Por que França e Espanha têm reaberturas tão cautelosas

Países europeus relutam em decretar o fim da quarentena, e já anunciam necessidade de se acostumar a um ‘novo normal’

    Dois dos três países europeus mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus – Espanha e França – anunciaram na terça-feira (28) seus planos de reabertura, após mais de um mês de quarentena, que implica na proibição quase total de sair às ruas, sob pena de multa e, nos casos mais graves, até de prisão.

    Ao contrário do que seus cidadãos esperavam, o fim do confinamento não será total nesses países. Os espanhóis planejavam proclamar a reabertura em 4 de maio. Os franceses, em 11 de maio. Porém, ambos já reconhecem que esse período de sacrifício econômico e social deve ser estendido, com adaptações, até pelo menos o início de junho.

    A Itália, país mais atingido do continente, assim como a Alemanha, que apresentou melhores resultados, são países que também adotaram estratégias de descongelamento paulatino, mas com horizontes e planos mais claros de reabertura – o que não significa, em todo caso, que esses dois países também não possam voltar atrás.

    Na Europa, franceses e espanhóis dão mostras de ainda ver o futuro como incerto, e falam até mesmo numa nova realidade permanente, em que as privações serão parte de um possível novo normal.

    Enquanto observam experimentos de reabertura como os da China e da Nova Zelândia, esses governos tentam, ao mesmo tempo, aplacar a ansiedade de uma população cansada e golpeada pela crise, assim como a pressão de uma oposição interna que dá mostras de saturação após um período que teve ares de pacto nacional contra a pandemia.

    172 milhões

    é o número de pessoas que vivem na Itália, na Espanha e na França, o três países mais afetados pela pandemia na Europa

    O medo, em todos esses países, é de que uma reabertura mal calculada faça os casos se multiplicarem descontroladamente outra vez, sobrecarregando hospitais que, por enquanto, conseguiram superar a fase mais crítica nos maiores países da Europa.

    Até quarta-feira (29), a Itália somava 201.505 contaminados e 27.359 mortos, a Espanha tinha 232.128 contaminados e 23.822 mortos, e a França contava 169.053 contaminados e 23.660 mortos.

    Qual o plano espanhol

    A rota de reabertura espanhola recebeu o sugestivo nome de Plano para a Transição em Direção a Uma Nova Realidade. À diferença dos demais países do continente, a Espanha não fixou datas escalonadas para uma reabertura paulatina de comércio e escolas. Tudo dependerá do desempenho. Se funcionar, o plano será concluído no final do mês de junho.

    O turismo responde por 12% do PIB (Produto Interno Bruto) da Espanha, e liberar novamente o país para viagens internas e estrangeiras até o pico do verão, no mês de julho, corresponde ao melhor cenário possível para uma retomada que se faz mais necessária a cada dia.

    O premiê Pedro Sánchez propôs um plano dividido em quatro fases, que vão de zero a três. Na fase zero, os comércios podem funcionar sob regras estritas: por exemplo, com hora marcada para atender a cada cliente. Restaurantes podem reabrir suas cozinhas, mas apenas para entregas, não para serviço no próprio local.

    Na fase seguinte, de número um, começará um descongelamento gradual nas regiões mais distantes e menos habitadas da Espanha, com o comércio atendendo a população de risco em faixas de horário pré-determinadas. Na fase dois, funcionariam os comércios que possam implementar uma separação segura dos clientes.

    Os estudantes não voltariam às aulas antes de setembro. Até lá, é possível que cinemas e teatros sejam reabertos, desde que limitem o número de assentos e o espaçamento entre os frequentadores, já na fase três, a última. Tudo isso, no entanto, está sujeito a avaliações feitas a cada duas semanas.

    “Se tivermos de escolher entre a prudência e o risco, escolheremos a prudência. Vamos sem GPS. Este é um plano flexível. Podemos perder o que conseguimos conquistar. O vírus segue aí, à espreita, até que tenhamos uma vacina. É preciso tempo. Temos de combater a impaciência”

    Pedro Sánchez

    primeiro-ministro da Espanha, em pronunciamento no dia 28 de abril de 2020

    O primeiro caso de coronavírus na Espanha foi registrado no dia 31 de janeiro. A primeira morte, no dia 13 de fevereiro. As primeiras restrições começaram em 10 de março e a quarentena em si foi decretada no dia 16 de março.

    Qual o plano francês

    O plano francês de reabertura foi apresentado na terça-feira (28) à Assembleia Nacional pelo primeiro-ministro, Edouard Phillippe. A sessão mostrou que há um clima crescente de disputa com uma oposição que dá prova de intolerância diante da forma como o governo de Emmanuel Macron maneja a crise.

    O coro dos descontentes foi puxado pelo deputado Jean-Luc Mélenchon, expoente do setor mais à esquerda no espectro político da Assembleia, o partido França Insubmissa, que, da tribuna, classificou o plano de Macron como “odioso”, por não oferecer horizontes seguros aos pais de crianças em idade escolar e aos trabalhadores franceses.

    Apesar das críticas, o plano apresentado pelo primeiro-ministro foi aprovado pela Assembleia, onde o bloco governista tem maioria. O plano prevê um desconfinamento em duas etapas. A primeira terá início em 11 de maio. A segunda, em 2 de junho. O governo promete disponibilizar 700 mil testes por semana para os franceses. Os contaminados que não precisem de cuidados médicos continuam sendo orientados a permanecer em suas casas, isolados. Se não for possível, eles contam com hotéis de isolamento, que foram requisitados pelo Estado.

    A partir de 11 de maio, a circulação na França passa a ser permitida dentro de um raio de 100 quilômetros a partir do local de domicílio. Hoje, esse raio é de apenas um quilômetro. As reuniões familiares, mesmo em locais privados, serão limitadas a grupos de dez pessoas. Eventos esportivos e culturais estão proibidos até setembro. O uso de máscara passa a ser obrigatório no transporte público, que circulará com capacidade reduzida. Bares e restaurantes permanecem fechados até o fim de maio, quando uma junta decidirá se eles poderão reabrir em 2 de junho.

    Um dos pontos mais polêmicos é a reabertura das escolas e creches, onde a proposta do governo pareceu vaga. Phillippe falou numa abertura gradual, “à base do voluntariado”, a partir de 11 de maio, com classes limitadas a apenas dez alunos. Os cursos ginasiais ficam fechados, em princípio, até junho. A questão educacional foi a mais criticada pela oposição, que concluiu que o governo está deixando com os pais de alunos a decisão de mandar ou não os filhos à escola, sem ter uma regra clara das autoridades sanitárias.

    “Eu digo aos franceses: se os indicadores não são positivos, nós não faremos o desconfinamento no dia 11 de maio, ou nós teremos de fazê-lo de forma mais estrita”

    Édouard Phillippe

    primeiro-ministro da França, em discurso na Assembleia Nacional, no dia 28 de abril de 2020

    O primeiro caso de coronavírus na França foi registrado no dia 25 de janeiro. A primeira morte foi notificada em 26 de fevereiro. As primeiras restrições começaram em 29 de fevereiro e a quarentena teve início em 17 de março.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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