A demissão de Moro em meio à disputa de poder na Polícia Federal

Ex-juiz da Lava Jato entrou para a política como superministro e perdeu autonomia em meio a embates com Bolsonaro

    Sergio Moro pediu demissão do governo Jair Bolsonaro. O motivo é uma mudança na diretoria-geral da Polícia Federal, instituição subordinada ao seu Ministério da Justiça.

    A troca no comando do órgão acabou sendo efetivada nesta sexta-feira (24). O presidente Jair Bolsonaro exonerou Maurício Valeixo, apadrinhado de Moro. A medida que oficializa o desligamento, publicada no Diário Oficial, tem a assinatura eletrônica do ministro da Justiça. Contudo, Moro não foi avisado previamente da oficialização da demissão.

    Com a saída do diretor-geral, o ministro anunciou nesta manhã de sexta-feira (24) também sua saída. Em entrevista à imprensa, Moro disse que Bolsonaro tenta tirar a autonomia da Polícia Federal.

    Valeixo foi escolhido para comandar o órgão por Moro. O diretor-geral era antes superintendente da PF no Paraná, onde participou de ações importantes da Lava Jato, operação que tem o ex-juiz e hoje ministro como um de seus principais expoentes.

    Bolsonaro, por sua vez, vinha tentando tirar Valeixo do cargo desde 2019. A nova investida contra o diretor-geral ocorreu dias depois de a Polícia Federal começar a investigar o financiamento e a organização da manifestação a favor de um golpe militar ocorrida no domingo (19), que contou com a presença de Bolsonaro.

    O pedido de investigação partiu do procurador-geral da República, Augusto Aras, e foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

    A Polícia Federal de Valeixo já vinha apurando antes a ação de uma rede de fake news que seria comandada pelo chamado “gabinete do ódio” do Palácio do Planalto, uma estrutura com suspeitas de ligação com dois filhos do presidente: Carlos Bolsonaro, vereador do Rio, e Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo.

    Segundo o colunista Merval Pereira, do jornal O Globo, a irritação de Bolsonaro com Valeixo chegou ao ápice quando o presidente soube que o diretor-geral manteve a mesma equipe que investiga a rede de fake news no novo inquérito sobre as manifestações a favor de uma intervenção militar.

    Da Lava Jato ao bolsonarismo

    Moro ganhou projeção nacional a partir de 2014, como juiz da Operação Lava Jato, iniciada no Paraná. Mandou prender pessoas poderosas, de grandes empresários a políticos importantes, mas também teve seus métodos contestados no campo jurídico.

    Foi responsável pela primeira condenação de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda em 2017, algo que viria a levar o ex-presidente à prisão um ano depois. O processo sobre o caso tríplex de Guarujá também tirou o petista da disputa presidencial de 2018, no momento em que Lula liderava as pesquisas de intenção de voto. Bolsonaro venceu a eleição.

    Sua chegada à política foi vista com preocupação por outros integrantes da Lava Jato, que temiam que a operação fosse maculada. Moro, porém, aceitou participar do governo bolsonarista sob a promessa de comandar um superministério.

    Desde que tomou posse como ministro da Justiça, em janeiro de 2019, viu sua autonomia ser minada pelo presidente e seu poder limitado por iniciativas do Congresso. Teve indicações de cargos de segundo escalão vetadas por Bolsonaro e atribuições retiradas pelos parlamentares.

    Em determinados momentos, saiu em defesa aberta de Bolsonaro. Defendeu o presidente nas investigações do caso Marielle Franco. Também fez as vezes de advogado do Palácio do Planalto no escândalo dos laranjas do PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e depois se desfiliou.

    Mais recentemente, voltou a se distanciar do chefe. Durante a pandemia do novo coronavírus, alinhou-se ao grupo do governo que era contra o discurso presidencial de reabertura do comércio e volta à normalidade.

    O histórico da disputa pelo comando da PF

    Bolsonaro nunca escondeu o desejo de intervir e indicar nomes de sua confiança em cargos de escalões inferiores. As movimentações do presidente o puseram por mais de uma vez em rota de colisão com Moro, que como ministro da Justiça é responsável pela Polícia Federal.

    Em agosto de 2019, em meio aos conflitos envolvendo a troca na superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Bolsonaro defendeu seu direito de intervir em decisões da polícia. “Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral”, afirmou.

    A disputa pela vaga, ocupada por Ricardo Saadi, colocou Moro e Bolsonaro em lados opostos. O ministro defendia a indicação de Carlos Henrique Oliveira de Sousa, superintendente em Pernambuco, feita por Valeixo. O presidente queria Alexandre Silva Saraiva, chefe da PF no Amazonas. Carlos Henrique acabou assumindo o posto em novembro de 2019.

    A saída de Valeixo foi aventada por Bolsonaro em diversos momentos de 2019. No dia 4 de setembro, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o presidente afirmou que o comando da PF “precisava de uma arejada”.

    Duas semanas depois, uma nova reportagem mostrou que disputas internas ameaçavam paralisar setores do órgão. Bolsonaro chegou a dizer que as reações contrárias de membros da polícia a suas sugestões eram uma “babaquice”.

    Durante o ano de 2019, a Polícia Federal esteve envolvida em apurações envolvendo o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro. O inquérito que investigava se o político havia cometido os crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, em vendas de imóveis e na declaração de bens em 2018, foi arquivado.

    Flávio continua sendo investigado no Rio, pelo Ministério Público Estadual, sob suspeita de envolvimento com o esquema da “rachadinha”, de desvio de salários de funcionários de gabinete quando era deputado na Assembleia Legislativa do Rio. Os familiares do presidente negam ter participado de ilegalidades.

    Um governo em transe

    A crise que levou ao pedido de demissão de Moro encabeça uma série de outras movimentações internas do governo, tudo em meio à grave crise da pandemia do novo coronavírus, que traz consequências tanto sanitárias quanto econômicas para o país.

    Confrontado em razão de sua posição anticientífica de condenar o isolamento social na pandemia, Bolsonaro demitiu o ortopedista e ex-deputado Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde. Colocou no lugar o oncologista e empresário Nelson Teich, mais alinhado ao presidente.

    Na área econômica, a ala militar do governo tomou a frente do ministro da Economia, Paulo Guedes, até então fiador de um discurso liberal do governo, com foco na iniciativa privada. Agora, o general da reserva Walter Braga Netto, da Casa Civil, comanda um plano de investimento em obras públicas para lidar com a crise pós-coronavírus.

    Na frente política, Bolsonaro tem feito acenos aos partidos do centrão, grupo formado por parlamentares com histórico de fisiologismo, com o intuito de formar uma base sólida de apoio na Câmara dos Deputados, de olho na votação de projetos futuros e nas eleições para a presidência da Casa, em fevereiro de 2021.

    Bolsonaro tem se reunido com líderes de partidos como PP, PL, Solidariedade, PTB, entre outros, para discutir a nomeação de cargos em estatais e órgãos federais. São ao menos 77 postos em bancos públicos e agências reguladoras. Algo que contraria seu discurso público de condenar negociações com o que chama de “velha política”.

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