O impacto na saúde de quem supera quadros graves de covid-19

Por causa do tratamento invasivo, complicações motoras, cardíacas, respiratórias e mentais podem se manifestar mesmo após um paciente se recuperar da doença causada pelo novo coronavírus

    As complicações da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, obrigam uma parte dos pacientes infectados pelo vírus – entre eles uma parcela considerável de jovens – a serem internados em hospitais para o tratamento. Os cuidados recebidos nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), para onde vão os quadros mais graves, podem levar a reflexos tardios na saúde mesmo depois da recuperação.

    Tratam-se de complicações motoras, cardíacas, respiratórias e até mentais em decorrência do estrago causado pelo vírus ou por tratamentos desgastantes.

    Quanto mais tempo submetido a intervenções invasivas, maiores as chances de desenvolver problemas no futuro. Uma particularidade do novo coronavírus é que a média de dias de internação para um paciente grave é bem maior na comparação com outras doenças. Com a covid-19, grande parte fica 20 dias na UTI. Antes do início da pandemia, nos EUA, a estadia média não passava dos 4 dias.

    Muitas práticas usadas em hospitais para internados em UTIs, que poderiam amenizar os impactos futuros do tratamento intensivo, acabam sendo preteridas em tempos de pandemia devido ao sobrecarregamento de profissionais e unidades de saúde.

    2.260%

    foi o crescimento no número de internações em UTIs em São Paulo, entre 20 de março e 13 de abril, durante a pandemia

    No Brasil, Amazonas, Pará, Ceará e Pernambuco já apresentam ocupação dos leitos de UTI superior a 90% por causa do coronavírus.

    Quais podem ser as complicações

    Antes da covid-19, estudos já apontavam, independentemente da doença, os impactos sofridos por pacientes que se recuperam de um tratamento em UTI.

    A intensidade dos reflexos varia de acordo com o tempo de internação e agravos clínicos causados por cada doença. Abaixo, o Nexo destaca as principais complicações causadas pelo novo coronavírus ou pelo tratamento que ele exige.

    Impactos do vírus no sistema respiratório

    Nos casos mais graves, o novo coronavírus consegue chegar aos alvéolos pulmonares, pequenos sacos de ar presentes no pulmão, responsáveis pela troca gasosa que oxigena o sangue. Para combatê-lo, o corpo começa um processo inflamatório, que pode preencher os alvéolos com líquido.

    Esse é um quadro de pneumonia severa, quando os pacientes precisam ser entubados com um suporte de ventilação mecânico. Em alguns casos, essa inflamação deixa cicatrizes, que podem causar problemas respiratórios a longo prazo.

    Há alguns estudos em andamento, que ainda são inconclusivos. Alguns apontam que mesmo pacientes graves podem recuperar completamente a função dos pulmões. Outros, anteriores à pandemia atual, apontam que qualquer tipo de pneumonia severa pode aumentar os riscos futuros de ataques cardíacos, derrames cerebrais e doenças renais.

    Impactos respiratórios do tratamento

    Respiradores e ventiladores mecânicos são equipamentos médicos fundamentais para o tratamento dos casos mais graves de covid-19. Quando usados no longo prazo, no entanto, essas máquinas podem trazer efeitos prejudiciais.

    À agência de notícias Reuters, o médico Eddy Fan, especialista em tratamento respiratório no Hospital Geral de Toronto, no Canadá, disse que “a ventilação médica pode piorar a lesão pulmonar”, e por isso deve ser usada com cautela.

    Quanto mais tempo um paciente fica com um ventilador, maiores as chances de desenvolver dependência ao equipamento, tornando-se mais difícil de se desfazer dele. Um estudo de 2015 mostrou que a taxa de mortalidade para pacientes nessa situação era quase 20% maior se comparada aos que também usavam o aparelho, mas por menos tempo e sem apresentar dependência.

    “Ventiladores não são tratamento. É uma medida de apoio enquanto esperamos o corpo do paciente se recuperar”

    Roger Alvarez

    especialista pulmonar do Sistema de Saúde da Universidade de Miami, em entrevista à revista Time

    O ventilador funciona imprimindo pressão para que o oxigênio possa ser processado pelos pulmões, e é usado pela boca em pessoas que não conseguem mais respirar sozinhas. Para evitar danos no tecido pulmonar, limita-se o tempo de uso e quão forte é essa pressão.

