Como os empresários reagem à saída e às acusações de Moro

Aliados tradicionais de Bolsonaro mostram decepção com pedido de demissão de ministro da Justiça. Após anúncio, bolsa de valores teve queda e dólar atingiu nível recorde

    O pedido de demissão de Sergio Moro na sexta-feira (24) abalou o governo Jair Bolsonaro, intensificando uma crise que já vinha se desenhando desde o início da pandemia do novo coronavírus. A saída do agora ex-ministro da Justiça, um dos pilares de popularidade do ministério do presidente, veio após a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, que havia sido indicado pelo ex-juiz da Lava Jato.

    No pronunciamento onde anunciou a demissão, Moro fez acusações a respeito do presidente. Ele listou tentativas de interferência de Bolsonaro em investigações da Polícia Federal, supostamente motivadas por interesses políticos e pessoais – dando a entender que Bolsonaro tentava blindar seus filhos de apurações. Além disso, Moro afirmou que não assinou o decreto que oficializou a exoneração de Valeixo, publicado na sexta no Diário Oficial da União, o que levantou a suspeita de fraude.

    As acusações do ex-ministro da Justiça geraram reações negativas por parte de diversos empresários brasileiros – entre eles nomes e grupos que, até o pedido de demissão de Moro, eram apoiadores fiéis do governo Bolsonaro.

    As declarações do Instituto Brasil 200

    Gabriel Kanner, presidente do grupo Instituto Brasil 200 – associação que conta com a participação de empresários bolsonaristas como Flavio Rocha, da Riachuelo, Sebastião Bonfim, da Centauro, e Luciano Hang, da Havan – afirmou ao jornal O Globo que o sentimento após a saída de Moro é de traição. O discurso de apoio ao presidente Jair Bolsonaro se transformou em lealdade ao agora ex-ministro da Justiça.

    “Para mim, acabou qualquer tipo de confiança ou apoio que a gente poderia dar a este governo. Me sinto traído. Bolsonaro é um traidor da pátria. A confiança de todos foi traída, não apenas pela saída do Sergio Moro, mas as acusações feitas são graves e mostram outra faceta do presidente”

    Gabriel Kanner

    presidente do grupo Instituto Brasil 200, em entrevista ao jornal O Globo em 24 de abril de 2020

    O empresário Flavio Rocha, dono da Riachuelo e membro do Instituto Brasil 200, lamentou a saída do ministro em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo. No entanto, ele negou estar decepcionado com Bolsonaro e disse que a crise do governo não deve afetar a economia. O tom foi de apoio à continuidade da agenda econômica liberal.

    “Ainda estou muito otimista com a retomada. Economicamente, estamos no caminho certo”

    Flavio Rocha

    dono da Riachuelo, em entrevista ao Estado de S. Paulo em 24 de abril de 2020

    A reação de Luciano Hang

    Um dos empresários que se pronunciou poucas horas após a demissão de Sergio Moro foi Luciano Hang, dono da rede de lojas de departamento Havan. Desde o processo eleitoral de 2018, Hang se destacou como um dos principais apoiadores de Bolsonaro, cumprindo ativamente um papel de cabo eleitoral para o ex-capitão.

    Após o pronunciamento do ex-ministro da Justiça, o empresário disse à coluna Painel, do jornal Folha de S.Paulo, que estava decepcionado com a saída de Moro. Ele afirmou que tinha no ex-juiz da Lava Jato um herói pessoal e que, em meio à crise política, econômica e sanitária, o momento deveria ser de união do país.

    Sobre as acusações feitas por Moro a Bolsonaro, Hang disse que não havia conseguido acompanhar em detalhes o pronunciamento do ministro. Perguntado sobre o futuro do apoio ao presidente, ele afirmou que era “apoiador do Brasil”.

    “Desde o princípio, se você procurar meu histórico, sou brasileiro como ativista político. Não tenho partido nem político de estimação. Continuo defendendo as pautas brasileiras. Desburocratização, menos interferência do governo na vida do cidadão.”

    Luciano Hang

    dono da Havan, em entrevista à Folha de S.Paulo após o pedido de demissão de Sergio Moro, em 24 de abril de 2020

    A reação na bolsa de valores

    No mercado, a fala de Moro ressoou negativamente. A crise institucional agravou o momento da bolsa de valores, que já vinha em queda desde o final de fevereiro, com o avanço da pandemia do novo coronavírus.

    Nas horas seguintes ao pronunciamento do ex-ministro, o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores de São Paulo, chegou a cair mais de 9,5%, quase acionando o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações por meia hora. No final da sessão, a queda registrada foi de mais de 5%.

    Já a cotação do dólar frente ao real disparou, atingindo novos recordes nominais. A moeda americana chegou a operar perto de R$ 5,73 pela primeira vez na história, o que levou o Banco Central do Brasil a vender dólares para conter o avanço.

    O apoio do empresariado e o papel de Paulo Guedes

    O momento é de perda de apoio político do presidente. Economistas ouvidos pelo jornal o Estado de S. Paulo disseram que a opção de impeachment de Bolsonaro começa a ser ventilada no mercado financeiro após a saída de Moro.

    Outro fator que contribui para essa sangria é a incerteza a respeito do futuro do ministro da Economia, Paulo Guedes, no governo. Em meio ao cenário de especulação, Guedes marcou presença junto com outros ministros do governo no pronunciamento que Jair Bolsonaro fez no fim de sexta-feira (24) em resposta a Moro.

    Durante a campanha eleitoral de 2018, Guedes atuou como ponte entre Bolsonaro e empresários e agentes do mercado financeiro. Nos bastidores, Guedes teve papel fundamental ao atrair apoio ao ex-capitão com sua agenda ultraliberal. A articulação do economista formado na escola de Chicago ajudou a eleger Jair Bolsonaro para a presidência da República.

    Ao longo de todo o ano de 2019, o ministro atuou para arrefecer junto ao mercado as tensões políticas criadas pelo presidente. No empresariado, o apoio às diretrizes de redução da atuação do Estado na economia se mostrou mais forte que as críticas às investidas políticas de Bolsonaro.

    Em 2020, o cenário é diferente. A crise econômica decorrente da pandemia desestabilizou a economia brasileira, podendo levar ao pior desempenho anual da história do país e aumentando a pressão sobre Guedes.

    Na quarta-feira (22), o governo Bolsonaro deu sinais de guinada na gestão econômica do país e de estar se distanciando da agenda liberal de Guedes. O Plano Pró-Brasil, que prevê o aumento do investimento público em R$ 30 bilhões até 2022, foi apresentado apesar da resistência do ministro. Os sinais de um possível abandono do liberalismo e, ainda, uma possível saída de Guedes foram mal recebidos pelo mercado.

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