Por que o valor do petróleo atingiu níveis tão baixos

Barril chega a ser negociado a preços negativos nos EUA. Descompasso entre oferta e demanda leva a problemas de estocagem do produto

    Em 9 de março, o preço do petróleo nos mercados internacionais precisou de apenas alguns segundos para cair 30% diante de uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia. A queda representava, até então, a maior desvalorização do barril desde o início dos anos 1990, na Guerra do Golfo.

    Dois dias depois, a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou estado de pandemia para o novo coronavírus. A mudança significou um alerta máximo emitido pela autoridade sanitária global e marcou o início de um período caracterizado por orientações de isolamento social e colapso econômico pelo mundo todo.

    Em meados de abril, a soma dos dois fatores resultou em uma das maiores quedas do mercado de petróleo jamais registrada. Abaixo, o Nexo explica como o panorama de um dos produtos mais importantes da cadeia de produção mundial mudou completamente em apenas seis semanas.

    O crash de março

    Em 9 de março, os mercados de petróleo pelo mundo abriram em forte queda. Uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia estava por trás do movimento.

    Em face ao avanço do novo coronavírus, a demanda por petróleo já estava diminuindo, pressionando o preço do barril para baixo. Diante desse movimento, a Arábia Saudita propôs à Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e seus aliados – ao todo, um grupo de 24 países – um corte na produção, para impedir quedas substanciais no preço do produto. A ideia era acompanhar a redução da demanda com uma diminuição da oferta, amenizando impactos sobre o preço e sobre o mercado de petróleo.

    A Rússia, entretanto, rejeitou o acordo. O entendimento dos russos era que a queda no preço ajudaria o petróleo a concorrer com o gás de xisto no mercado internacional de energia. O xisto é obtido por tecnologias de extração de combustíveis crus de rochas sedimentares, sem necessidade de perfuração do solo como é feito na exploração tradicional de petróleo. Essas tecnologias são adotadas com protagonismo de empresas americanas, e o raciocínio da Rússia era que uma ação para elevar ou estabilizar o preço do petróleo seria benéfica às empresas de xisto dos EUA.

    Diante da negativa russa, a Arábia Saudita decidiu agir e começou uma guerra de preços, largando na frente dos outros países exportadores. O país, que é o maior exportador de petróleo do mundo, anunciou um aumento na produção e a oferta de barris de petróleo com descontos. Os sauditas tomaram as rédeas do mercado e decidiram ter sob seu controle a queda do preço, prejudicando a Rússia e outros países do mercado.

    A nova reunião dos produtores

    A queda nos preços de petróleo prosseguiu nas semanas seguintes. Em 12 de abril, uma reunião da Opep e aliados chegou a um acordo para reduzir a produção de petróleo em 9,7 milhões de barris por dia. Dessa vez, não houve resistência da Rússia. O acordo tem duração de dois meses, e começa a valer a partir do dia 1° de maio, mas já há previsão de cortes para o segundo semestre do ano.

    10%

    é a redução da produção mundial acordada pela Opep e aliados em meados de abril

    A decisão veio em meio à desaceleração da economia global por causa da pandemia, algo que levou à queda da demanda pelo produto. Essa redução se refletia nos preços mais baixos, que mostravam dificuldade em se estabilizar e continuavam caindo. Uma nova reunião está marcada para 10 de junho.

    A queda na produção definida pelos principais produtores de petróleo do mundo pode não ser suficiente para compensar a redução da demanda. A Agência Internacional de Energia, organização ligada à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), estima que a queda da demanda em abril de 2020 seja de 29 milhões de barris, em relação ao mesmo mês em 2019. Seria o menor número em 25 anos.

    O novo crash do petróleo

    No mercado internacional de petróleo, há duas principais cotações que servem de referência. Uma é a do WTI (West Texas Intermediate), que é o petróleo americano negociado na bolsa de Nova York. A outra é a do petróleo Brent, produto europeu negociado na bolsa de Londres.

    Em 20 de abril, o petróleo WTI teve uma queda sem precedentes. O preço recuou mais de 300%, mergulhando em território negativo pela primeira vez na história. Com o preço menor que zero, isso significa que havia quem estivesse disposto a pagar para vender um barril. Esse valor trata dos contratos referentes a entrega em maio, e que venceram na terça-feira (22).

    QUEDA ABRUPTA

    Preço do barril de petróleo WTI.  De US$ 60 no final de 2019 para US$ 20 em meados de abril, quando caiu para -US$ 37,63

    O petróleo Brent, por sua vez, não chegou a ficar com o preço abaixo de zero. Mas em 21 de abril, o barril no mercado de Londres fechou em menos de US$ 20 pela primeira vez desde 2002. A queda na sessão do dia foi de quase um quarto do valor.

    ABAIXO DE US$ 20

    Preço do barril de petróleo Brent. De quase US$ 70 no final de 2019 para menos de US$ 20 em 21 de abril de 2020.

    Os estoques de petróleo e o preço negativo

    O desequilíbrio iniciado em março levou ao esgotamento quase total das capacidades de armazenamento de petróleo. Há petróleo demais sendo produzido, mas não há onde guardar os novos barris que chegam das plataformas.

