O evento de 1° de maio que uniu Lula e FHC depois de 31 anos

Transmissão organizada por centrais sindicais reuniu políticos de diferentes partidos. Foco foi a defesa dos direitos dos trabalhadores; bordão “Fora, Bolsonaro” não entrou na fala de diversos líderes partidários

    Na sexta-feira, centrais sindicais realizaram um evento virtual unificado de 1° de maio, Dia do Trabalhador, com participações de artistas, sindicalistas e políticos. As mensagens gravadas por líderes de partidos foram reproduzidas entre apresentações musicais, recados de artistas, pedidos de doação e orientações para permanecer em casa.

    O evento reuniu nomes importantes do cenário político brasileiro, de diversos posicionamentos. Membros de partidos como PT, PSDB, PSB, PDT, PCdoB, Solidariedade e Rede Sustentabilidade tiveram mensagens transmitidas como parte do evento de comemoração de 1° de maio. Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003-2010) encerraram a transmissão.

    O evento foi organizado por nove centrais sindicais brasileiras, em uma rara ocasião de união dos diferentes grupos representantes de trabalhadores. As centrais organizadoras do evento foram:

    • CUT, Central Única dos Trabalhadores
    • Força Sindical
    • UGT, União Geral dos Trabalhadores
    • CSB, Central dos Sindicatos Brasileiros
    • CTB, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
    • CGTB, Central Geral dos Trabalhadores do Brasil
    • NCST, Nova Central Sindical de Trabalhadores
    • Intersindical
    • Pública Central do Servidor

    Abaixo, o Nexo mostra o que foi falado — e o que não foi — no evento virtual das centrais sindicais.

    O tom do discurso contra Bolsonaro

    Pouco mais de um mês após a assinatura de um manifesto pedindo a renúncia de Bolsonaro — assinado por nomes fortes da oposição como Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (Psol) —, havia a expectativa de o ato de 1° de maio reunido pelas centrais sindicais marcar o estabelecimento de uma frente ampla contra o presidente.

    Tal movimento poderia intensificar a pressão política sobre Bolsonaro, que vive uma crise institucional pela forma como vem se posicionando sobre as medidas para conter a pandemia de covid-19 e agravada após a saída conturbada de Sergio Moro do Ministério da Justiça. Além disso, uma ação conjunta poderia preparar terreno para as eleições presidenciais de 2022, indicando a cena da oposição para enfrentar Bolsonaro em sua tentativa de reeleição.

    Os discursos, no geral, não falaram explicitamente em uma união contra Bolsonaro. Uma exceção foi o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que chamou o governo do presidente de “aliado do vírus” e disse que é necessário formar uma frente ampla para derrotar Bolsonaro. O bordão “Fora, Bolsonaro” se fez presente na fala de vários sindicalistas e artistas, mas não entrou nos recados de muitas figuras políticas importantes que participaram do evento.

    Lula e FHC juntos no palanque

    O evento virtual de 1° de maio marcou a primeira vez em que Lula e Fernando Henrique dividiram palanque em 31 anos. A última vez havia sido em 1989, no segundo turno das eleições. À época, o petista disputava a Presidência da República com Fernando Collor de Mello, que acabou vencendo a disputa e governou até 1992, quando sofreu impeachment.

    Em sua mensagem de 1° de maio, Fernando Henrique disse que o momento é de união. O tucano, que havia defendido abertamente a renúncia de Bolsonaro em suas redes sociais no dia 24 de abril, afirmou que a celebração unificada é positiva, sendo uma oportunidade de olhar para os problemas do presente — o coronavírus e o desemprego — e de começar a pensar no futuro. Ele também falou em manter a democracia e a liberdade, mas não mencionou Bolsonaro em nenhum momento.

    “Não é hora de nos desunirmos. É hora de nos juntarmos porque temos que construir um futuro. O futuro tem que ser construído a partir das condições do presente. São negativas, eu sei, mas são as que nós temos”

    Fernando Henrique Cardoso

    ex-presidente da República, em mensagem para o evento de 1° de maio de 2020 das centrais sindicais

    O recado de Lula também focou no futuro pós-pandemia. O petista afirmou que a crise do novo coronavírus mostra que o capitalismo está moribundo, e é uma oportunidade de construir um mundo diferente, com o coletivo “triunfando” sobre o individual. O petista também criticou a postura de Bolsonaro durante a pandemia, falando em “deboche” do presidente na gestão da crise.

    “As grandes tragédias também são reveladoras do verdadeiro caráter das pessoas e das coisas. Não me refiro apenas ao deboche do presidente da República com a memória de mais de 5.000 brasileiros mortos pela covid-19. A pandemia deixou o capitalismo nu”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    ex-presidente da República, em mensagem para o evento de 1° de maio de 2020 das centrais sindicais

    Nenhum dos dois ex-presidentes falou em esforços para retirar o atual mandatário do poder, nem usaram o bordão “Fora, Bolsonaro”.

