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Ele criou o 1º teste da covid-19. E virou celebridade na Alemanha

Virologista que estuda vários tipos de coronavírus, Christian Drosten fala para milhões de pessoas em um podcast e chegou até a aconselhar Angela Merkel na pandemia

    Frente à pandemia do novo coronavírus, autoridades de várias partes do mundo têm olhado para ciência a fim de implementar políticas de distanciamento social como forma de conter a transmissão da doença.

    Empresários, economistas, lideranças religiosas e outras vozes de influência deram espaço a epidemiologistas, imunologistas e virologistas, alçados a uma posição de prestígio no debate público.

    Na Alemanha, por exemplo, Christian Drosten, que estuda desde 2003 os vários tipos de coronavírus, tornou-se uma celebridade. Com a pandemia de covid-19, o virologista aconselhou a chanceler alemã Angela Merkel e seu ministro da Saúde, atraiu centenas de milhares de seguidores em sua conta no Twitter e foi premiado por sua atuação como divulgador científico na campanha de contenção do vírus.

    Como a pandemia alçou o virologista

    Chamado pelos jornais alemães de “papa do coronavírus”, Drosten ganhou notoriedade depois de assumir em fevereiro de 2020 um podcast da rede pública de televisão e rádio NDR. Nele, o pesquisador atualiza os ouvintes sobre vacinas, máscaras, fechamento de escolas e outros achados e decisões relevantes em torno da doença.

    Quando o vírus estava mais restrito à China e a alguns países asiáticos, nos dois primeiros meses de 2020, ele disse que não era ouvido por jornalistas com a devida seriedade. Convidado para comandar o podcast, de cerca de 40 minutos, em fevereiro, ele pôde — inicialmente em todos os dias úteis, e agora duas vezes por semana — explicar de forma acessível o desafio que o país enfrentaria.

    “Muitas pessoas podem não entender tudo o que ele diz. Mas é reconfortante ouvir alguém explicando o que está acontecendo”

    Holger Wormer

    jornalista científico e professor da Universidade Técnica de Dortmund, em entrevista à revista Science, no dia 28 de abril

    Parte do sucesso se deve também aos conselhos que Drosten dá em vários dos episódios. Em um deles, antes de a quarentena ter sido decretada em 22 de março na Alemanha, ele alertou que as pessoas optassem nos bares pela cerveja de garrafa em vez da bebida de torneira, porque os copos nem sempre são higienizados da forma correta.

    Mais de um milhão de pessoas o ouvem regularmente, tornando o podcast o mais escutado do país. Nas redes sociais, ele até se tornou meme. Os números expressivos motivaram a criação de programas parecidos, alçando uma série de outros virologistas.

    Com a fama, surgiram também acusações de que ele e colegas da área teriam tomado as rédeas do governo. A polícia passou a monitorar sua caixa de e-mails depois que passou a receber ameaças de morte daqueles contrários às medidas de isolamento social.

    “Para muitos alemães, sou o cara mau que está aleijando a economia. (...) Mais preocupantes para mim são outros e-mails, os de pessoas que dizem ter três filhos e estão preocupados com o futuro. Não é minha culpa, mas esses me mantêm insones à noite”

    Christian Drosten

    virologista, em entrevista ao jornal The Guardian, no dia 26 de abril

    A carreira de Christian Drosten

    Hoje chefe do Instituto de Virologia do hospital Charité, em Berlim, Drosten nasceu em 1972 no distrito de Emsland, no oeste da Alemanha. Criado em uma fazenda de porcos, ele foi o primeiro da família a cursar uma universidade.

    Dedicou a carreira para os estudos dos diferentes tipos de coronavírus. Em entrevista à revista Science, ele disse que só assumiu um papel de destaque porque a covid-19 era causada por um coronavírus, e não por um vírus de influenza, por exemplo. Abaixo, o Nexo destaca as principais contribuições do virologista.

    A Sars

    Quando estava para defender o doutorado, em 2003, ele recebeu amostras de sangue de uma médica da Singapura que tratava casos de uma nova doença respiratória contagiosa. Tratava-se da Síndrome Respiratória Aguda Grave, a Sars, como seria cunhada pouco tempo depois pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

    O virologista usou um método que ele havia desenvolvido para ampliar e sequenciar o material genético do vírus. Com parte do genoma em mãos, ele descobriu estar lidando com um novo tipo de coronavírus. Até então, o mundo conhecia dois outros, que também infectavam humanos, mas causavam apenas resfriados comuns.

    A Sars se espalhou por 30 países, infectando 8.000 pessoas, das quais 10% morreram. Drosten desenvolveu o primeiro teste para diagnóstico da doença e divulgou o protocolo na internet, o que lhe garantiu prêmios dentro e fora da Alemanha.