    Geralmente, para pneumonias bacterianas, uma pessoa não passa mais de dois dias com o equipamento. Como a inflamação causada pela covid-19 é grande, pacientes podem ficar até 15 dias com ele, submetidos a altos níveis de pressão. Depois de curados, os reflexos podem perdurar.

    O uso prolongado dos ventiladores também aumenta o risco de infecção por germes, já que os tubos oferecem caminho direto da máquina para os pulmões.

    Impactos motores

    Para receber ventilação mecânica, a maior parte das pessoas precisa ser sedada e entubada — quando um tubo é introduzido pela traqueia para manter a via aberta até os pulmões. Esse procedimento praticamente impede que os pacientes se mexam. Uma das consequências do tempo parado pode ser o desenvolvimento de úlceras, infecções de pele e tromboses durante e depois do tratamento.

    Em ocasiões normais, hospitais mantêm fisioterapeutas que de tempos em tempos ajudam os pacientes a se movimentar. Sem equipamentos de proteção sequer para médicos e enfermeiros, muitas dessas práticas estão sendo descontinuadas durante a pandemia.

    Impactos mentais

    Estudos apontam que uma pessoa que é internada em uma UTI, independentemente da doença, tem maior propensão a desenvolver problemas como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.

    Uma das pesquisas tratou de chineses hospitalizados (em UTI e leitos comuns) por Síndrome Respiratória Aguda Grave, a Sars, que é causada por um tipo diferente de coronavírus. Mais de um terço delas apresentaram sintomas de depressão e ansiedade um ano depois. O tempo médio de internação para quadros mais delicados da Sars é de 10 dias; 6 a menos do que nos casos graves do novo coronavírus.

    Em entrevista ao site Business Insider, Craig Weinert, pneumologista e médico intensivista da Universidade de Minnesota, disse que esses problemas mentais são comuns especialmente para pacientes em ventiladores porque o tratamento significa, por natureza, que eles estavam perto da morte.

    Outro risco são quadros de delírio que, a longo prazo, podem levar a prejuízos cognitivos como deficits de memória. Algumas pesquisas, ainda inconclusivas, apontam que parte da culpa pode estar relacionada a inflamações causadas pelo novo coronavírus, que restringem o fluxo sanguíneo e podem matar células do cérebro.

    A sedação usada para entubar pacientes também pode ter influência nisso, especialmente quando os medicamentos habituais acabam. Em entrevista à revista Science, E. Wesley Ely, pneumologista e médico intensivista da Universidade Vanderbilt (EUA), afirma que muitos profissionais usam sedativos que intensificam e prolongam os episódios de delírio.

    “Eles [pacientes] podem lembrar que uma enfermeira ou médico estava tentando machucá-los quando na verdade estavam realizando um procedimento para ajudá-los”

    Timothy Girard

    professor associado de medicina intensiva na Universidade de Medicina de Pittsburgh, em entrevista à revista MIT Technology Review

    O que pode ser feito para evitar os impactos

    Ainda que a pandemia represente uma situação excepcional de sobrecarga em hospitais, profissionais da saúde possuem técnicas que podem ser usadas para tentar mitigar os impactos de tratamentos intensivos.

    Para evitar o impacto de ventiladores, médicos recomendam que profissionais diminuam a pressão dos equipamentos para testar se os pacientes conseguem acordar, respirar ou mesmo tolerar a respiração mecânica sem medicamentos. Se isso não for possível, a orientação é que os medicamentos sejam administrados em doses menores.

    Para combater complicações motoras, a fisioterapia se torna tão essencial quanto as demais atividades médicas durante o tratamento, por isso fisioterapeutas fazem parte da equipe de tratamento intensivo de hospitais. Depois da alta, dependendo do estado do paciente, a fisioterapia pode ser mantida para recuperar a capacidade pulmonar.

    Para evitar problemas na saúde mental, enfermeiros de unidades menos sobrecarregadas podem adotar um diário dos pacientes, listando o que de mais importante aconteceu com eles e quando. Isso pode ajudá-los a processar a experiência nos meses depois da alta. A interação com familiares e amigos via internet também pode ajudar a desestressar e acalmá-los.

    Uma vez recuperados de um tratamento em UTI, o mais importante é garantir que todos tenham acesso pronto a medicamentos, terapias e fisioterapias.

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