Como a Argentina conseguiu achatar a curva do coronavírus

Ritmo de transmissão desacelerou no país que foi pioneiro na América Latina em adotar medidas rígidas de isolamento social

A Argentina anunciou nesta segunda-feira (27) o prolongamento de seu rígido esquema de isolamento social até o dia 10 de maio. É a terceira vez que o presidente Alberto Fernández adia o fim da medida, que ele chama de “obrigatória e preventiva”.

Por determinação do Executivo federal, o país se encontra desde 19 de março sob lockdown, modalidade de quarentena que bloqueia totalmente a movimentação nas ruas. A Argentina foi pioneira na América Latina na adoção de medidas duras contra a transmissão do vírus.

A quarentena forçada argentina prevê multa a quem andar sem máscara, cassação de alvará de comerciantes que não se protegerem, patrulhas nas estradas e rastreamento de celulares de motoristas.

Apesar da prorrogação, Fernández permitiu pela primeira vez uma flexibilização nas quarentenas. Saídas com objetivos recreativos (mas não esportivos) serão permitidas por períodos de até uma hora e a uma distância máxima de 500 metros da residência da pessoa. “Vão poder andar e tomar ar por uma hora diariamente, mas não correr nem andar de bicicleta”, esclareceu o presidente.

Províncias e municípios têm a palavra final sobre a flexibilização. Muitos não pretendem autorizá-la, caso das cidades de Buenos Aires, Santa Fé e Córdoba. “Os grandes aglomerados urbanos, zonas com mais de 500 mil habitantes, com circulação viral, não autorizarão as saídas”, afirmaram prefeitos de várias cidades, em carta conjunta.

Segundo uma pesquisa da consultoria Analogias, publicada no fim de março, o governo conta com aprovação de 79% da população, enquanto Alberto Fernández atinge 94%.

Fronteiras e voos

Outra medida prorrogada é o fechamento das fronteiras. Fernández expressou preocupação com a situação no Brasil e seus possíveis reflexos na Argentina.

“Não acho que o governo brasileiro esteja encarando o problema com a seriedade que o caso requer. Eu gosto muito do povo do Brasil, mas isso me preocupa muito porque [o vírus] pode vir para a Argentina”, declarou o presidente argentino.

O líder do país vizinho comentou que caminhões de carga vindos de São Paulo (“onde o foco de infecção é altíssimo”) podem importar também o vírus.

Nesta segunda-feira (27), o governo argentino também prorrogou a proibição de voos comerciais nacionais e internacionais no país, assim como a venda de passagens aéreas. A medida tem validade até setembro.

País reduziu transmissão

Com suas políticas severas, a Argentina se tornou um caso de sucesso de “achatamento da curva”, expressão que descreve a desaceleração do ritmo de transmissão do novo coronavírus. O objetivo principal de achatar a curva é evitar que o sistema de saúde do país fique sobrecarregado, o que poderia acontecer no caso de haver um pico de infecções em um curto espaço de tempo.

Em 20 de março, a taxa de transmissão no país dobrava a cada 3,3 dias. Em 12 de abril, a taxa já tinha se dilatado para ser 10,3 dias. Ou seja, já demorava 3 vezes mais tempo para que a taxa de contágio se duplicasse. Em 26 de abril, a taxa já era de 17,1 dias.

Vale lembrar que o país não realizou testagem em larga escala, a exemplo de outros lugares citados como sucesso no combate ao vírus (como Alemanha e Coreia do Sul). Segundo dados do site Worldometer, disponíveis em 29 de abril, a Argentina realizou 1.240 testes por milhão de habitantes. É menos que o Brasil (1.597), Chile (9.030) e Uruguai (5.222).

Segundo dados mais recentes compilados pelo site Worldometer, que permite comparar os países do mundo, a Argentina tinha 5 mortos por covid-19 para cada um milhão de habitantes. No Brasil, o número é de 24. Os Estados Unidos, são 184 óbitos para cada milhão de pessoas.

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casos confirmados de covid-19 na Argentina em 29 de abril, segundo a plataforma da Universidade Johns Hopkins

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mortes por covid-19 na Argentina em 29 de abril

A população do país é atualmente de 44,5 milhões de habitantes, praticamente a mesma do estado de São Paulo (com 44,04 milhões), que na mesma data já passava dos 26 mil casos de infecção e mais de 2.200 mortos.

Medidas para a economia

“Prefiro ter 10% de pobres, mas não 100 mil mortes na Argentina (pelo coronavírus)”, afirmou Fernández em um pronunciamento na televisão em 10 de abril. Para o presidente, de centro-esquerda, é “falso” o dilema entre saúde e economia. Seu governo apresentou medidas que visam amenizar o impacto da quarentena na economia e na renda da população.

No fim de março, foi prometida uma ajuda de 10 mil pesos (cerca de R$ 850) para o mês de abril. Chamada Ingresso Familiar de Emergência (IFE), é destinada a trabalhadores entre 18 e 65 anos, formais ou informais, que tiveram sua fonte de ganho interrompida.

De acordo com o instituto de pesquisa da Universidade Católica da Argentina, quase metade das habitantes do país trabalhava na economia informal. A extensão do benefício será avaliada de acordo com a duração da quarentena.

Outra iniciativa foi um decreto federal que proibiu demissões e suspensões de trabalhadores por 60 dias. A iniciativa veio depois que a empresa de engenharia e construção Techint, uma das maiores do país, mandou embora 1.450 funcionários, sem justa causa. Criticada por Fernandez, e temendo danos a sua imagem, a empresa recontratou os empregados.

No mesmo dia, o presidente liberou 30 bilhões de pesos (cerca de R$ 2,5 bilhões, na cotação de 27 de abril) do equivalente ao Fundo de Garantia do país para serem acessados por empresas com o propósito de facilitar empréstimos e evitar demissões.

Mais recentemente, Fernández anunciou novas medidas de alívio para pequenos e médios empregadores e trabalhadores. Elas incluem o adiamento ou redução em até 95% do pagamento de contribuições patronais à Previdência e um abono equivalente a 50% do salário líquido de fevereiro deste ano para trabalhadores.

Recentemente, o país anunciou que iria abandonar as negociações de acordos comerciais do Mercosul para focar em prioridades internas. São conversas avançadas com Canadá, Coreia do Sul e Singapura, além da intenção de iniciar conversas com os Estados Unidos.

Em paralelo, o governo argentino resolveu adiar o pagamentos de até US$ 10 bilhões em dívidas emitidas em dólares para credores locais. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito de longo prazo do país, de CC para “calote restrito”.

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