    O quadro dos estoques de petróleo está particularmente crítico no mercado americano, onde a situação levou produtores de petróleo cru a pagar para se desfazer de barris que não tinham onde guardar. Daí o preço negativo (abaixo de zero) para os contratos de entrega em maio, que indica que as pessoas simplesmente não querem ter compromissos ligados ao recebimento de petróleo no curto prazo. Quando o preço é negativo, os produtores pagam para vender.

    Na Europa, por mais que a situação dos estoques também seja ruim, uma diferença no processo produtivo impediu o preço de ter quedas tão fortes quanto nos EUA, não chegando a ficar abaixo de zero. Isso porque o petróleo europeu é extraído majoritariamente em mar, enquanto o americano é extraído principalmente em terra.

    A extração em mar facilita que o produto seja transportado em navio para áreas do mundo com maior demanda por petróleo. Além disso, os navios podem servir como local de armazenamento – o que já está sendo explorado a taxas recordes por agentes do mercado do mercado petrolífero.

    Uma análise sobre a crise do mercado de petróleo

    Para entender os impactos da queda do petróleo, o Nexo conversou com Eduardo Costa Pinto, professor de economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo).

    Não é a primeira vez que o petróleo passa por uma crise significativa. Este colapso de 2020 se diferencia de outros?

    Eduardo Costa Pinto Há uma especificidade neste momento em relação aos colapsos anteriores – seja o preço mais baixo dos anos 1990 ou outros colapsos. Há uma mudança na geopolítica do petróleo. A oferta de petróleo nos EUA, Brasil, Canadá e Noruega aumentou fortemente. Isso é uma grande novidade na geopolítica do petróleo porque, em certa medida, reduz o poder da Arábia Saudita e da Opep no cenário de disputa geopolítica.

    É nesse contexto que a crise se agrava. O coronavírus reduziu a demanda de petróleo – fruto do isolamento social necessário para combater a pandemia. Mesmo com a queda da demanda, a Rússia e a Arábia Saudita não entraram em acordo para reduzir a oferta [em março]. Inclusive, já com a demanda caindo, houve aumento da oferta da Arábia Saudita. Só que, recentemente, foi feito um acordo de reduzir a oferta de petróleo em quase 10 milhões de barris [por dia]. Mas em maio, por exemplo, a estimativa é que a queda da demanda seja de 26 milhões de barris [por dia]. Ainda há 16 milhões de barris em excesso, num contexto em que os estoques já estão no seu limite. Isso jogou o preço lá para baixo.

    Um cenário como este mostra como o petróleo não é como uma commodity qualquer – não é como a laranja ou café. Ele tem um papel geopolítico fundamental. O preço dele é influenciado pela geopolítica dos países, por ser um ativo estratégico. E aí, nessa disputa, há um tensionamento porque com [o preço em] até US$ 30 [por barril], isso inviabiliza o gás de xisto dos EUA, que é um mercado formado por empresas de médio porte e que já tinham um alto grau de endividamento.

    Como o colapso do petróleo afeta o Brasil? O que ele significa para o futuro da Petrobras?

    Eduardo Costa Pinto A perspectiva é que no balanço deste trimestre a Petrobras [estatal brasileira de petróleo] tenha prejuízo. Mantendo a mesma política de preços de mercado interno, com queda considerável da demanda e com o preço de barril abaixo de US$ 20, como está o Brent, ela fica abaixo de seu ponto de equilíbrio econômico. No último balanço anual da Petrobras, boa parte do lucro foi de venda de ativos. O próximo balanço trimestral da Petrobras deve ser negativo.

    A este preço, há um problema de custo, porque o preço está abaixo dos custos de produção em boa parte da exploração. Abaixo de US$ 20, [isso ocorre] até no pré-sal. No pré-sal, alguns poços não conseguem cobrir o break-even, considerando todos os custos. Neste momento é necessário tomar medidas de resiliência; você deve parar parte da produção, porque não há como vender no mercado mundial e nem no interno.

    Neste momento, a Petrobras tem que reduzir a produção, mas não pode usar esse artifício para adotar a mesma política que estava adotando anteriormente – que é focalizar na política do pré-sal. A integração vertical das empresas do setor do petróleo minimiza riscos. Neste momento, o preço do petróleo está muito baixo. Explorar petróleo é pouco rentável; a margem de lucro na exploração torna-se menor do que no refino. Ou seja, com o preço baixo, o refino passa a ser um componente importante para as grandes empresas de petróleo. A covid-19, e junto, a própria crise do setor, mostraram que a estratégia de focar apenas na exploração do pré-sal é um risco gigantesco.

    O que este crash do petróleo significa para a indústria petrolífera no longo prazo?

    Eduardo Costa Pinto No prazo mais imediato, haverá uma forte redução do investimento. E a indústria do petróleo é uma indústria de longo prazo. Decisões de investimento hoje vão gerar produção daqui seis ou sete anos. Então isso não tem um efeito no curtíssimo prazo, mas afeta a produção futura.

    Além disso, um preço baixo afeta fortemente a oferta dos EUA e do Canadá. Os EUA, nos últimos anos, passaram da condição de importadores líquidos para exportadores líquidos. Este preço [baixo] inviabiliza o gás de xisto americano, o que reduz a capacidade de oferta. O que os EUA têm feito é pressionado outros países para reduzir a produção. Há um acirramento da disputa geopolítica para tentar influenciar o preço.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.