    As falas dos políticos

    Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann, nomes importantes do PT, focaram suas mensagens em saudar os trabalhadores e defender os direitos trabalhistas. A ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016), foi mais dura em sua fala, acusando a redução de direitos dos trabalhadores desde que saiu do poder e fazendo fortes críticas a Bolsonaro e sua gestão na pandemia do novo coronavírus.

    “Irresponsavelmente, Jair Bolsonaro desdenha da doença, zomba dos mortos e avilta a cadeira de presidente da República. Essa epidemia do coronavírus ganha contornos ainda mais graves no Brasil, porque o presidente deixa de atuar como um líder preocupado em salvar vidas humanas”

    Dilma Rousseff

    ex-presidente da República, em mensagem para o evento de 1° de maio de 2020 das centrais sindicais

    Entre os petistas Haddad, Gleisi e Dilma, apenas Haddad não repetiu o bordão “Fora, Bolsonaro”. O partido aderiu ao movimento contra o presidente da República em 21 de abril.

    Marina Silva, candidata à presidência em 2018 pela Rede Sustentabilidade, disse que o momento é de união em torno da defesa da vida, dos direitos e da democracia brasileira. Ela se posicionou a favor do isolamento social e criticou Bolsonaro sem mencionar o nome do presidente.

    “Que não se permita que qualquer governo com delírios autoritários queira retomar o processo de ditadura e de autoritarismo no nosso país”

    Marina Silva

    ex-senadora pelo Acre (1995 a 2011) e candidata derrotada nas eleições presidenciais de 2018, em mensagem para o evento de 1° de maio de 2020 das centrais sindicais

    Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, focou sua fala em três eixos: o combate ao novo coronavírus, a defesa do SUS (Sistema Único de Saúde) e o apoio à economia pelo poder público brasileiro. Dino, que havia assinado o manifesto da oposição pela renúncia de Bolsonaro em março, sequer mencionou o nome do presidente em sua mensagem.

    Ciro Gomes (PDT), outro signatário do manifesto de março, também preferiu não direcionar sua mensagem à crítica a Bolsonaro, e sim à defesa dos direitos dos trabalhadores. Ele falou em desmonte das conquistas históricas trabalhistas e disse que antes mesmo da crise do coronavírus a situação do mercado de trabalho já era ruim, com alto desemprego e informalidade. Segundo o ex-governador do Ceará, o pós-pandemia será um momento de reflexão e construção de um novo projeto nacional de desenvolvimento.

    “Precisamos de um projeto que coloque o trabalho e os trabalhadores no centro, e não a especulação”

    Ciro Gomes

    ex-governador do Ceará (1991 a 1994) e candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2018, em mensagem para o evento de 1° de maio de 2020 das centrais sindicais

    Os desfalques do evento

    Nos dias anteriores ao evento, diversos nomes do cenário político brasileiro foram ligados ao palanque virtual. Entre eles, os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, também iria gravar uma mensagem para a transmissão.

    A presença de figuras políticas do DEM e do PSDB levou o Psol, partido de esquerda, a se afastar do evento. O afastamento incluiu o candidato do partido nas eleições presidenciais de 2018, Guilherme Boulos. O argumento era de que não faria sentido dividir o espaço com partidos que apoiaram projetos de flexibilização de direitos trabalhistas, como a reforma trabalhista de 2017. A reação negativa de movimentos de esquerda levou Maia e Alcolumbre a desistirem de participar da transmissão.

    Já Toffoli decidiu não participar após o ministro do Supremo Alexandre de Moraes barrar a nomeação por Jair Bolsonaro de Alexandre Ramagem como novo chefe da Polícia Federal. O presidente reagiu, atacando publicamente a deliberação de Moraes e dizendo que “não engoliu” a decisão. Nesse contexto, Toffoli não quis participar do 1° de maio das centrais sindicais para não passar a impressão de afrontar Bolsonaro, segundo apuração do jornal Folha de S.Paulo.

    O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) — um dos maiores opositores de Bolsonaro dentro da direita brasileira —, chegou a gravar uma longa mensagem de 1° de maio, obtida e divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo. No entanto, o recado, em que criticava Bolsonaro e dizia que errou ao apoiar o ex-capitão nas eleições de 2018, não foi ao ar na transmissão das centrais sindicais. De acordo com a assessoria de imprensa da CUT, Witzel não enviou o vídeo para as centrais sindicais.

    A fala de Bolsonaro sobre o 1° de maio

    Enquanto acontecia a live das centrais sindicais, Bolsonaro disse sobre o 1° de maio que gostaria que todos voltassem ao trabalho. A declaração foi feita em uma transmissão da deputada Bia Kicis (PSL-DF) no Palácio do Alvorada.

