O futuro das salas de cinema no Brasil pós-pandemia

Com complexos fechados desde março, empresários falam em apagão do setor de exibição no país

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    Praticamente todas as salas de cinema do país estão fechadas desde o final de março devido à pandemia do novo coronavírus. Com isso, pela primeira vez na história, o Brasil passou a registrar faturamento zero de bilheteria.

    A única exceção é a rede gaúcha Cine Globo, que reabriu duas unidades na sexta-feira (17) e teve público de 116 pessoas até domingo (19). A aglomeração de indivíduos em espaços fechados contraria as recomendações de distanciamento social de autoridades de saúde e medidas adotadas por governos.

    3.500

    era o número de salas de cinema registradas no país em 2019, o maior desde a década de 1970

    Assim como empresas de outros ramos, as exibidoras precisam arcar mesmo sem receita com despesas como folha de pagamento, aluguel, impostos e direitos autorais. Empresários do setor temem um apagão – o fechamento de salas em todo o país. Elas geram uma quantidade significativa de empregos diretos e desempenham um papel importante no acesso à cultura pela população.

    O impacto do fechamento de salas

    A distribuição geográfica de salas de cinema no país, já concentrada em grandes centros urbanos, pode ficar ainda mais desigual depois da pandemia. A quantidade de municípios que não dispõem de nenhuma sala de cinema deve crescer.

    Ao Nexo André Sturm, curador do Cine Belas Artes, cinema de rua de São Paulo, e programador da distribuidora Pandora Filmes, destaca que o Brasil já tem um parque exibidor insuficiente, com uma das menores taxas de habitantes por sala da América Latina.

    “Se a gente perder salas, com certeza terá menos filmes estreando, menos pessoas indo ao cinema”, disse. “Manter os cinemas abertos é um passo importante que beneficia todos os outros elos da cadeia”.

    Sturm afirma que a crise dos exibidores é ruim para os filmes e para os distribuidores mas, acima de tudo, para o público e para as cidades, que deixam de ter a chance de compartilhar a experiência cultural “civilizatória” proporcionada pelo cinema.

    Mesmo após uma futura reabertura, a expectativa é de que as salas continuem enfrentando dificuldades durante alguns meses, já que lançamentos internacionais de peso foram adiados e o público pode estar relutante com relação a voltar a frequentar esse tipo de espaço, por enxergá-lo como um potencial foco de contágio do vírus. Na China, um cinema reaberto em março com 22 sessões a preços promocionais não conseguiu vender nenhum ingresso.

    Quais medidas estão sendo adotadas

    Segundo uma reportagem publicada pelo jornal O Globo, Ancine (Agência Nacional do Cinema) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) preparam uma linha emergencial de crédito para socorrer a indústria do cinema como um todo, que poderia bancar a folha de pagamento das empresas exibidoras por um ano.

    Mas a medida, que prevê o uso de recursos do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), ainda enfrenta entraves burocráticos para entrar em vigor.

    Para avançar, a proposta requer que o comitê gestor do fundo se reúna. Ainda que a Secretaria Especial da Cultura – e, com ela, a Ancine, que é uma autarquia e o fundo, que é gerido por ela – tenha sido realocada do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo no final de 2019, o decreto de transferência dos cargos e funções de uma pasta para a outra ainda não foi assinado. A mudança oficial depende, segundo reportagem da revista Veja, da secretária Regina Duarte montar definitivamente sua equipe. Até lá, a reunião do comitê gestor só pode ser convocada por Onyx Lorenzoni, ministro da Cidadania.

    A esse cenário se soma uma crise institucional interna na Ancine, que se arrasta há mais de um ano, e as incertezas quanto aos recursos futuros do fundo.

    Também há estratégias criadas pelas próprias empresas exibidoras. A rede internacional Cinemark, que detém 640 salas no Brasil, está vendendo pipoca e outros produtos da bombonière pelo e-commerce, além de disponibilizá-los por delivery em uma parceria firmada com o iFood (inicialmente em São Paulo). Ainda em meados de março, a empresa propôs aos funcionários um Plano de Demissão Voluntária ou um programa de qualificação online, pelo qual passariam a receber 80% de sua remuneração líquida.

    Já o Espaço Itaú de Cinema, que possui um total de 61 salas em seis capitais brasileiras, tenta viabilizar a venda antecipada de ingressos que poderão ser usados depois da pandemia.

    Há também pequenos exibidores, de cidades como Manaus e Belo Horizonte que, segundo André Sturm, têm procurado a distribuidora Pandora Filmes para realizar sessões online, por streaming, cobrando dos espectadores um valor mais baixo do que o de um ingresso normal para continuar exibindo filmes e gerar alguma receita. Esse tipo de parceria entre distribuidoras e cinemas independentes também tem sido posta em prática em outros países, como os EUA.

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