Como Bolsonaro se isola internacionalmente na pandemia

Ao minimizar riscos da pandemia e contrariar regras de saúde, presidente brasileiro se alinha a um pequeno grupo de líderes mundiais

    O presidente Jair Bolsonaro alinhou o Brasil a um grupo de países periféricos cujos líderes fazem pouco caso da pandemia do novo coronavírus que até segunda-feira (20) havia deixado mais de 2 milhões de contaminados e 165 mil mortos no mundo.

    A posição de incredulidade diante da ameaça e de menosprezo pelas medidas de contenção da pandemia, tais como a quarentena e o distanciamento social, são o traço comum entre líderes de pelo menos três países, além do Brasil: Nicarágua, Bielorússia e Turcomenistão. Em outros, como EUA, Reino Unido e México, as posições oscilaram da incredulidade inicial a uma revisão tardia das posições, sobretudo em relação à quarentena.

    Alguns analistas internacionais começaram a identificar esse pequeno grupo de líderes como membros de uma “aliança de avestruzes”. O termo, usado pelo professor de relações internacionais Oliver Stuenkel, no Brasil, começou a aparecer em publicações de prestígio internacional, como o britânico Financial Times e o americano The Washington Post.

    O uso da figura do avestruz é uma alusão aos ditados populares que associam o gesto da ave, de enfiar a cabeça num buraco no solo, à dos líderes que estariam fingindo não ver uma das maiores crises sanitárias de que se tem notícia na história.

    Em editorial – peça na qual os donos da publicação expressam um ponto de visto sobre um determinado assunto – o Washington Post chegou a dizer: “Líderes põem vidas em risco ao minimizar o coronavírus. Bolsonaro é o pior”.

    O jornal americano coloca os líderes desses países em contraposição ao exemplo positivo dos chefes de Estado e de governo de países como a Alemanha, a Coreia do Sul, a Nova Zelândia e Taiwan, que optaram por planos precoces de quarentena, forçando a redução da curva de casos de contaminação.

    “Esses homens não estão ligados entre si apenas pela negação da severidade da ameaça, mas também pelo aparente desprezo pelo pânico e pelas preocupações dos demais”

    Ishaan Tharoor

    Colunista de política internacional do jornal americano The Washington Post, em coluna do dia 20 de abril de 2020

    Comportamento de risco

    Brasil

    Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta no meio da pandemia, no dia 16 de abril. O presidente divergia da postura do auxiliar em relação ao uso de medidas de distanciamento social como meio de conter a propagação do vírus. Bolsonaro classificou a pandemia, em 10 de março, como uma “fantasia” criada “pela mídia”. Um mês depois, o país somava mais de 38 mil contaminados e mais de 2.400 mortos. O presidente brasileiro sai com frequência às ruas, onde cumprimenta apoiadores, sem o uso de máscaras, provocando aglomerações em locais públicos. Ele também apoia grupos de manifestantes que saem às ruas para pedir o fim da quarentena, e já defendeu em diversas ocasiões a “volta à normalidade” para mitigar o impacto econômico das medidas restritivas.

    Nicarágua

    O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, permaneceu 34 dias sumido desde o início da pandemia, até reaparecer num pronunciamento no dia 15 de abril, quando assegurou que o país, de 6,2 milhões de habitantes, tinha apenas um único cidadão morto pelo coronavírus. À época, os países vizinhos somavam 35 mortes. Ortega trata a covid-19, doença causada pelo vírus, como “uma ameaça que vem do exterior”. O presidente, que é de esquerda, disse que o país está protegido porque seus médicos foram formados em Cuba e na Venezuela. Apesar de não negar a existência do vírus, Ortega disse: “A Nicarágua não pode parar. Não podemos morrer de fome.”

    Bielorrússia

    O presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, que está no cargo ininterruptamente desde 1994, diz que a pandemia é uma “psicose” e apostou que nenhum cidadão de seu país morreria de coronavírus. No dia 28 de março, Lukashenko participou de um jogo de hóquei em um ginásio lotado. Perguntado por um jornalista sobre a pandemia, ele disse: “É melhor morrer de pé que morrer de joelhos.” De acordo com ele, a prática de esporte é melhor remédio que qualquer antiviral”. À época, havia 152 pessoas contaminadas no país. Nesta segunda-feira (20), havia mais de 4 mil contaminados e 45 mortos.

    Turcomenistão

    O presidente do turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhammedov, simplesmente proibiu o uso da palavra “coronavírus” no país, de acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras. Jornalistas estão proibidos de dizer ou escrever a palavra, que também não pode constar em materiais educativos e publicações oficiais. Além disso, o presidente mandou prender pessoas que estivessem conversando sobre a pandemia ou portando máscaras em público. Berdymukhammedov diz que não há nenhum caso de contaminação ou morte pela doença no país.

