Como festivais de cinema se articulam na pandemia

Evento digital e gratuito ‘We Are One’ transmitirá filmes e outras atrações a partir do fim de maio. Participam da curadoria alguma das principais mostras do mundo, adiadas por causa da crise

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    Um evento digital foi anunciado na segunda-feira (27) pela Tribeca Enterprises, com a participação de grandes festivais internacionais de cinema. Praticamente todos esses eventos (o Festival de Berlim, uma das exceções, aconteceu em janeiro) não poderão ocorrer como planejado devido à pandemia do novo coronavírus.

    A empresa nova-iorquina responsável pelo Festival de Cinema de Tribeca, que tem entre seus fundadores o ator Robert De Niro, se juntou ao YouTube e a 20 mostras renomadas do mundo todo para organizar o We Are One: A Global Film Festival (Somos um só: um festival global de cinema, em tradução livre). Com duração de 10 dias, o evento ocorrerá entre 29 de maio e 7 de junho.

    A programação, ainda não divulgada, será elaborada pelas mostras parceiras, como Cannes, Toronto e Veneza. Serão transmitidos – gratuitamente e sem anúncios, no canal do festival no YouTube – curtas e longas-metragens de ficção, documentários, apresentações musicais, humorísticas e debates.

    Os espectadores serão encorajados a fazer doações para o combate à covid-19, doença causada pelo vírus. Elas serão destinadas à OMS (Organização Mundial da Saúde) e a entidades locais.

    Perspectivas para os festivais

    O We Are One não pretende substituir as mostras adiadas, mas criar uma programação unificada, paralela à que deve ser apresentada pelos festivais no futuro.

    Até o momento, o Festival de Veneza, na Itália, está previsto para ocorrer entre 2 e 12 de setembro. Já o Festival de Toronto, no Canadá, também habitualmente realizado em setembro, planeja realizar uma edição híbrida, parte virtual e parte presencial. Mas admite, no pior cenário, a possibilidade de que o componente presencial não seja incluído.

    O cenário de maior indefinição é o de Cannes, na França. Originalmente marcado para maio, o festival já foi adiado duas vezes. Atualmente, não há nenhuma previsão de data ou mesmo a certeza de que a edição de 2020 será mantida.

    O evento se mostra mais resistente com relação a implementar uma edição digital. Atuando há décadas como uma prestigiada plataforma de lançamento para filmes que entram em cartaz nas salas de cinema da França e do resto do mundo, Cannes tem uma ligação íntima com a experiência tradicional do cinema e com distribuidores e exibidores do país europeu. Em 2018, o festival baniu a plataforma de streaming Netflix de sua competição ao proibir a participação de filmes que não fossem lançados nos cinemas franceses.

    Com a quarentena decretada na França, o diretor do festival Thierry Frémaux declarou no início de abril de 2020 que, se não pudesse ser realizado presencialmente, o Festival de Cannes não migraria para o ambiente virtual.

    Em entrevista à revista americana Variety, ele declarou que o modelo não funcionaria para o festival, tendo em conta sua “alma” e sua história. Também mostrou preocupação com os direitos autorais das obras em exibições virtuais. “Deveríamos começar perguntando aos detentores dos direitos se eles concordam [com um festival digital]”, disse. O risco de pirataria também é uma preocupação que emerge com a proliferação de festivais digitais.

    “Filmes de Wes Anderson ou Paul Verhoeven em um computador? Descobrir ‘Top Gun 2’ ou ‘Soul’ [da Pixar] em outro lugar que não em uma sala de cinema? Esses filmes foram adiados para ser vistos em uma tela grande, por que iríamos querer exibi-los antes, em um dispositivo?”

    Thierry Frémaux

    diretor do Festival de Cannes, em declaração à revista Variety

    Com o prolongamento do isolamento social no país, porém, a organização do festival comunicou ter iniciado, em meados de abril, conversas com profissionais de dentro e fora da França. “Eles concordam que o Festival de Cannes, um pilar da indústria cinematográfica, precisa explorar todas as possibilidades que permitam o apoio ao cinema, tornando a edição de 2020 realidade de uma forma ou de outra”, diz o comunicado.

    A adesão ao We Are One, do qual Frémaux e o presidente do festival Pierre Lescure se declararam orgulhosos em fazer parte, também pode indicar uma mudança de direção.

    Em um artigo publicado no jornal The Guardian, o crítico de cinema Peter Bradshaw afirma que o futuro dos festivais de cinema não é ver filmes em casa, pelo computador.

    Ele reconhece que o streaming tem mantido o cinema vivo durante a pandemia, permitindo que filmes possam ser lançados, e especula que o We Are One poderia seguir existindo como um evento anual, que criasse uma nova forma de interação do público com o cinema, talvez votando online nos filmes que mais agradaram.

    Mas, para Bradshaw, os eventos presenciais dificilmente serão substituídos: há a tela grande, o encontro compartilhado com centenas de desconhecidos, a conversa depois da sessão. E, claro, a economia movimentada pelos festivais nas cidades que os hospedam, com patrocínios, venda de ingressos, convidados e turistas.

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