Os países comandados por mulheres que se destacam na crise

Alemanha, Nova Zelândia, Taiwan e países nórdicos chamam atenção pela eficácia no controle do novo coronavírus

    A chanceler da Alemanha Angela Merkel anunciou na quarta-feira (15), em uma entrevista, que o país manterá as medidas de distanciamento social até 3 de maio contra o novo coronavírus, mas iniciará uma reabertura gradual de alguns comércios e escolas.

    O relaxamento gradativo da quarentena no país foi decidido em conjunto com líderes locais, devido aos resultados positivos das ações tomadas desde o final de fevereiro. Na Alemanha, a doença possui uma das taxas de letalidade mais baixas entre os países mais severamente afetados: com mais de 130 mil casos confirmados, não há sobrecarga do sistema de saúde e foram registradas cerca de 3.800 mortes, o que equivale a aproximadamente 2% do total de casos. É uma taxa muitas vezes menor do que a de nações europeias como a Itália (cerca de 12%). Merkel enfatizou, no entanto, ser preciso extrema cautela nessa retomada das atividades.

    Também em 15 de abril, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, anunciou que ela e outros membros do alto escalão de seu governo terão os salários reduzidos em 20% ao longo dos próximos seis meses em solidariedade às pessoas atingidas pelos efeitos econômicos da pandemia. A medida integra uma bem-sucedida agenda de enfrentamento à covid-19 no país, que – guardando-se as proporções de sua população pequena e de seu território insular – teve até agora cerca de 1.300 casos confirmados e apenas nove mortes.

    Além da Alemanha e da Nova Zelândia, países nórdicos como Islândia, Finlândia, Dinamarca e Noruega, sem esquecer de Taiwan, na Ásia, têm sido apontados como exemplos de eficácia no controle da covid-19.

    Todas essas nações são governadas por mulheres. Também são, de forma geral, países desenvolvidos e com democracias consolidadas, como destaca uma reportagem pulicada pelo jornal O Globo. Ainda assim, o fato de que essas governantes venham tendo protagonismo no contexto de uma crise mundial é digno de nota quando se considera que mulheres representam uma porcentagem ínfima entre os chefes de Estado ou de governo de países em todo o mundo.

    As respostas desses países compartilham estratégias como ação rápida após chegada do vírus no território, testagens em massa, rastreamento de pessoas contaminadas e isolamento de uma parcela muito significativa da população. Outro ponto importante foi não subestimar a gravidade da doença, pautar-se por evidências científicas e adotar uma comunicação transparente com a população. O Nexo trata, abaixo, dos contextos, números e medidas de cada país.

    Taiwan

    Vizinho à China, o país governado por Tsai Ing-Wen foi um dos primeiros, ainda em janeiro, a reagir aos riscos de disseminação do vírus em seu território. A presidente está no cargo desde 2016 e é a primeira mulher a ocupá-lo. Com mais de 23 milhões de habitantes, o país contabiliza menos de 400 casos confirmados e seis mortes.

    Taiwan implementou uma lista com pelo menos 124 ações de combate ao coronavírus, que incluíram a proibição de entrada no país de visitantes vindos da China, e de outros territórios próximos que também se tornaram focos da doença, como Hong Kong. O país cruzou dados dos sistemas de imigração e saúde, buscando identificar e notificar cidadãos que poderiam ter sido contaminados. O governo também se aliou à iniciativa privada para aumentar a produção de máscaras, e realizou boletins diários com autoridades de saúde para informar a população e conter o pânico.

    Com os resultados positivos dessas medidas na contenção do vírus, o país pôde optar por não lançar mão das rígidas quarentenas impostas pelo governo chinês.

    Países nórdicos

    A Islândia, governada pela primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, apresenta até agora pouco mais de 1.700 casos e oito mortes. Tendo apenas cerca de 360 mil habitantes, o país já conseguiu testar uma porcentagem significativa de sua população, o que tem revelado informações sobre o vírus, úteis para o mundo todo. Além dos testes, Jakobsdóttir agiu rápido para rastrear quem havia tido contato com pessoas infectadas e isolar casos suspeitos.

