Por que a Nova Zelândia diz ter vencido o coronavírus

Primeira-ministra celebra resultados da quarentena e anuncia relaxamento paulatino das medidas de confinamento

    A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, disse no domingo (26) que seu país “venceu a batalha” contra o novo coronavírus, e já pode começar a relaxar as medidas estritas de confinamento.

    De acordo com Ardern, a Nova Zelândia conseguiu “evitar o pior” quando pôs fim à transmissão comunitária do vírus, que ocorre quando não é possível identificar a origem da contaminação. Segundo Ardern, não há mais na Nova Zelândia transmissão entre pessoas que estavam contaminadas, mas que não tinham sido detectadas por testes. Agora, as autoridades de saúde têm uma ideia clara de quem são os infectados e de onde eles estão, diz a primeira-ministra.

    A Nova Zelândia, que tem cerca de 5 milhões de habitantes, registrou 1.121 casos de contaminação desde o início da pandemia. O país teve apenas 19 mortes confirmadas pelo coronavírus. Em toda a Oceania, foram 106 mortos, a maioria na Austrália, onde 81 pessoas perderam a vida por causa da covid-19, doença causada pelo vírus.

    Assim como a premiê, Ashley Bloomfield, diretor-geral de Saúde da Nova Zelândia, afirmou que as transmissões foram “eliminadas” no país, o que significa que todos os possíveis novos focos de transmissão passaram a ser conhecidos, mesmo que não tenham sido zerados.

    Em média, no mundo, cada pessoa infectada tem sido responsável por contaminar outras 2,5 pessoas. Na Nova Zelândia, esse índice de transmissão foi reduzido a 0,4. O país registrou 72 novos casos nos últimos 15 dias, entre 11 e 26 de abril.

    Durante mais de quatro semanas, os neozelandeses foram submetidos a uma política agressiva de confinamento, classificada como “nível quatro”, na escala local. Nesse estágio, só eram autorizadas saídas para comprar alimentos e para caminhadas no entorno do local de residência.

    Por mais de um mês, escolas, comércio, assim como bares, restaurantes e cinemas permaneceram fechados em todo o país.

    Os riscos da nova fase

    A partir de domingo (26), a Nova Zelândia passa ao “nível três” de segurança. A mudança implica na reabertura de parte do comércio, além de escolas e restaurantes, ainda que de maneira paulatina e em pequena escala.

    No caso das escolas, por exemplo, o regresso se dará a partir de quarta-feira (29), inicialmente apenas entre estudantes de até 10 anos que não podem participar dos módulos de educação a distância, ou cujos pais precisam voltar a trabalhar.

    1 milhão

    é o número estimado de trabalhadores que devem voltar à ativa na Nova Zelândia a partir de 29 de abril

    Se o “nível três” funcionar como esperado, as autoridades de saúde esperam passar para o “nível dois” dentro de duas semanas, o que implica em relaxamento ainda maior, embora os detalhes desse passo adicional não tenham sido esmiuçados.

    A reabertura do confinamento é um momento delicado. As autoridades temem que a sensação de alívio possa favorecer comportamentos de risco, resultando numa segunda onda de contaminação descontrolada.

    O desafio dos políticos e das autoridades de saúde é, portanto, dosar o discurso de vitória sobre o vírus com a necessidade de ainda manter uma série de medidas socialmente restritivas, sob risco de a doença voltar.

    “Temos de seguir vigilantes e perseverar nesse caminho”, disse Ardern. As empresas que voltarão a operar foram obrigadas a fazer planos de manejo do espaço, estabelecendo uma distância segura entre seus funcionários e evitando aglomerações em espaços físicos confinados.

    O maior desafio é fazer os neozelandeses entenderem que a reabertura paulatina está restrita sobretudo a alguns setores da economia e às escolas, mas não à vida social em si. As autoridades pedem que as pessoas não ampliem suas bolhas de relacionamento neste momento.

    Cooperação com a Austrália

    A primeira-ministra Ardern se fez conhecida como expoente de uma nova safra de políticos progressistas, pondo em destaque aspectos pessoais de sua biografia, como o fato de ser jovem e mulher e de ter se licenciado do cargo por seis semanas em 2018 para dar à luz. A gravidez foi descoberta seis dias antes de ela assumir o cargo.

    Ardern é membro do Partido Trabalhista da Nova Zelândia, uma clássica agremiação de centro-esquerda, que defende o papel do Estado num arranjo de bem-estar social, sem tergiversar sobre princípios democráticos.

    Sua situação no espectro político não impediu que ela se associasse de maneira pragmática ao primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, para coordenar as ações regionais na Oceania contra o coronavírus. Morrison é um cristão conservador, membro do Partido Liberal da Austrália, adepto do liberalismo econômico e do conservadorismo cultural.

    Os dois juntos construíram uma abordagem coordenada durante a pandemia, fechando juntos o acesso a estrangeiros e mantendo quarentenas longas e rígidas em seus territórios. Até domingo (26), a Austrália tinha 81 mortes entre 6.703 contaminados.

    Com os dois países trabalhando em sintonia, Ardern diz que já é possível pensar numa abertura internacional seletiva, que começaria por formar uma “bolha” entre os dois países, permitindo deslocamentos internacionais ainda restritos, entre as duas capitais, Wellington (Nova Zelândia) e Camberra (Austrália).

    Vanguarda das aberturas europeias

    O lento processo de reabertura na Oceania é acompanhado com interesse pela Europa, que anda alguns passos atrás nesse processo. Itália, Espanha e França, que respondem juntos por 35% dos casos de coronavírus no continente europeu, já anunciaram políticas de desconfinamento gradual.

    A ordem de grandeza é incomparável – italianos, espanhóis e franceses somam mais de 72 mil mortes por coronavírus, contra apenas cem entre australianos e neozelandeses somados. Apesar disso, a experiência de conhecer todas as fontes de contaminação, mesmo sem zerar os casos, interessa a todos.

    A União Europeia adotou três indicadores para que seus países-membros possam relaxar o confinamento: redução significativa dos casos, disponibilidade de testes e capacidade de internação de todos os pacientes contaminados que necessitem de cuidados médicos.

    Mais de dez países europeus já tinham anunciado planos de reabertura quando essas diretrizes foram anunciadas, em 15 de abril. A Itália, país europeu mais atingido, entrou em quarentena em 9 de março e deve permanecer assim até 3 de maio, mas algumas medidas vêm sendo relaxadas, à medida que o número de contaminados e mortos cai.

    A Espanha, segundo país europeu mais afetado, começou a levantar aos poucos a quarentena no domingo (26), com um relaxamento das regras para sair de casa. Alguns setores da economia, como a construção civil, voltaram a funcionar em 13 de abril.

    A França, terceiro país europeu mais afetado, anunciará na terça-feira (28) seu plano de reabertura. O primeiro-ministro, Edouard Philippe, fará um pronunciamento com as novas regras, depois de ter anunciado a venda de máscaras ao público em geral, nas farmácias francesas, e a ampliação do número de testes. O confinamento francês teve início em 17 de março e durará oficialmente até 11 de maio.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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