Os estudos que mostram o impacto positivo do isolamento social

Na Europa, pesquisa aponta que distanciamento pode ter salvado a vida de 120 mil pessoas. Governantes que apostaram no modelo analisam medidas de abertura gradual, de países pelo mundo a estados brasileiros

    O isolamento social é defendido por especialistas e autoridades da saúde de todo o mundo como uma estratégia eficiente contra a propagação do novo coronavírus.

    É o que defendem, por exemplo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Ministério da Saúde brasileiro. Medidas como a quarentena, com fechamento de comércio e proibição de outras atividades, busca evitar que as pessoas se encontrem ou se aglomerem, ajudando no controle da pandemia.

    Dessa forma, é possível frear a curva de crescimento de casos, evitando que um grande número de pessoas fique infectada ao mesmo tempo e sobrecarregue os sistemas de saúde.

    Apesar de contar com apoio praticamente unânime entre autoridades de saúde e especialistas, o isolamento social é criticado por quem acredita que ele prejudica a economia e a renda da população.

    O crítico mais notório dessa estratégia no Brasil e talvez no mundo é o presidente Jair Bolsonaro. Em discurso feito em cadeia nacional em 24 de março, por exemplo, o presidente afirmou que “nossa vida tem que continuar. Empregos devem ser mantidos, o sustento da família deve ser preservado”.

    O discurso é recorrentemente repetido, algo que aconteceu, inclusive, na participação do presidente em uma manifestação em apoio à intervenção militar no Brasil no domingo (19).

    As mensagens conflitantes, que opõem Ministério da Saúde e presidente da República, podem ter levado muitos brasileiros a relaxar o isolamento social. Dados de geolocalização de celulares apontaram que, entre 23 de março e 18 de abril, a adesão à quarentena no país caiu de 57,1% para 50,1%.

    Quando o fim do isolamento começa a ser discutido

    Maior estado do Brasil – que concentra o maior número de infectados e mortos pela covid-19 –, São Paulo anunciou na segunda-feira (20) um plano para abrandar o isolamento social e retomar a atividade econômica do estado, a partir de 11 de maio. Segundo a gestão estadual, a reabertura deverá ser “heterogênea” e irá depender de uma série de informações a respeito do avanço da doença e da situação de cada cidade.

    “Um plano sólido depende da curva epidemiológica, de capacidade de tratar dos doentes, de capacidade de testes, de uma série de condições. Mas também depende de acordo com cada setor de atividade”, explicou o vice-governador Rodrigo Garcia (DEM). Os detalhes devem ser divulgados na quarta-feira (22).

    O anúncio virá antes de a pandemia ter seu pico no estado, o que segundo estimativas deve acontecer em maio. A partir desse momento, a tendência é o número de casos diminuir ou ficar estável.

    Projeções do Centro de Contingência do Coronavírus, do governo de São Paulo, indicam que se a taxa de isolamento social se mantiver em 50% no estado, nos próximos dois meses, serão necessários oito vezes mais leitos para pacientes graves do que a capacidade do sistema de saúde. Com 70% de adesão, no entanto, a necessidade se tornaria administrável.

    Em 17 de abril, o governo estadual declarou a prorrogação da quarentena em todo o estado até 10 de maio. São Paulo teve o isolamento social decretado em 24 de março, medida que determinou o fechamento de escolas e do comércio não-essencial. Prefeitos do interior vêm pressionando o governo para que a retomada do comércio em suas cidades seja permitida. Sinais de flexibilização das medidas também são uma demanda de empresários da indústria e do comércio.

    Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado (DEM), um dos primeiros a determinar isolamento social, em 20 de março, publicou um decreto na segunda-feira (20) que permite a abertura de atividades como salões de beleza, oficinas mecânicas, lavanderias, obras da construção civil e cultos e missas, com algumas ressalvas. As aulas e as visitas a presídios seguem impedidas.

    Caiado explicou à imprensa que a medida foi possível porque o estado registrou índices de contágio e morte menores que os previstos. Entre 20 de março e 20 de abril, o estado reportou um total de 19 mortes por covid-19. O governador atribuiu o resultado à decretação antecipada da quarentena, antes do estado registrar seu primeiro caso.

    Os vários graus de isolamento

    A maneira como se realiza o isolamento varia conforme o local. Pode incluir o fechamento de comércio e atividades não-essenciais, recomendações para a população ficar em casa e até quarentenas obrigatórias com aplicação de multa.

    Quando há um surto (aumento repentino localizado), epidemia (ampla contaminação em diversos locais) ou pandemia (um problema global) de uma doença, as autoridades médicas recomendam que pessoas que apresentam sintomas sejam isoladas do convívio social.

    Essa quarentena pode ser ampliada para pessoas que não apresentam sintomas, mas que sabidamente tiveram contato com outra pessoa contaminada. Num estágio seguinte, quando a transmissão do vírus se dissemina, recomenda-se que todos fiquem em casa, com ou sem sintomas.

    Há poucos estudos que consigam determinar o sucesso desse tipo de política porque a medição é muito complexa. Há muitas variáveis como o grau de adesão de populações e a variação dessa adesão ao longo do tempo.

    O significado das categorias

    Os termos “isolamento social”, “distanciamento social” e “quarentena” vêm sendo usados livremente, às vezes como sinônimos. O Ministério da Saúde, no entanto, oferece definições específicas sobre eles.

