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Quais os riscos da liberação de testes rápidos em farmácias

Anvisa decidiu permitir temporariamente exames para desafogar hospitais, mas especialistas alertam para as falhas no diagnóstico da covid-19

    Pessoas que queiram realizar testes rápidos para a detecção do novo coronavírus poderão recorrer às farmácias de todo o país, segundo uma decisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgada na terça-feira (28). A medida tem sido criticada por especialistas da área da saúde devido à baixa precisão desse tipo de exame, o que poderia confundir e colocar a população em risco.

    Na quarta-feira (29), o Brasil registrou mais 449 mortes num período de 24 horas devido à doença. Ao todo, o país já tem 5.466 mortes e 78.162 casos confirmados.

    O diretor-presidente do órgão, Antonio Barra Torres, afirmou que a ideia é aumentar os pontos que ofereçam os testes para desafogar a rede pública de saúde e diminuir a procura por serviço médico, além de reduzir as aglomerações nos hospitais. A oferta dos exames é temporária e vale apenas durante a vigência do estado de emergência sanitária.

    Os testes devem ser disponibilizados na segunda semana de maio, de acordo com uma estimativa da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias). Eles serão cobrados, como já é feito em laboratórios privados, onde variam de R$ 200 a R$ 500. Será necessária a presença de profissionais capacitados para a aplicação. A Anvisa ainda deve publicar notas técnicas para orientar as farmácias.

    Os testes rápidos, também conhecidos como sorológicos, usam amostras de sangue para detectar anticorpos contra o Sars-CoV-2, o agente causador da covid-19. Eles demoram de 10 a 30 minutos.

    As críticas à liberação

    A decisão da Anvisa preocupa especialistas porque os testes rápidos podem apresentar até 80% de falso negativo, ou seja, de cada cinco pessoas que possuem anticorpos contra o novo coronavírus, apenas uma poderá descobrir isso fazendo o exame.

    A recomendação é que eles sejam aplicados apenas após o oitavo dia de sintomas, como uma ferramenta complementar, e não como diagnóstico definitivo. Por isso, esse tipo de exame não é recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Alguns países chegaram a desistir de seu uso.

    Alemanha e a Coreia do Sul, por exemplo, recorreram ao teste PCR, também chamado de molecular, para monitorar a epidemia. Ao analisar a secreção recolhida da garganta de um paciente, mesmo que não apresente sintomas, o exame identifica a presença do RNA do vírus em tempo real. Eles são, porém, mais caros, por serem processados em laboratórios e dependerem de profissionais treinados e insumos importados.

    Especialistas dizem que os testes rápidos podem levar a um comportamento de risco. Pessoas infectadas mas que ainda não desenvolveram os anticorpos, por exemplo, podem receber o diagnóstico negativo na farmácia e continuar a circular, transmitindo o vírus a outras pessoas.

    Uma análise sobre a iniciativa da Anvisa

    Para discutir as implicações da liberação dos testes rápidos nas farmácias, o Nexo ouviu a virologista Giliane Trindade, que é professora associada do departamento de microbiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

    Como avalia a liberação desses testes nas farmácias?

    GILIANE TRINDADE O que eu vejo com receio? A minha vizinha hoje no grupo do WhatsApp já mandou a notícia falando: “Vai ter testes em farmácia, eu vou lá fazer”. Se ela testar negativo, o que isso quer dizer? Absolutamente nada. Porque pode ser que seja, de fato, negativa, mas pode ser que ela seja uma falsa negativa. Não deu tempo ainda de soroconverter, ela chegou lá e não detectou esses anticorpos.

    Esses testes têm que ser olhados com um gestor por trás. Um gestor de saúde tem que saber o que vai fazer com esses resultados. É assim que a gente trabalha com estudos sorológicos. Ele vai ajudar no manejo da população. É preciso ter cuidado do ponto de vista individual. Esses indivíduos que vão correr para a farmácia para poder fazer, se forem positivos, provavelmente estão no final do processo infeccioso de liberação de vírus no ambiente, então já foi. Mas se forem negativo, não tem muito peso.

