O olhar de fotógrafos de diferentes países sobre a pandemia

Jornalista brasileiro vem se correspondendo com profissionais da fotografia instalados em mais de dez países e reúne depoimentos e imagens em site

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    O site do Itaú Cultural deu início na sexta-feira (24) a uma série chamada “Olhares sobre a covid-19, marco zero”, dedicada à publicação semanal de relatos e imagens de fotógrafos profissionais que residem em 12 países. Entre eles estão alguns dos países mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus, como EUA e Itália.

    O primeiro texto da série traz o ponto de vista do fotógrafo Zeng Jia, de Pequim, na China.

    Ele fala sobre como chineses se reuniram na Praça da Paz Celestial (de máscara e mantendo distância entre si) em 4 de abril, dois meses após a quarentena decretada na cidade de Wuhan, e permaneceram em silêncio por três minutos por aqueles que foram mortos pelo vírus. A data marca o Qingming, feriado em que se reverencia os mortos e antepassados.

    Os próximos contarão com depoimentos de fotógrafos da Alemanha, Áustria, Argentina, Brasil, EUA, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal e Rússia.

    O projeto é resultado da correspondência mantida desde março de 2020 pelo jornalista radicado no Rio de Janeiro, Cassiano Viana, com os fotógrafos. “Quase nunca conversávamos sobre técnica ou sobre o ato fotográfico, mas sobre como estava a semana, as dificuldades do isolamento, o medo do vírus”, disse Viana ao Nexo. “É uma troca. Todos perguntam como está a situação no Brasil e como eu estou”.

    As trocas de mensagens e e-mails fizeram surgir a ideia de criar um registro em texto, além das fotos produzidas durante a crise. O material foi inicialmente publicado no blog About Light, mantido por Viana desde 2017. Nele, já é possível explorar uma parte do material que será publicado no site do Itaú Cultural.

    Cronologia de uma pandemia

    Fotógrafos de outros países ainda devem se somar à série. “Quando o projeto tomou forma, acabei organizando [o material] de maneira cronológica, seguindo a linha do tempo da covid-19”, diz Viana.

    O depoimento do fotógrafo chinês Zeng Jia foi o primeiro publicado pelo Itaú Cultural por partir do primeiro país atingido pelo novo coronavírus. Um novo relato com fotos será publicado a cada semana, de acordo com a cronologia do avanço da pandemia no mundo. Essa primeira etapa, chamada de “marco zero”, trata das lembranças dos primeiros dias da pandemia nesses países.

    O jornalista segue em contato com os fotógrafos e afirma que o projeto terá pelo menos um ano de duração. A ideia é seguir coletando registros da situação após seis meses e um ano completos desde o surgimento do vírus nos territórios onde vivem os fotógrafos.

    A percepção dos fotógrafos

    Os relatos dos fotógrafos, cujos países enfrentam realidades variadas frente à pandemia, convergem quanto à percepção da gravidade da situação e com relação à importância do isolamento social no momento atual.

    Segundo Cassiano Viana, suas palavras e imagens revelam um momento de introspecção. “Um fotógrafo é um profissional do olhar, a observação se materializa em imagens. Existe um silêncio nas fotos das ruas desertas. É estranho ver poucas pessoas nas ruas de cidades como Madri e Paris, ainda mais na primavera, que é a estação na Europa”, diz.

    Segundo Viana, o mundo das fotografias de agora parece um lugar solitário que ele compara às pinturas do americano Edward Hopper.

    O projeto mostra que, mesmo com as restrições à circulação de pessoas impostas pela pandemia, eles continuam encontrando maneiras de fotografar. Isolado em seu apartamento, o fotógrafo Graziano Panfili capturou imagens de diferentes pontos turísticos na Itália a partir de webcams.

    “Acho que em muitos casos o olhar acabou se transformando, se direcionando para outro lugar”, diz Viana. “A Léa [Rener, que vive em Paris] fotografava casamentos, hoje tem fotografado a rotina em casa e aquilo que consegue ver da janela, os vizinhos do prédio em frente tomando sol no último andar. A Daniela [Olave, colombiana que vive em Madri] arrisca uma saída e outra. Zeng é o que sai mais às ruas, talvez pela situação na China aparentemente estar mais controlada”.

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