Ir direto ao conteúdo

Como Donald Trump trata o Brasil na pandemia

Presidente americano marca distância de Jair Bolsonaro à medida que crescem os números de mortos e infectados em território brasileiro

    O presidente dos EUA, Donald Trump, criticou em 28 de abril a forma como o governo brasileiro lida com a pandemia do novo coronavírus. A declaração marcou uma mudança de tom do americano, e indica que o alinhamento com o país pretendido pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, não é uma via de mão de dupla.

    “O Brasil está tendo um grande surto. Eles [os brasileiros] foram por um caminho diferente do da maioria da América do Sul. Quando você olha os gráficos, infelizmente percebe o que está acontecendo com o Brasil”, disse Trump a jornalistas, na Casa Branca.

    Na mesma ocasião, o presidente americano sugeriu que o governador da Flórida, Ron DeSantis, presente na entrevista, adotasse medidas para restringir a entrada de brasileiros pelo aeroporto de Miami.

    “Você quer interromper [os voos] do Brasil?”, perguntou Trump a DeSantis. “Se eles ameaçarem os EUA, com certeza”, respondeu o governador. “Avise-nos”, encerrou o presidente americano.

    A fala de Trump destacou que os demais países da América do Sul têm se saído melhor que o Brasil na crise. Dois vizinhos brasileiros, por exemplo, Paraguai e Argentina, conseguiram resultados mais eficazes contra a doença ao implementar quarentenas rígidas em nível nacional. Enquanto isso, Bolsonaro vem repetidamente questionando a necessidade de medidas de isolamento social para conter a doença.

    O elogio de Trump, ainda que cifrado, recai sobre presidentes como Alberto Fernández, da Argentina, conhecido desafeto de Bolsonaro, com quem o brasileiro sequer se encontrou pessoalmente desde a posse na Casa Rosada, em dezembro de 2019.

    Ao ser questionado sobre as declarações de Trump, em Brasília, também em 28 de abril, Bolsonaro reagiu com aparente irritação: “Eu não concordo com nada nem discordo. O que ele [Trump] achar que tem que fazer no país dele, ele faz.”

    O desencontro entre Trump e Bolsonaro ilustra os limites de um alinhamento diplomático que, pelo menos da parte brasileira, era tido como total.

    Na pandemia, ‘America first’

    A declaração de Trump sobre a condução da pandemia foi a mais desfavorável a Bolsonaro desde o início do mandato do presidente brasileiro, em janeiro de 2019. Mesmo antes dela, porém, o governo americano já havia dado mostras de que poderia sacrificar a relação com o Brasil em favor de necessidades imediatas dos próprios americanos durante a pandemia.

    No dia 14 de abril, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse: “O povo brasileiro pode contar com os EUA quando ‘virarmos a esquina’ [‘turn the corner’, expressão em inglês para se referir à melhora do quadro depois de uma situação difícil] e aumentarmos a produção americana para todos os itens restritos, que vão de respiradores, testes, tudo o que é necessário. Quando chegarmos lá, o Brasil deveria saber que faremos tudo o que pudermos para ter certeza de que eles têm o que precisam”.

    Assim como Trump, Pompeo coloca como prioridade as necessidades domésticas americanas, que vêm antes dos interesses diplomáticos com o Brasil.

    Apesar do desalinhamento no assunto da pandemia, Trump e Bolsonaro continuam sendo dois dos maiores expoentes da nova extrema direita populista no mundo. Porém, o fato de os americanos colocarem nuances na relação já mostra o quanto a posição brasileira pode ser frágil e desigual.

    Cálculo de Trump mira eleições

    A eleição presidencial marcada para novembro é a maior preocupação política de Trump, que é candidato à reeleição pelo Partido Republicano e à disputa com o democrata Joe Biden. Na busca por um novo mandato, o presidente americano atenta para o efeito negativo que os mortos e infectados pela covid-19 podem ter em sua campanha.

    Embora a pandemia afete a popularidade de todo líder internacional confrontado por uma crise dessa magnitude, poucos ficaram estigmatizados como negacionistas, como acontece com Trump, Bolsonaro e um pequeno grupo de líderes apelidados de “aliança de avestruzes”, numa alusão ao comportamento de enfiar a cabeça sob a terra para negar a realidade ao redor, que também inclui líderes como os da Nicarágua, do Turcomenistão e da Bielorússia.

    Esses líderes negaram a gravidade do coronavírus, de maneiras distintas, e com diferentes atos e palavras. Os presidentes dos EUA e do Brasil desdenharam do risco da pandemia, especialmente quando os primeiros casos começaram a surgir.

    Desde então, Bolsonaro e Trump tentaram equilibrar o teor de suas declarações, soltando mensagens ambíguas, com as quais já não negavam o perigo do vírus, mas continuavam pondo em dúvida as medidas de contenção como o isolamento social.

    Nesse processo de ajuste do discurso, Trump se adaptou ao que defendem autoridades sanitárias em maior medida do que Bolsonaro. O presidente brasileiro, por exemplo, insiste em confraternizar com apoiadores nas ruas, violando regras de distanciamento social, algo que Trump não faz.

    Bolsonaro também está envolto em uma crise política que gera ainda mais instabilidade durante a pandemia, e que já teve como episódios a demissão de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o embate com o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, e a sua presença recorrente em manifestações que pedem um golpe de Estado.

    Neste contexto, a ligação direta entre Trump e Bolsonaro pode ter se tornado desvantajosa para o lado americano. As pesquisas de opinião nos EUA mostram Trump perdendo apoio na gestão da pandemia, e esse é um curso que o presidente americano tem apenas seis meses para reverter.

    Na segunda quinzena de abril, a média das pesquisas davam 50,8% de desaprovação popular à forma como Trump conduzia o país, enquanto 44,1% aprovavam. Já a média das pesquisas de intenção de voto mais recente dá uma vantagem de 5,3 pontos em favor de Biden contra Trump.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.