    “Eu gostaria que todos voltassem a trabalhar, mas quem decide isso não sou eu, são os governadores e prefeitos”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em transmissão feita no dia 1° de maio de 2020

    Desde o início da pandemia, Bolsonaro deixou claro que não apoiaria o isolamento social, sob o argumento de não prejudicar a economia e os empregos dos brasileiros. No evento das centrais sindicais, a defesa do isolamento social e os cuidados para trabalhadores de serviços essenciais foram temas que apareceram com muita frequência durante as mais de cinco horas de transmissão.

    A dinâmica recente dos sindicatos

    Os atos do Dia do Trabalhador têm peso simbólico importante no cenário político. A data ganhou relevância a partir do primeiro período do governo Getúlio Vargas (1930 a 1945; 1950 a 1954), quando foi criado o salário mínimo. Além da cobrança por direitos e melhores condições de trabalho, os movimentos sindicais se consolidaram como campo de debate político durante a ditadura.

    Na história recente, os atos do Dia do Trabalhador tornaram-se espaços cobiçados por políticos e servem de termômetro da situação do governo diante da classe trabalhadora.

    O evento online de 2020 foi apenas a segunda vez em que as principais lideranças sindicais brasileiras se unem para atos do Dia do Trabalhador. O primeiro havia sido no ano anterior, 2019. Antes disso, o histórico das duas maiores centrais sindicais do país – CUT (Central Única dos Trabalhadores) e Força Sindical – era de oposição.

    Ao longo do governo de Dilma Rousseff, as duas centrais reuniram em seus atos de 1° de maio argumentos antagônicos, com a CUT apoiando a presidente e a Força Sindical fazendo oposição. Os eventos da Força Sindical, inclusive, contaram com a presença de políticos opositores a Dilma, como Aécio Neves (PSDB-MG) — derrotado nas eleições de 2014 pela petista — e Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-deputado federal e responsável, quando presidente da Câmara (2015 a 2016), por iniciar o processo de impeachment da petista. Enquanto isso, a presença de lideranças do Partido dos Trabalhadores, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, era recorrente nos carros de som da CUT.

    No impeachment da presidente petista, em 2016, a CUT adotou o discurso “contra o golpe”, enquanto Força Sindical endossou o “fora Dilma”. Sob Michel Temer (2016 a 2018), as duas maiores centrais brasileiras se opuseram à agenda de reformas endossada pelo novo governo, que incluía mudanças na Previdência e nas leis trabalhistas.

    Em 2019, no primeiro ano de presidência de Jair Bolsonaro, as principais centrais sindicais do Brasil se juntaram para um ato conjunto de 1° de maio. A pauta responsável pela união foi a oposição à reforma da Previdência, um dos principais itens da agenda econômica do novo mandatário. À época, o texto da reforma tramitava na Câmara dos Deputados — o Congresso aprovou o projeto em outubro de 2019 e a promulgação ocorreu no mês seguinte.

    Em 2020, os presidentes nacionais da Força Sindical e CUT — Miguel Torres e Sérgio Nobre, respectivamente — pediram a renúncia de Bolsonaro, afirmando que o presidente não tem condições de governar em meio à pandemia do novo coronavírus.

    Pós-reforma trabalhista

    O histórico recente dos sindicatos é de enfraquecimento. A reforma trabalhista que entrou em vigor em novembro de 2017 colocou fim à contribuição sindical obrigatória. Com isso, o total arrecadado pelos sindicatos caiu mais de 85%, indo de R$ 2,04 bilhões em 2017 para R$ 283 milhões em 2018.

    Em termos de número de filiados, também houve queda em 2018. Mais de 1,5 milhão de pessoas deixaram de ser ligadas aos sindicatos naquele ano, o que se refletiu na menor taxa de sindicalização da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012.

    Em 2020, já durante a pandemia, os sindicatos sofreram uma derrota relacionada à Medida Provisória 936, editada em 1° de abril, que institui regras que autorizam as empresas a reduzir expedientes e salários temporariamente no setor privado formal. O texto também permite a suspensão de contratos por no máximo dois meses.

    A medida provisória prevê que para quem ganha entre R$ 3.135 e R$ 12.202,12, as reduções devem ser negociadas coletivamente, com participação dos sindicatos. Nas outras faixas salariais, a negociação pode ser individual, sem participação sindical. Em 6 de abril, o ministro do STF Ricardo Lewandowski determinou que mesmo as reduções acordadas individualmente precisariam do aval dos sindicatos para passar a valer. Mas, em 17 de abril, o plenário do Supremo reverteu essa decisão, permitindo acordos individuais sem anuência dos sindicatos.

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