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Quais as versões sobre o estado de saúde de Kim Jong-un

Ausência de líder norte-coreano em eventos públicos alimenta especulações sobre internações e risco de morte

    Pela primeira vez desde que ascendeu ao poder, em 2011, o líder norte-coreano, Kim Jong-un não participou das celebrações anuais que relembram o nascimento de seu avô, Kim Il-sung (1912-1994), fundador do regime dinástico que comanda a Coreia do Norte com mão de ferro desde 1945.

    Mapa da Coreia do Norte

    A ausência do líder no evento mais importante do calendário norte-coreano – realizado no dia 15 de abril, no mausoléu de seu avô, o Palácio do Sol de Kumsusan, na capital, Pyongyang – deu início imediato a uma série de especulações sobre o estado de saúde de Kim Jong-un – um líder recluso, obeso, fumante e com presumidos 36 anos de idade.

    O aniversário da morte de Kim Il-sung não foi o único evento recente do qual Kim Jong-un esteve ausente. Uma semana antes, no dia 9 de abril, ele deixou de participar de outro tipo de ato solene no calendário político local – o lançamento de mísseis de testes na direção do mar do Japão. Pelo menos três projéteis foram lançados nessa data, mas, ao contrário dos testes anteriores, desta vez as agências oficiais norte-coreanas não divulgaram imagens de Kim Jong-un acompanhando as manobras.

    É difícil saber o que se passa na Coreia do Norte, um dos países mais fechados do mundo, onde uma dinastia de líderes despóticos governam de forma autocrática, impedindo a livre circulação de informação, e num estado permanente de guerra desde 1945.

    A ausência de informações oficiais, somada aos rumores difundidos por dissidentes norte-coreanos no exílio e por relatos anônimos atribuídos pela imprensa ocidental a membros dos serviços de inteligência dos EUA, fizeram com que algumas versões começassem a circular, a respeito do que poderia ter acontecido com Kim Jong-un.

    Informações da oposição

    Uma das versões mais difundidas é a de que o líder norte-coreano recupera-se de uma cirurgia cardíaca realizada no dia 12 de abril. Essa versão foi publicada originalmente por um veículo de comunicação chamado Daily NK (Diário da Coreia do Norte), que é produzido por dissidentes em Seul, capital da vizinha Coreia do Sul.

    O site atribui a informação a fontes anônimas que estariam dentro da Coreia do Norte, mas que não podem ser identificadas. O Daily NK diz que Kim Jong-un recupera-se da cirurgia numa casa de campo no Monte Kumgang, localizado no leste do país.

    Ainda de acordo com o site, Kim Jong-un foi visto em público pela última vez no dia 11 de abril, numa reunião do Partido dos Trabalhadores, que comanda o país.

    Questionamentos chineses e sul-coreanos

    Na terça-feira (21), Kang Min-seok, porta-voz do presidente da Coreia do Sul, veio a público dizer que “até agora não foram detectados sinais especiais dentro da Coreia do Norte”. A imprensa especializada diz que esse é o tipo de declaração cifrada no mundo diplomático local para colocar em dúvida informações imprecisas de serviços de inteligência que estejam circulando.

    A agência britânica de notícias Reuters também disse ter ouvido de um membro do Partido Comunista Chinês que não há informações críveis de que Kim Jong-un esteja gravemente enfermo.

    Despistagem norte-coreana

    A agência oficial norte-coreana de notícias KCNA também começou a circular informações para tentar mostrar que não há nada de errado com a saúde de seu líder.

    Na mesma terça-feira (21) em que sul-coreanos e chineses minimizaram a versão da oposição norte-coreana, a KCNA informou que Kim Jong-un enviou presentes para uma série de personalidades de destaque na sociedade local, além de uma carta para o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel.

    Não é raro que líderes norte-coreanas fiquem sem aparecer por mais de uma semana, de acordo com o principal repórter do New York Times, Choe Sang-hun, que trabalha baseado em Seul. Entretanto, é a ausência em eventos importantes que levanta desconfiança e alimenta especulações.

    Choe Sang-hun lembra que quando Kim Jong-il, pai e antecessor de Kim Jong-un, morreu, em 2011, mesmo a cúpula do partido só soube do fato dois dias depois, quando o anúncio foi feito oficialmente pela TV estatal.

    O nível de segredo e especulação que marca a circulação de notícias no país fazem surgir notícias não confirmadas de tempos em tempos, como a história de que Kim Jong-un lançou parentes rivais a cachorros famintos, ou de que executou assessores que cobiçariam seu lugar – mesmo que essas pessoas voltem a aparecer depois em imagens oficiais.

    Por que ele é tão importante

    O regime norte-coreano talvez seja o que mais concentra poderes nas mãos de um único homem. A arquitetura política do regime é não apenas personalista, mas também dinástica, o que significa que o poder passa de pai para filho.

    Alguns analistas consideram que é improvável que Kim, com presumidos 36 anos, tenha um filho em idade que permita assumir o controle do país, que, apesar de fechado e atrasado, é uma das maiores ameaças atômicas para o mundo, desde que desenvolveu seu programa atômico, no início dos anos 1960.

    É sabido que o atual líder norte-coreano tem uma irmã, chamada Kim Yo-jong, que já o acompanhou em eventos públicos internacionais no passado. Ela vem assumindo protagonismo crescente. Em março, assinou uma declaração na qual chama o presidente da rival Coreia do Sul de “imbecil”.

    Não existe uma Constituição norte-coreana que determine claramente como seria uma sucessão. Devido ao caráter patriarcal da dinastia Kim, alguns duvidam que uma mulher poderia ascender ao cargo. Para esses, o mais provável é que Choe Ryong-hae, presidente da Assembleia Popular Suprema, tido como número dois no regime, assumisse o poder. Porém, como tudo o que envolve a Coreia do Norte, é difícil prever.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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