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Qual o impacto da pandemia nas instituições para idosos

Mortes por covid-19 em asilos são comuns na Europa e nos EUA e começam a ser reportadas no Brasil

Em uma semana, um lar de idosos de Piracicaba, interior de São Paulo, registrou seis mortes por covid-19. Segundo informações de terça-feira (28), o estabelecimento Lar Betel contava com 28 casos da doença, entre idosos e funcionários. Dez pessoas estão internadas no Hospital Regional de Piracicaba.

No Canadá, pelo menos cinco idosos morreram de covid-19 em um asilo num período de menos de um mês, começando em 13 de março. Ao todo, no mesmo período, 31 residentes morreram no local, o que levantou suspeitas de que houve uma disseminação generalizada da doença no abrigo. Os moradores do asilo foram abandonados à própria sorte, ficando dias sem alimentação, remédios ou cuidados de higiene. As mortes foram descobertas pelo governo canadense em 10 de abril. O caso chocou o país.

A tragédia foi ainda maior em Andover, nos Estados Unidos, onde 70 idosos morreram de covid-19 desde o início de abril, em um lar caracterizado por higiene precária, aglomeração de residentes e poucos funcionários. O vírus se espalhou com velocidade nesse cenário.

Em 23 de abril, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse que quase metade das mortes causadas pelo novo coronavírus na Europa foi registrada em asilos.

Em toda a Europa, os asilos têm sido notoriamente negligenciados. Mas não deveria ser assim, afirmou à imprensa o diretor europeu da OMS, Hans Kluge. Ele descreveu a mortandade em casas de repouso como “tragédia humana inimaginável.

Ainda mais vulneráveis

Os casos chamam a atenção para a situação dos moradores de abrigos e casas de repouso, um segmento especialmente vulnerável dentro do maior grupo de risco do novo coronavírus.

A taxa de letalidade da covid-19 aumenta conforme a idade. Um estudo do Imperial College, em Londres, de março, relatou que 4% dos infectados na faixa dos 60 anos morreram. Na faixa seguinte, dos 70 anos, o índice salta para 8,6%. Acima dos 80, o índice de letalidade é de 13,4%.

Segundo a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), residentes de abrigos públicos, casas de repouso particulares e outras instituições para permanência de idosos são particularmente vulneráveis à covid-19, ao lado de idosos frágeis e pessoas que têm comorbidades como diabetes e hipertensão. Não raro o mesmo indivíduo se encaixa nas três definições.

Em abril de 2020, a SBGG preparou um relatório para subsidiar a Comissão de Defesa dos Direitos do Idoso da Câmara dos Deputados no enfrentamento da pandemia. O documento enfatiza a atenção que deve ser dada às instituições para moradia de idosos. Segundo o texto, há cerca de 78 mil idosos em instituições credenciadas no Sistema Único de Assistência Social.

No relatório, a entidade recomenda que as vigilâncias sanitárias municipais e os serviços de assistência social façam um levantamento local de estabelecimentos para os mais velhos. As informações colhidas devem incluir localização, número de pessoas atendidas e serviços e funcionários de que dispõem.

No dia 22 de abril, o Ministério Público de Contas do estado de São Paulo recomendou que o governo do estado trace uma estratégia para frear o contágio por covid-19 nas casas e abrigos para idosos. O órgão recomendou que sejam distribuídos equipamentos como máscaras e álcool em gel a mais de 2.000 asilos públicos e particulares. Pelos cálculos dos procuradores, cerca de 45 mil pessoas vivem nesses locais, onde a maioria dos quartos é dividida entre dois e cinco idosos.

Condições precárias

A precariedade é comum nesse tipo de instituição. Em 2016, um estudo do Ministério Público do Rio de Janeiro apontou que, de 60 asilos inspecionados, apenas cinco tinham condições de prestar atendimento individualizado.

Essas pessoas estão vivendo em condições precárias de atendimento, de cuidados, essas pessoas não têm suporte nutricional, não têm suporte de cuidados, começam a ter mais sequelas do que proteção nessas instituições”, afirmou José Elias Soares Pinheiro, presidente da SBGG, à rádio CBN, à época.

Muitas instituições enfrentam dificuldades financeiras. O diretor-presidente do Lar Betel de Piracicaba, Luiz Adalberto dos Santos, pediu doações de alimentos, produtos de limpeza e máscaras de proteção, além de dinheiro. Segundo o documento do Ministério Público de Contas, em muitos locais profissionais estão improvisando toucas de cabelo para proteção”.

Outros operam na ilegalidade. Em Campinas, na sexta-feira (24), um asilo clandestino foi interditado pela vigilância sanitária depois da morte de um idoso por covid-19. A Polícia Militar precisou ser acionada para que os agentes sanitários entrassem no local.

É uma instituição de longa permanência para idosos, está em funcionamento e também está sendo interditada pela vigilância sanitária por más condições. Não tem licença, não tem registros, não tem os controles de medicação, disse Ana Lúcia Montini, chefe de serviços da Vigilância Sanitária, ao portal G1.

O que devem fazer asilos na pandemia

A SBGG publicou uma série de recomendações para prevenção e controle da covid-19:

  • Suspensão de visitas de parentes e amigos por tempo indeterminado
  • Elaboração de planos de ação e de vigilância para evitar contaminação e surtos da doença, apropriados para as características de cada estabelecimento
  • Criação de áreas para isolamento respiratório para residentes que apresentarem sintomas, além de buscar ventilação natural nos ambientes, evitando o ar-condicionado
  • Afastamento imediato de funcionários com sintomas respiratórios ou febre
  • Restrição de atividades em grupo e circulação em áreas comuns

Atenção aos idosos

Em março, a SBGG expressou preocupação com decisões que reduzam o isolamento das pessoas. Em nota, a associação afirmou que afrouxar as restrições da quarentena será “extremamente prejudicial para o combate ao coronavírus (SARS-CoV-2) em todo o Brasil. Podendo, assim, acarretar em um número maior de infectados e mortes”.

O comunicado foi publicado depois que o presidente Jair Bolsonaro defendeu o chamado isolamento vertical, modelo que prevê o confinamento apenas de grupos de risco, nos quais se incluem os idosos.

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