Bolsonaro diante do recorde de mortes na pandemia: ‘e daí?’

No dia em que o Brasil superou o número de mortes da China, presidente diz ‘que não faz milagres’. Adesão da população ao isolamento social começa a cair em meio ao agravamento das contaminações no país

    Jair Bolsonaro foi questionado na terça-feira (28) sobre o número recorde de registros de mortes no país pelo novo coronavírus em um só dia. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, afirmou o presidente, fazendo referência a seu nome do meio.

    A declaração foi dada a jornalistas na porta do Palácio da Alvorada, no dia em que o Brasil computou 474 mortes de pessoas infectadas em 24 horas. Ao todo, são 5.017 mortos, uma realidade que coloca o país acima da China, epicentro inicial da covid-19, doença causada vírus, em número de vítimas fatais na pandemia.

    “Eu tenho que falar com o ministro [Nelson Teich, da Saúde], ele que fala de número. Eu não falo sobre a questão da saúde”, complementou. Ao final da entrevista, quando soube que suas declarações estavam sendo transmitidas ao vivo na televisão, ele concluiu: “Nos solidarizamos as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas, mas é a vida”.

    Há pouco mais de uma semana, Bolsonaro havia dito algo similar quando indagado sobre a escalada de mortes pelo novo coronavírus no país. “Ô, cara, quem fala de... Eu não sou coveiro, tá certo?”, disse, em 20 de abril, também na porta do Alvorada.

    As declarações dão o tom da atitude de Bolsonaro diante da crise sanitária. Em 10 de março, ele disse que a pandemia era uma “fantasia criada pela mídia”. Cinquenta dias depois, o Brasil já somava mais de 5.000 vítimas fatais e 70 mil casos confirmados de covid-19. Esses números são limitados, dada a alta subnotificação e outros indicadores que apontam para uma situação mais grave do que a oficial.

    Isolamento social: discurso do presidente e queda na adesão

    Desde que a pandemia se intensificou no Brasil e governadores passaram a impor regimes de quarentena nos estados, fechando o comércio, o negacionismo de Bolsonaro com relação à gravidade da crise se intensificou.

    O presidente brasileiro sai com frequência às ruas, onde cumprimenta apoiadores, sem o uso de máscaras, provocando aglomerações em locais públicos. Ele também já deu pronunciamento em cadeia nacional chamando as medidas de combate à pandemia adotadas por governadores de “histeria” e apoia grupos de manifestantes que saem às ruas para pedir o fim da quarentena. Defendeu, em diversas ocasiões, a “volta à normalidade” para mitigar o impacto econômico das medidas restritivas.

    O isolamento social é defendido por especialistas e autoridades da saúde de todo o mundo como uma estratégia eficiente contra a propagação do novo coronavírus.

    É o que defendem, por exemplo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o próprio Ministério da Saúde brasileiro. As recomendações têm sido seguidas por parte dos governadores e prefeitos.

    Dessa forma, evitando aglomerações, é possível frear a curva de crescimento de casos, evitando que um grande número de pessoas fique infectada ao mesmo tempo e sobrecarregue os sistemas de saúde.

    Apesar do consenso entre especialistas, da adesão de boa parte dos governantes do mundo e dos diversos estudos apontando os impactos positivos do isolamento social no combate à pandemia, a quantidade de pessoas que ficam em casa está caindo no Brasil.

    A taxa de adesão ao distanciamento social no Brasil caiu pela quinta semana consecutiva, segundo monitoramento da empresa In Loco publicado na terça-feira (28), com base na geolocalização de celulares. Outros levantamentos apontam na mesma direção, em um momento em que os números de mortes e casos confirmados crescem no Brasil, e hospitais sofrem com a alta ocupação.

    Em 16 de abril, Bolsonaro demitiu Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, em meio a uma disputa sobre como deveria ser a política nacional de combate à pandemia do novo coronavírus. Em seu lugar, nomeou Nelson Teich, mais alinhado ao presidente com relação à flexibilização do isolamento social.

    Teich, no entanto, não tem detalhado planos para a reabertura das quarentenas e não tem respondido diretamente a temas relacionados à quarentena. Nesta terça (29), ele admitiu o agravamento da crise, mas silenciou sobre a campanha do presidente para acabar com as medidas restritivas.

    ‘E daí’ também foi dito na crise da Polícia Federal

    Bolsonaro também reagiu com um “e daí”, desta vez nas redes sociais, quando um usuário perguntou sobre indicação de um amigo da família para comandar a Polícia Federal, após Sergio Moro pedir demissão do Ministério da Justiça acusando o presidente de tentar interferir no órgão de investigação.

    “E daí? (...) Por isso, deve ser vetado? Devo escolher alguém amigo de quem?”, escreveu, fazendo referência a Alexandre Ramagem, novo diretor-geral da Polícia Federal.

    Ramagem substitui Maurício Valeixo no comando do órgão. A exoneração de Valeixo foi o estopim para o pedido de demissão de Sergio Moro. Ao anunciar seu desligamento na sexta-feira (24), o ex-ministro acusou Bolsonaro de querer controlar as atividades do órgão a fim de defender aliados.

    Na segunda-feira (27), o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello autorizou a abertura de um inquérito pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, para investigar possíveis crimes tanto de Bolsonaro quanto de Moro.

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