    Conduzida pela primeira-ministra Mette Frederiksen, a Dinamarca foi o segundo país europeu a decretar uma quarentena nacional em 11 de março, antes mesmo da primeira morte por covid-19 ser registrada. Conseguiu manter um baixo índice de letalidade, com 299 mortes e 6.500 infectados até o momento. Passada a primeira quinzena de abril, o país se prepara para a primeira fase de sua estratégia de reabertua, que deve começar por creches e escolas.

    Na Finlândia, país que conta com uma preparação de décadas para lidar com uma crise desse porte, foram registrados até o momento cerca de 3.300 casos e 70 mortes. O país é governado desde dezembro de 2019 pela primeira-ministra Sanna Marin, uma das chefes de governo mais jovens do mundo. Seu governo tem se aliado a influenciadores digitais para garantir que informações confiáveis, essenciais no combate à pandemia, cheguem à população que recorre preferencialmente às redes sociais para ver notícias.

    A Noruega também tem usado a tecnologia para enfrentar a pandemia: lançou um aplicativo que coleta informações anônimas e envia alertas para quem esteve perto de alguém que testou positivo. O país governado pela primeira-ministra Erna Solberg foi um dos primeiros na Europa a restringir o contato social e planeja triplicar sua capacidade de testagem, chegando a 100 mil testes por semana em maio. A Noruega tem cerca de 5,3 milhões de habitantes e se prepara para reabrir escolas na segunda quinzena de abril, retomando atividades gradualmente.

    Indo na contramão das medidas adotadas na região, o primeiro-ministro da Suécia Stefan Löfven optou por uma abordagem mais “flexível”, sem medidas rígidas de confinamento, e lida agora com a situação mais grave entre os vizinhos: tem mais de 11 mil casos confirmados e ultrapassou as mil mortes. A Suécia tem a maior população entre os países nórdicos, com mais de dez milhões de habitantes.

    Alemanha

    Na primeira quinzena de março, a chanceler alemã Angela Merkel disse à imprensa que 70% da população poderia ser infectada com o coronavírus. Dias depois, afirmou que a doença era o maior desafio enfrentado pelo país desde a Segunda Guerra Mundial e fez um apelo para que os alemães encarassem a situação com seriedade.

    O número reduzido de mortes no país em relação ao alto número de casos confirmados é atribuído em parte à quantidade de leitos hospitalares (cerca de oito a cada mil pessoas) e leitos de UTI (cerca de seis a cada mil) do país — mais que o dobro da capacidade hospitalar da Itália, por exemplo.

    A implementação rápida de medidas de distanciamento social e a colaboração de laboratórios privados para viabilizar a testagem de mais de 50 mil pessoas por dia, porém, também foram essenciais para a baixa letalidade do vírus no contexto alemão. Especialistas avaliam que o governo de Merkel agiu de maneira firme no momento certo para mitigar os efeitos da pandemia.

    Nova Zelândia

    Além do número muito reduzido de mortes por covid-19, o país começou a apresentar queda no número de novos casos confirmados por dia no início de abril.

    O controle bem-sucedido do vírus na ilha, onde vivem em torno de cinco milhões de pessoas, é atribuído principalmente à estratégia de eliminação adotada pelo governo em meados de março, destinada a erradicar completamente a transmissão do vírus dentro das fronteiras do país. Ela se distingue de abordagens que têm sido empregadas com maior frequência, de mitigação e supressão.

    Até então, o governo de Jacinda Ardern tinha colocado em prática medidas semelhantes às de outros países, como a vizinha Austrália: restrições na fronteira, isolamento de pessoas vindas do exterior e o rastreamento de contatos de pessoas infectadas.

    Mas, no final de março, quando a Nova Zelândia ainda apresentava apenas cerca de uma centena de casos, Ardern anunciou a decisão de entrar em uma rígida quarentena nacional, além de endurecer as limitações de viagens e ampliar as testagens. A liderança de Ardern tem sido vista como fundamental para que essa mudança de direção tenha tido adesão da população e, assim, alcançado bons resultados. Com os neozelandeses em massa ficando em casa já há um mês, o país vem conseguindo eliminar muitas cadeias de transmissão da doença.

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