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Como a pandemia transformou o mês sagrado dos muçulmanos

Mais de 1,8 bilhão de fiéis tentam adaptar rituais ancestrais de jejum e confraternização, seguindo regras de distanciamento social no Ramadã

    A pandemia do novo coronavírus, que na segunda-feira (26) ultrapassou o número de 3 milhões de infectados e 200 mil mortos em 185 países, impôs mudanças inesperadas para os mais de 1,8 bilhão de muçulmanos do mundo todo.

    O surto da covid-19 pegou em cheio o Ramadã, período de um mês em que os adeptos da religião muçulmana alternam jejuns (saum) com reuniões familiares e orações comunitárias marcadas pelo desjejum (itfar), nas quais a confraternização e o contato físico são uma tradição milenar e um compromisso sagrado.

    As leis de quarentena, assim como as recomendações de distanciamento social que vigoram atualmente, tornaram muito mais difícil, embora não impossível, cumprir com um dos cinco pilares do Islã — o jejum ritual que caracteriza o nono mês do calendário lunar muçulmano.

    O Ramadã, que em 2020 começou na sexta-feira (24) e se estende até o dia 23 de maio, celebra o momento em que os islâmicos acreditam que Alá teria feito a primeira revelação das escrituras sagradas do Corão ao profeta Maomé (570-632).

    Observar os rituais e orações do Ramadã é um dos cinco pilares do Islã, juntamente com as obrigações de aceitar o credo, realizar as orações diárias, praticar a caridade e peregrinar à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita, pelo menos uma vez na vida.

    O dilema entre acolher e distanciar

    O Ramadã é um período em que os seguidores do Islã reforçam a conexão não apenas com a religião em si, mas com seus familiares e com sua comunidade.

    A necessidade de religar-se tornou-se ainda mais forte no ambiente de medo, ansiedade e incerteza que caracteriza a pandemia atual. Para muitos, a religião é uma maneira de buscar acolhimento e amparo, tanto espiritual quanto físico e econômico.

    Essa necessidade de se religar com a comunidade e com Alá encontra em 2020, entretanto, barreiras físicas inéditas em escala global. A obrigação de distanciamento e a proibição do toque físico, mesmo entre amigos e familiares que não vivem na mesma casa, obrigou lares e mesquitas a se adaptarem.

    Em todo o mundo, as celebrações sofreram adaptações. Nas mesquitas que permanecem abertas, cerimônias que antes duravam uma hora foram reduzidas para 20 minutos. Nas que fecharam, xeiques tiveram de inovar, fazendo transmissões ao vivo pela internet.

    A distância entre os fiéis durante as orações foi aumentada para pelo menos um metro e meio, e as conversas, aconselhamentos e demais interações regadas a chá, comuns no final dos encontros, foram temporariamente abolidas, ou transferidas para o ambiente virtual.

    Em vez da festa, caridade

    Em períodos normais, todos os muçulmanos que já atingiram a puberdade jejuam no Ramadã, todos os dias do mês, entre o nascer e o pôr-do-sol.

    Antes da alvorada, é feita uma pequena refeição preparatória. No crepúsculo, quebra-se o jejum, numa ocasião festiva que costuma reunir amigos e parentes em clima de festa. As pessoas se visitam mutuamente e partilham alimentos em mesas fartas.

    Com a pandemia muitos desses encontros foram substituídos por reuniões feitas apenas por meio de aplicativos de celular e computador. Xeiques reforçaram os pedidos para que os alimentos que seriam compartilhados nos encontros fossem doados a quem mais precisa. Com a prática do confinamento, muitos trabalhadores perderam o emprego e a renda e passaram a depender de instituições de caridade ou da mobilização de parentes e amigos.

    Outra mudança inesperada que o coronavírus trouxe foi a preocupação com a imunidade, já que períodos de jejum e de alteração na rotina de sono podem afetar a capacidade do organismo de se defender de agressões externas.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) mantém no ar uma página completa com recomendações médicas a respeito da prática do jejum pelos muçulmanos do mundo todo. O conteúdo, que já era consultado em período normal, agora ganhou importância redobrada.

    Assim como alguns hábitos milenares da cultura japonesa favorecem o distanciamento social, como o cumprimento conhecido como ojigi, no qual as pessoas se saúdam inclinando o tronco, sem se tocar, também algumas práticas do Islã têm essa característica sanitária inesperadamente realçada pela pandemia.

    A ablução é uma prática incorporada por muitas religiões. No Islã, equivale a um ritual de purificação, no qual o fiel lava-se antes de cada oração. Como são pelo menos cinco orações diárias, de acordo com os preceitos, a higiene é maior, o que pode contribuir para evitar uma propagação ainda maior do vírus.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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