Por que o jogo ‘Animal crossing’ virou um sucesso da quarentena

Game é o segundo mais vendido nos EUA em 2020. Com dinâmica intimista e ritmo desacelerado, ganhou novos entusiastas em meio ao isolamento social

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    Lançado em 20 de março com exclusividade para Nintendo Switch, o videogame “Animal crossing: New horizons” se tornou o segundo jogo mais vendido nos EUA em 2020, ficando atrás apenas do game de guerra “Call of duty: Modern warfare”.

    Mesmo chegando às lojas na reta final de março, o jogo já garantiu o posto de mais vendido nos EUA naquele mês.

    Ao todo, foram 5 milhões de cópias digitais vendidas. Segundo a empresa de análise de mercado SuperData, o game bateu o recorde de mais unidades comercializadas em um período de 30 dias. A marca anterior era de “Call of duty: Black ops 4”, lançado em 2018, com 4,2 milhões de vendas digitais em um único mês.

    Dados levantados pelo Twitter e divulgados pela revista Forbes apontaram que, na segunda metade de março, houve um aumento de 71% no número de conversas sobre games na rede social ao redor do mundo, com “Animal crossing: New horizons” sendo o título mais comentado.

    O período crescente corresponde à época em que medidas de isolamento social para conter a propagação do novo coronavírus foram adotadas globalmente, impulsionando a busca por formas de entretenimento no mundo todo.

    O que é ‘Animal crossing’

    O game coloca o jogador no papel de um humano que habita uma ilha povoada por animais antropomorfizados, tendo de realizar tarefas como pesca, caça e agricultura.

    O tempo no jogo segue o da vida real, baseando-se no relógio interno do videogame para estabelecer os ciclos do dia e da noite.

    Por causa desse fator, as ações de “Animal crossing” não são tão aceleradas quanto em outros videogames. Se o jogador planta uma árvore, terá de esperar alguns dias para começar a vê-la crescer.

    “O jogo é inteiro acolhedor. Por mais que as tarefas possam parecer entediantes ou repetitivas, são coisas inofensivas que ajudam a desestressar depois de um dia de trabalho”, disse ao Nexo Priscila Ganiko, jornalista especializada em videogames e editora-assistente do Nerd Bunker, divisão de jornalismo do site Jovem Nerd.

    Além das tarefas, em “Animal crossing”, vive-se uma vida normal, com encontros sociais, casamentos, velórios e até mesmo protestos. Os jogadores podem realizar todas essas atividades com amigos ao se conectar à internet durante o game.

    “É um excelente jogo dentro do gênero de simulação, já que oferece muitas possibilidades para os jogadores gerenciarem sua ilha da maneira que desejarem”, disse ao Nexo Bruna Penilhas, jornalista especializada em videogames e editora-assistente do site IGN Brasil.

    “A comunidade [de jogadores] até criou um mercado absurdo de nabos, em que jogadores do mundo inteiro abrem suas ilhas para negociar as vendas dos vegetais, que dão muito dinheiro dentro do jogo. Alguns pedem taxas insanas na negociação, enquanto outros apenas querem ajudar. A sensação é que as possibilidades em ‘Animal crossing’ são infinitas”, afirmou.

    A franquia começou em 2001, com o lançamento de “Animal crossing” para os sistemas Nintendo 64 e GameCube. Num primeiro momento, o game estava disponível apenas no Japão, mas foi exportado para o Ocidente no ano seguinte.

    Dado o sucesso, uma continuação chegou em 2005. “Animal crossing: Wild world” era exclusivo do sistema Nintendo DS e aprimorava as dinâmicas de jogo do primeiro título. Mais duas sequências da série principal foram lançadas antes de “New Horizons”: trata-se de “Animal crossing: City folk”, de 2008, e “Animal crossing: New leaf”, de 2012.

    Além dos títulos principais, a franquia teve três outros games derivados, que traziam mecânicas diferentes, mas ainda eram ambientados no mundo de animais antropomorfizados.

    O aumento do interesse durante a quarentena

    Priscila Ganiko avalia que o componente social do jogo – que permite a manutenção de uma “vida normal” em um ambiente virtual – está no centro do aumento do interesse pelo game durante o período de isolamento social.

    “Muita gente está usando o jogo para manter contato com amigos e até mesmo família, celebrando aniversários e casamentos”, afirmou.

    Ganiko também vê no aumento de vendas uma relação com o fato de a pandemia ter adiado o lançamento de vários games, diminuindo a concorrência e, consequentemente, dando destaque a “Animal crossing: New horizons”. “O timing do lançamento foi primordial”, avaliou.

    À revista Gama, Henrique Sampaio, jornalista especializado em games e cofundador do site Overloadr, afirmou que parte do apelo de “Animal crossing” vem do jogo quebrar algumas lógicas tradicionais da indústria, ainda muito apegada a tramas épicas e heróicas, oferecendo aos jogadores uma experiência diferente.

    “Um jogo que quebra completamente essa estrutura gera a pergunta: ‘Mas o que você faz no jogo?’. E é só tendo contato que você consegue de fato entender o que ele é. Entender que jogos podem ser completamente diferentes daquilo que as pessoas conhecem”, disse.

    Para Ani Bundel, colunista da NBC News, esse tipo de experiência diferente, mais intimista e menos acelerada, é o tipo de entretenimento ideal para os tempos de isolamento social.

    “Com um foco em construir casas, criar combinações de roupas e colaborar com os vizinhos, ‘Animal crossing’ é exatamente o tipo de jogo que é descartado facilmente”, disse, em coluna publicada no dia 29 de março. “Nesses tempos de isolamento social, uma viagem à uma ilha calma, onde não existem demandas além de construir algumas casas e plantar árvores em um paraíso virtual, é exatamente o que muitos precisam.”

    Para Bruna Penilhas, o período de isolamento social fez com que os jogadores “se permitissem” mergulhar numa experiência diferente das mais tradicionais – incluindo a si mesma nesse cenário.

    “Como um game que pode oferecer até centenas de horas de jogatina e uma infinidade de conteúdo, ‘Animal crossing’ é uma das opções mais interessantes de games para jogar durante a quarentena”, disse.

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