Paulo divulgado no final de março mostrou que os pretos têm 62% mais chances do que os brancos de morrer por uma infecção causada pelo novo coronavírus. Já os pardos possuem 23% mais riscos.

    No geral, pessoas com mais de 60 anos estão no grupo de maior risco. Nas regiões mais pobres da capital paulista, porém, os moradores abaixo dessa idade também estão entre os mais ameaçados. Nas áreas onde os indicadores sociais são piores, o risco é maior para todas as faixas etárias acima dos 30 anos.

    Nos bairros mais pobres, 90% das mortes ocorreram em pessoas com mais de 40 anos. Já nas áreas com melhores condições, 90% das mortes se deram entre pacientes com mais de 60 anos.

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