    A Mers

    Em 2013, o pesquisador estudou o caso de um saudita de 73 anos que contraiu uma doença respiratória semelhante e foi se tratar na Alemanha. Não era um caso isolado, e a OMS logo cunhou a moléstia de Síndrome Respiratória do Oriente Médio, a Mers.

    A família do paciente, que acabou falecendo, contou que ele havia adoecido após tratar um camelo doente em Abu Dhabi. A partir dessa ligação, Drosten confirmou em uma pesquisa que esses animais estavam servindo de hospedeiros da doença antes de ela saltar para os humanos.

    Em experimentos com antigos coronavírus, ele descobriu que um deles, causador apenas de resfriado, também havia se originado em camelos. Era um sinal de que os coronavírus de animais podiam evoluir para doenças humanas e desencadear uma pandemia.

    A covid-19

    Já como chefe do Instituto de Virologia do hospital Charité, Drosten somou forças em um grupo liderado pelo virologista Victor Corman, que desenvolveu o primeiro teste para diagnóstico da covid-19.

    Para isso, a equipe separou sequências do genoma da Sars que poderiam ser semelhantes a de outros tipos de coronavírus. Quando o genoma da covid-19 de Wuhan, primeiro epicentro da doença no mundo, foi liberado, o grupo bateu os dados com o trecho da Sars que mais se aproximava deles. Com o teste pronto, a OMS publicou o protocolo em seu site para que cada país pudesse detectar casos importados.

    Em entrevista à Science, Drosten explicou que não imaginava que o novo coronavírus seria ao mesmo tempo mais fatal e transmissível que os antigos. Diferentemente dos anteriores, a covid-19 pode ser transmitida mesmo antes de os sintomas surgirem — o que é comum apenas em vírus da gripe.

    As expectativas do virologista para a pandemia

    A Alemanha era vista como um caso de sucesso no combate à pandemia. Apesar do alto número de contaminados, o país tinha uma taxa de letalidade baixa, com aproximadamente 2% do total de casos — a Itália chega aos 12%, por exemplo.

    A partir do dia 20 de abril, quando as medidas de isolamento passaram a ser flexibilizadas, a Alemanha viu, porém, um novo crescimento no número de casos.

    O índice de transmissão, que mede quantas pessoas um doente de covid-19 pode infectar, subiu ao patamar de 1, o que é sinal de alerta para a lotação de leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva). Em meados de abril, o índice alemão era de 0,7.

    É justamente uma segunda onda o que teme Christian Drosten. Ele afirmou que a Alemanha começou a voltar à normalidade rápido demais, “jogando completamente fora a vantagem que tivemos”. O plano de Angela Merkel é de flexibilizar a quarentena a partir de uma série de fases.

    Ao jornal The Guardian, no dia 26 de abril, Drosten disse que se estabelece agora um efeito do que ele chama de “paradoxo da prevenção”, segundo o qual as pessoas alegam que o governo exagerou nas medidas. Se, pelo contrário, a Alemanha não tivesse se precavido no primeiro momento, ela teria seguido o curso de outros países bastante afetados, e a população culparia o governo de ineficácia.

    Para o virologista, qualquer país que queira conter uma nova onda precisa rastrear as interações dos infectados de forma eletrônica e desenvolver sistemas de vigilância que testam a população regularmente e acompanham o desenvolvimento do índice de transmissão.

    Depois que a pandemia de covid-19 for superada, ele afirma que é preciso ficar alerta para surtos de novos e antigos coronavírus. A própria Mers ainda não foi vencida. Ela é um problema local em países do Oriente Médio, e estudos de como o vírus evolui nos animais podem ajudar a controlar futuras ameaças.

    Outros divulgadores científicos na pandemia

    A Alemanha não é o único país a ver divulgadores científicos no centro do debate público. No Brasil, o doutor em microbiologia pela USP Atila Iamarino ganhou destaque depois de usar suas redes sociais para repercutir pesquisas e previsões sobre o novo coronavírus.

    Com estudos publicados sobre ebola e zika vírus, ele foi entrevistado por alguns dos principais veículos jornalísticos, como a TV Cultura, no programa Roda Viva. Mas, antes da pandemia, ele já usava de portais de cultura nerd na internet, como o Jovem Nerd e o Nerdologia, para atingir milhões de pessoas.

    Nos Estados Unidos, Anthony Fauci, porta-voz do governo no combate à covid-19, não era tão conhecido na internet, mas atualmente a usa com frequência para conscientizar diferentes grupos da gravidade da pandemia. Para além dos jornais, ele já conversou com o criador do Facebook Mark Zuckerberg e o atleta da NBA Stephen Curry. A lista de participações também inclui entrevistas para youtubers e podcasters.

    Fauci é chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e ajudou presidentes republicanos e democratas no combate a diversas epidemias do passado, como o HIV nos anos 1980.

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