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O estudo que destaca o Brasil como o pior cenário na pandemia

Segundo projeção do Imperial College de Londres, país deve registrar mais de 5.000 mortes na primeira semana de maio e tem a taxa de contágio mais alta entre 48 nações analisadas

    Um estudo divulgado na quarta-feira (29) pelo Imperial College de Londres concluiu que o Brasil apresenta a mais alta taxa de contágio do novo coronavírus entre 48 países. A instituição, que divulga semanalmente uma previsão de curto prazo do número de mortes provocadas pela covid-19 em diferentes lugares, estima que o país registrará mais de 5.000 óbitos na primeira semana de maio.

    Ao lado dos Estados Unidos, cuja população é maior, o Brasil é o único país a ter um número tão alto de mortes no horizonte próximo. Além disso, é apontado pelo estudo como um dos nove países onde, com base nas estimativas de transmissibilidade, a epidemia ainda está crescendo.

    Apesar da previsão de uma grande quantidade de mortes para a próxima semana, os EUA já apresentam probabilidade de estabilização ou crescimento lento da epidemia, de acordo com o relatório. Isso deixa o Brasil isolado com o prognóstico mais grave.

    Por aqui, o número de reprodução do vírus calculado pelo Imperial College é de 2,8, o maior entre todos os países analisados, o que indica que cada infectado no país transmite Sars-Cov-2 para cerca de outras três pessoas.

    O cálculo do estudo e a subnotificação no Brasil

    A projeção de vítimas fatais feita pelo estudo é baseada no número de mortes por covid-19 divulgado por cada país na semana que teve início em 26 de abril. O dado é considerado mais confiável em comparação ao número de casos confirmados, que varia de acordo com a política e a capacidade de testagem de cada lugar. Mas o próprio relatório alerta que a precisão varia de acordo a qualidade do monitoramento e das informações fornecidas pelos países analisados.

    O balanço divulgado pelo Ministério da Saúde na quinta-feira (30) apontou um total de 5.901 mortes e 85.380 casos confirmados. Na terça-feira (28), o Brasil ultrapassou o número de mortes da China, primeiro epicentro da doença.

    Uma pesquisa comissionada pelo estado do Rio Grande do Sul e coordenada pela Universidade Federal de Pelotas indica que para cada caso notificado, há outros 12 não notificados. Esta etapa da pesquisa realizou testes em 4.500 pessoas em nove cidades gaúchas. A partir de maio, os pesquisadores começarão a coletar amostras para replicar a pesquisa em âmbito nacional.

    Já uma análise do portal Covid-19 Brasil, para o qual colaboram dezenas de professores e pesquisadores brasileiros, aponta que o número total de casos no país teria chegado a 1.201.686 (admitindo uma flutuação entre 957.085 e 1.494.692) em 28 de abril, um valor 16 vezes maior do que o dado oficial.

    Apesar de ser o indicador mais consolidado para análises sobre a doença, as mortes no Brasil também apresentam subnotificação. Um indicativo disso é o aumento no número de internações e mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) durante o período da pandemia. São casos de pacientes com sintomas como febre, tosse e dificuldade de respirar, que nem sempre são testados para saber se estão com covid-19 ou se houve infecção por outro tipo de vírus.

    Segundo o sistema Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz, foram 5.580 mortes por SRAG até 25 de abril, quando o país contabilizava 4.016 mortes por covid-19. Trata-se de um número quase três vezes maior, em apenas quatro meses, do que a média anual registrada entre 2010 e 2019, de cerca de duas mil mortes anuais por SRAG.

    Ao portal G1, o coordenador do Infogripe, Marcelo Gomes, afirmou que a subnotificação das mortes decorre principalmente dos óbitos em que não houve testagem para covid-19 e dos que ocorreram em casa — estes não são registrados pelo sistema da Fiocruz, que monitora os dados de notificação de SRAG no Brasil com base em informações de hospitais e unidades de saúde.

    O papel do Imperial College

    A universidade britânica que vem realizando projeções do avanço da pandemia em diversos países é uma das mais respeitadas do mundo no campo da epidemiologia. Conta com uma equipe de mais de 50 cientistas que estão estudando a doença, liderados pelo proeminente pesquisador da área Neil Ferguson.

    Além da excelência de seus modelos matemáticos, a instituição possui grande influência junto a governos e à comunidade científica.

    Um relatório publicado pelo Imperial College no final de março, com o alerta de que a disseminação do vírus sem quaisquer medidas de controle levaria à morte de 2,2 milhões de pessoas nos EUA e 510 mil no Reino Unido é apontado como razão para a guinada na política de enfrentamento à epidemia do primeiro-ministro britânico Boris Johnson.

    Segundo autoridades americanas, o estudo também teve impacto nas medidas de isolamento que passaram a ser recomendadas pela Casa Branca e na mudança de discurso do presidente Donald Trump.

    A gestão da pandemia pelo governo federal

    O estudo publicado pelo Imperial College no fim de março também trazia projeções da evolução da pandemia no Brasil em diferentes cenários. No pior deles, em que nenhuma medida de distanciamento social fosse colocada em prática, o país chegaria a 1,1 milhão de mortos.

    Poucos dias antes da divulgação, o presidente Jair Bolsonaro havia minimizado a gravidade da covid-19 em um pronunciamento em rede nacional em 24 de março, comparando a doença a uma “gripezinha”. Ao contrário do que aconteceu nos EUA e no Reino Unido, cujos líderes também haviam inicialmente desdenhado dos efeitos do vírus, o presidente brasileiro não mudou de atitude com o agravamento da epidemia do país.

    Bolsonaro desrespeita pessoalmente as orientações de distanciamento social, cumprimentando apoiadores e participando de manifestações populares. Também critica fortemente a quarentena decretada por governadores e prefeitos.

    Questionado na terça-feira (28) sobre o recorde de mortes por covid-19 registradas em um único dia, Bolsonaro respondeu: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

    Favorável ao relaxamento das medidas de isolamento e à retomada da atividade econômica, o presidente demitiu em meio à crise sanitária o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que defendia o isolamento como estratégia de combate à pandemia. O discurso do governo federal é com frequência errático, com a pasta recomendando uma coisa e o presidente, outra.

    Na quinta-feira (30), Bolsonaro voltou a criticar as quarentenas e disse, sem apresentar evidências, que elas não fizeram efeito na disseminação da doença no país. No mesmo dia, Nelson Teich, que substituiu Mandetta no Ministério da Saúde, afirmou que não é possível flexibilizar o distanciamento enquanto a curva de casos no Brasil estiver em ascensão.

    O ministro defende medidas de distanciamento em graus variados a depender da região.“Simplesmente perguntar se fica em casa ou não é resposta simplista para um problema que é heterogêneo. Quem for positivo vai ficar, quem for mais velho vai ficar. Vai depender da curva e dos casos em cada região”, disse.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que o número de mortes por SRAG até abril de 2020 era quase quatro vezes maior em relação à média anual da última década. Na verdade, ele é quase três vezes maior. A informação foi corrigida em 5 de maio de 2020, às 19h26.

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