Bicicletas contra o vírus: a ideia francesa pós-confinamento

Governo libera pacote milionário de incentivo ao ciclismo na esperança de esvaziar trens, metrôs e ônibus após o fim da quarentena

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Depois de apostar uma corrida contra o alastramento do coronavírus, as autoridades francesas entraram numa nova disputa. O desafio agora é correr contra o tempo para que a população, ao sair do confinamento, a partir de 11 de maio, troque o transporte público coletivo por bicicletas.

Quanto mais franceses optarem por mover-se em duas rodas, menor será a aglomeração dentro dos ônibus – que, em muitas cidades francesas, como Paris, não têm sequer janelas para serem abertas, mas apenas pequenos vitrôs basculantes de ventilação.

O mesmo vale para o gigantesco emaranhado de linhas e estações que compõem o metrô parisiense, um dos mais antigos e maiores do mundo, composto por 16 diferentes linhas e 300 estações que se estendem ao longo de mais de 200 km.

Foto: Charles Platiau/Reuters - 23.09.2009
Estacionamento de bicicletas públicas
Bicicletas públicas em Paris

A aglomeração e a pouca ventilação no transporte público favorecem a disseminação do vírus. Com o retorno gradual do funcionamento de parte da indústria e do comércio, e com a reabertura parcial de escolas e creches, o fluxo de passageiros no sistema de transporte voltará a crescer e, com ele, o risco de contágio. Daí a preocupação em criar alternativas que favoreçam o distanciamento social.

Até quinta-feira (30), a França era o terceiro país europeu em número de pessoas diagnosticadas com a covid-19 (166.543 casos) e o quarto em número de mortos (24.087).

Para frear a propagação da doença, o governo do presidente Emmanuel Macron impôs quarentena nacional a partir de 17 de março, estipulando penas para quem desobedecesse a regras como a de não se afastar mais de um quilômetro de casa, ou para quem saísse à rua sem o preenchimento de uma licença obrigatória de deslocamento.

A paralisação levou a França à maior queda de seu setor produtivo desde 1949, no período do pós-Guerra, com um recuo de 5,8% no PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre de 2020.

A reabertura deveria ter ocorrido em 15 de abril, mas acabou postergada para 11 de maio porque o sistema de saúde continuava saturado. O governo ainda vive um dilema porque sabe que não é possível voltar à normalidade sem que os casos voltem a subir. Uma nova data já é mencionada no horizonte: 2 de junho, e as autoridades dizem que, ainda assim, a quarentena total pode voltar a qualquer momento se for preciso.

“Temos de voltar ao trabalho. É preciso que um número máximo de franceses volte a trabalhar”, declarou o ministro da Economia, Bruno Le Maire, na quarta-feira (29), um dia depois de o primeiro-ministro, Édouard Phillippe, ter apresentado o plano do governo para o desconfinamento gradual aos deputados na Assembleia Nacional.

Dinheiro para os ciclistas

Para incentivar os franceses a usarem suas bicicletas no período de desconfinamento, o governo decidiu criar um fundo de 20 milhões de euros, o que equivale a aproximadamente R$ 116 milhões.

É desse fundo que sairá uma ajuda individual única de 50 euros por pessoa, equivalente a R$ 290, para quem quiser financiar reparos de freios, pneus e luzes em suas bicicletas. O governo está, na prática, pagando para que os franceses pedalem.

A iniciativa é encabeçada pelo Ministério da Transição Ecológica e Solidária da França. A pasta, chefiada por Elisabeth Borne, ganhou relevância no governo Macron, que encontrou no nicho verde uma bandeira e um ponto de contato com movimentos mais à esquerda, que reivindicam mudanças profundas contra a mudança climática.

“Nós queremos que esse período seja uma virada em relação à cultura ciclista, e que a bicicleta venha a ser a pequena rainha do desconfinamento”

Elisabeth Borne

ministra da Transição Ecológica e Solidária da França, em post nas redes sociais, no dia 30 de abril de 2020

Além de financiar pequenos reparos nas bicicletas, o governo anunciou a instalação de ciclofaixas temporárias adicionais nas grandes cidades, além da ampliação dos locais de estacionamento seguro de bicicletas. A ministra Borne defende ainda que os trabalhadores que fazem o deslocamento entre os locais de residência e de trabalho em bicicleta recebam uma gratificação de 400 euros (R$ 2.322) por ano.

Os interessados são orientados a fazer um cadastro na FUB (Federação Francesa de Usuários de Bicicleta), uma organização sem fins lucrativos que trabalha em parceria com o governo.

Contra os carros em Paris

Além de diminuir a lotação do transporte público, o uso de bicicletas tem uma segunda intenção: diminuir também o uso dos carros. Em cidades como Paris, o trânsito na área central é complicado e tende a piorar à medida que muitos moradores deem preferência a transportes individuais depois do confinamento.

O governo apela para o fato de que 60% dos trajetos feitos cotidianamente na região metropolitana de Paris são de menos de cinco quilômetros, o que não justifica o uso do automóvel. Entretanto, muitos podem ver em seus carros uma bolha de proteção.

30 milhões

é o número de bicicletas que existem na França para uma população de quase 67 milhões de pessoas

Os que defendem o uso das bicicletas em vez dos carros argumentam que as bicicletas transportam entre quatro e cinco vezes mais pessoas do que um carro, ocupando o mesmo espaço. As vias para uso ciclístico permitem o trânsito do dobro de pessoas em relação às vias exclusivas para carros em horários de pico em Paris.

A batalha de argumentos e a disputa por recursos já vinha sendo parte do ambiente de disputa política na França antes da eclosão da pandemia. A atual prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo, do Partido Socialista, é uma fervorosa militante das bicicletas.

Foto: Charles Platiau/Reuters - 13.01.2020
Anne Hidalgo em Paris
Prefeita de Paris, Anne Hidalgo

Em sua campanha pela reeleição, ela defendia a redução das vagas de estacionamento para carros na cidade e a ampliação das ciclovias e ciclofaixas, que mesmo atualmente já cobrem a maioria das ruas da chamada “Pequena Coroa” de Paris, que corresponde à zona mais central da região metropolitana.

O coronavírus suspendeu a campanha eleitoral. O primeiro turno foi realizado no dia 15 de março, com grande índice de abstenção – só 45% dos eleitores apareceram para votar. O segundo turno, que ocorre nas maiores cidades, acabou cancelado e ainda não tem data para acontecer.

A suspensão do pleito é uma metáfora do debate político que ocorre em torno do uso das bicicletas na França – uma alternativa ecologicamente correta que espera o fim da quarentena para pôr sua aceitação e popularidade à prova, com uma subvenção milionária do Estado, como é costume no sistema francês.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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