    Além disso, esses testes podem custar em torno de R$ 200. Quem vai fazer teste de R$ 200 toda semana? Nós não temos condição de manter isso na população. Os artigos que tratam de testes rápidos na Europa e nos EUA apontam que os testes têm um problema grave de sensibilidade. O que quer dizer isso? São poucos sensíveis para detectar os pacientes de fato positivos. As chances deles darem falso negativo é muito alta. Eles são melhores na especificidade, o que é bom porque não vai cruzar anticorpo contra outro patógeno. Mas a sensibilidade parece ser bem ruim. Testes avaliados na Alemanha tinham 36% de sensibilidade. Isso é baixíssimo.

    Vamos imaginar que você se infectou hoje com o coronavírus e chegou na farmácia quatro dias depois porque não estava muito bem e resolveu se testar. Em Minas Gerais, a gente só tem testes para casos graves. A não ser que pague por isso num laboratório, não chega num sistema público e vai ter o material coletado se não tiver sintomas ou se apresentar sintomas leves. Você chega na farmácia e pede para fazer um teste rápido para ver se foi infectado pelo coronavírus. Faz e dá negativo. Não deu tempo de soroconverter e produzir anticorpos numa concentração suficiente para ser detectado pelo teste. Porque todo teste tem um limite de detecção. Ele foi aplicado no momento errado.

    Esses testes têm que ser analisados à luz de outros links. Por exemplo, um link epidemiológico, com a sintomatologia, com o histórico desse paciente. O que que vai acontecer? Se tiver dado positivo, ótimo. Se estamos falando de um contexto de manejo da população, esse indivíduo pode recompor força de trabalho. Agora, se der negativo, não quer dizer nada. Não quer dizer que ele não tenha sido infectado.

    Eu gostaria que isso fosse explicado pelo Ministério da Saúde, qual a intenção deles com essa liberação. Já vi, pela declaração da Anvisa, que seria para evitar aglomerações ou procura em posto médico. Ele só vai procurar se estiver se sentindo mal ou tiver entrado em contato com alguém que tenha sido infectado. E, nesse caso, esse teste não vai detectar nesse momento mesmo. Pelos estudos que eu li, a melhor janela para aplicar esses testes sorológicos é depois de duas semanas, entre 10 e 14 dias após o início dos sintomas. Se estiver tudo bem com o indivíduo, ele ficou andando de 10 a 14 dias sem saber que foi infectado. Acho de pouca valia.

    Alguém que foi infectado fica imune?

    GILIANE TRINDADE Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Em teoria, o que a gente sabe quando tem infecções agudas, alguém que teve sarampo, por exemplo, raramente vai ter sarampo duas vezes na vida, assim como alguém que teve febre amarela. Ele monta uma resposta imune que vai protegê-lo provavelmente até o resto da vida. Em alguns casos, isso não se aplica. No indivíduo HIV positivo ou no HCV positivo crônico, com o vírus da hepatite C, eles têm anticorpos, só que o vírus têm mecanismos de persistência no organismo. Então, não basta ter anticorpos. O que ainda está sendo analisado é se o indivíduo que se soroconverteu, e produziu os anticorpos, é capaz de ser infectado de novo. O que a gente esperaria é que provavelmente não. Com base em outras análises de infecções de caráter agudo, provavelmente não. Mas é uma doença nova e isso precisa ser comprovado cientificamente.

    Neste caso, seria melhor desconsiderar o passaporte imunológico por precaução?

    GILIANE TRINDADE Não. Na verdade, vamos ter que considerar esse passaporte senão a vida vai paralisar por completo. Esse passaporte vai ter que ser considerado para voltar a ter uma vida próxima ao que era antes. Agora, tem que ser analisada qual a porcentagem que soroconverte, qual a porcentagem que está, de fato, protegida. Porque essas são perguntas clássicas. E já foram respondidas para outras doenças. Para essa, a gente ainda está tentando responder. Vi notícias de paciente que se reinfectou. Isso tem que ser olhado com muito cuidado. Foi de fato uma reinfecção ou esse paciente estava fazendo uma excreção longa desse vírus? Ele se curou dos sintomas e continuou excretando vírus? Sarar implica no desaparecimento dos sintomas. Mas o paciente estava sendo acompanhado para a carga viral e continuou excretando o vírus mesmo tendo melhorado fisicamente? Uma coisa é um paciente estar depurando as partículas virais e ainda achar resíduos e restos de RNA, porque está ainda produzindo partículas virais, mas a gente não sabe a quantidade dessas partículas e se seria suficiente para uma transmissão. Se esses vírus estão vivos ou não.

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