    DISTANCIAMENTO SOCIAL AMPLIADO OU QUARENTENA

    É a medida que está sendo aplicada atualmente no país. Consiste no isolamento de todos os setores da sociedade, que devem ficar em casa para restringir ao máximo o contato entre as pessoas. O objetivo é reduzir a velocidade de propagação do vírus para ganhar tempo e equipar os hospitais. A desvantagem, segundo o ministério, é que, se prolongada, essa medida causa impactos significativos na economia.

    DISTANCIAMENTO SOCIAL SELETIVO

    Nessa estratégia, apenas os grupos que apresentam maiores riscos de desenvolver a doença, como os idosos e as pessoas com doenças crônicas (cardiopatias e diabetes, entre outros), ficariam isolados. Os mais jovens podem circular livremente, caso não tenham sintomas. O problema é que os grupos vulneráveis continuam tendo contato com infectados assintomáticos, o que dificulta o controle da epidemia. Esse tipo de distanciamento foi tentado pelo Reino Unido, mas logo abandonado. A vantagem, segundo o ministério, é que criaria gradualmente a chamada imunidade de rebanho, situação em que a população cria anticorpos. Mas projeções apontam que esse tipo de abordagem gera um alto número de mortes.

    BLOQUEIO TOTAL

    Chamado de lockdown em inglês, é o nível mais alto de segurança, geralmente usado quando há grave ameaça ao sistema de saúde. As restrições à circulação de pessoas são obrigatórias e monitoradas pelos agentes de segurança. É preciso ter permissão para entrar ou sair de uma área isolada. Embora tenha alto custo econômico, o bloqueio total, adotado em países como a China, é eficaz na redução da curva de casos. Segundo o ministério, os países que implementaram o lockdown saíram mais rápido do momento mais crítico da epidemia.

    O sucesso de Hong Kong

    Em Hong Kong, território semi-autônomo na China, um estudo de 17 de abril demonstrou que as intervenções que incluíram restrições de fronteiras, quarentena e isolamento, além de distanciamento social, podem “controlar significativamente” a covid-19. O levantamento foi bancado pelo Fundo de Pesquisa Médica e de Saúde da cidade. Hong Kong é um dos territórios com maior densidade populacional do mundo. Tem 6.544 habitantes por quilômetro quadrado (São Paulo tem 7.387).

    Uma série de medidas foi tomada em Hong Kong incluindo cerca de mil testes diários, isolamento de pessoas diagnosticadas com covid-19 e rastreamento de seus contatos próximos. “Como não será possível identificar toda pessoa infectada, medidas de contenção só funcionarão se medidas de distanciamento social ou mudanças de comportamento também reduzirem a chamada transmissão silenciosa na comunidade como um todo”, afirmaram os autores do trabalho.

    O território não chegou a se valer do lockdown, a modalidade mais extrema de quarentena, mas restringiu e proibiu viagens, flexibilizou arranjos de trabalho e fechou escolas e universidades. A partir de 13 de fevereiro, organizações religiosas cancelaram cultos. Conferências e reuniões também foram eliminadas.

    De acordo com o trabalho, nas dez semanas desde o primeiro caso conhecido de covid-19 em Hong Kong, houve “pouca transmissão local e sustentada da doença”. A preocupação atual é principalmente com novos casos vindos de fora do território.

    O dado mais recente do território, de 20 de abril, registra 1.025 casos, com 4 óbitos. Na segunda-feira (20), Hong Kong não registrou nenhum caso de covid-19 pela primeira vez em dois meses.

    O que está acontecendo na Europa

    Uma pesquisa do Imperial College, em Londres, Reino Unido, constatou que medidas de isolamento social adotadas por 11 países podem ter ajudado a evitar 120 mil mortes no continente.

    O levantamento olhou para dados de Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Itália, Noruega, Reino Unido, Suécia e Suíça. Modelos matemáticos focaram na chamada taxa de reprodução básica, ou seja, o número médio de novas infecções causadas por cada pessoa infectada. A conclusão é de que esses países seguraram o aumento da taxa de reprodução básica por meio de intervenções como o isolamento social.

    Entre as medidas introduzidas nos diversos países estão o isolamento de casos confirmados e suspeitos, fechamento de escolas e universidades, proibição de aglomerações, prática do distanciamento social em larga escala e ”lockdowns” locais e nacionais.

    “Mesmo com o aumento do número de mortos, vemos sinais suficientes nos dados para concluir que ações drásticas e sustentadas adotadas pelos governos europeus já salvaram vidas ao reduzir o número de novas infecções a cada dia”, disse Seth Flaxman, o principal autor do estudo, realizado pelo departamento de matemática do Imperial College.

    A estimativa fez o cálculo de vidas salvas até o dia 31 de março. Recentemente, países como Espanha e Reino Unido registraram uma desaceleração de casos. A Alemanha anunciou um plano para a gradual reabertura das atividades econômicas em 16 de abril. Mesmo assim, autoridades e especialistas reafirmam a importância de continuar com o isolamento.

    “O impacto da pandemia é extremo – mas teria sido muito pior sem as intervenções. Continuar mantendo as intervenções no lugar é crucial para controlá-las”, enfatizou Axel Gandy, diretor de estatística do departamento de matemática do Imperial College.

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