    O agravante, no caso brasileiro, é que o presidente Bolsonaro embala a crise sanitária com apoio aberto a manifestações populares que pedem o fim da democracia no país. Esses gestos extremos agregam ainda mais instabilidade ao cenário.

    No domingo (19), o presidente brasileiro discursou a um grupo que pedia o golpe militar na frente do quartel-general do Exército, em Brasília. Bolsonaro, que disputa com governadores a primazia de dar ordens sobre a manutenção ou suspensão das quarentenas, disse que não está disposto a negociar. O Supremo Tribunal Federal já decidiu que a determinação de regras de isolamento deve ser feita pelos governos locais.

    De cima da caçamba de um veículo estacionado, o presidente brasileiro, que já teve suspeita de estar infectado com o coronavírus mas se recusa a revelar o resultados dos exames, teve um acesso de tosse, que interrompeu suas palavras finais. Ele não usava máscara. Além disso, tocava e era tocado por seus auxiliares, todos desprotegidos.

    Descolamento dos grandes países

    A trajetória de descolamento de Bolsonaro em relação às normas sanitárias preconizadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e das regras democráticas contidas na Constituição de 1988, colocam o presidente brasileiro num campo cada vez mais restrito e radical.

    Bolsonaro tentou manter-se alinhado ao presidente americano, Donald Trump, que também minimizou o risco da pandemia no começo. Porém, aos poucos, o presidente dos EUA mudou de atitude conforme o coronavírus avançou em seu país, hoje considerado o novo epicentro mundial da doença. Atualmente, Trump tensiona com seus auxiliares e com os governadores dos EUA para reabrir o comércio e a indústria, mantendo uma posição sempre ambígua a respeito, ainda que admita a necessidade de medidas de restrição da circulação.

    Algo semelhante ocorreu também no Reino Unido, onde o primeiro-ministro Boris Johnson mandou que os cidadãos mantivessem “os negócios como de costume”, quando a experiência de países como Itália, Espanha e França já recomendava o início de uma quarentena nacional.

    A atitude inicial incrédula de Johnson terminou com ele mesmo internado numa UTI de Londres, depois de ter se contaminado com o coronavírus. Os assessores científicos do governo britânico retardaram a decretação da quarentena acreditando que um alto índice de contaminação da população levaria a uma imunização coletiva. As projeções mostraram um cenário catastrófico, e Johnson refez o rumo. Agora, a oposição trabalhista tenta responsabilizá-lo pelos mais de 120 mil casos registrados no país, e pelas mais de 16 mil mortes.

    Além de americanos e britânicos, também os mexicanos viram seu presidente mudar de posição radicalmente, conforme a crise foi se mostrando incontornável.

    O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, mandou seus concidadãos “seguirem com a vida normalmente”, enquanto a pandemia já ganhava o mundo. O subsecretário de Prevenção e Promoção da Saúde do governo do México, Hugo López-Gatell, debatia-se com as dificuldades concretas de incutir um comportamento responsável na população, enquanto AMLO, como é conhecido o presidente, postava vídeos nos quais participava de eventos públicos.

    Porém, assim como nos EUA e no Reino Unido, o México também mudou de posição e, a partir de 23 de março, o país começou a implementar uma estratégia gradual de confinamento.

    Recuperação incerta

    Além do isolamento brasileiro no campo sanitário, Bolsonaro também coloca o Brasil em situação difícil quando se trata de projetar a necessária recuperação econômica que virá num segundo momento.

    Foto: Martin Bureau/Reuters - 27.02.2020
    Homem veste camisa e gravata, e segura uma mão contra a outra
    Presidente francês, Emmanuel Macron

    Como faz desde o início de sua gestão, o presidente brasileiro aposta todas as fichas na relação bilateral com os EUA. O problema é que os americanos foram engolfados por uma das maiores crises de sua história, e estão concentrados com todas as forças na própria recuperação sanitária e econômica.

    No dia 14 de abril, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse que “o povo brasileiro pode contar com os EUA quando 'virarmos a esquina' ['turn the corner', expressão em inglês para se referir à melhora do quadro depois de uma situação difícil] e aumentarmos a produção americana para todos os itens restritos, que vão de respiradores, testes, tudo o que é necessário. Quando chegarmos lá, o Brasil deveria saber que faremos tudo o que pudermos para ter certeza de que eles têm o que precisam”.

    No dia 17 de abril, o Itamaraty publicou comunicado no qual trata da “implementação de uma ambiciosa agenda econômica e comercial entre o Brasil e os Estados Unidos, conforme acordado pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump na reunião que mantiveram em Mar-A-Lago, no dia 7 de março de 2020”.

    O texto fala em “acelerar o diálogo comercial” e “concluir, em 2020, um acordo em matéria de regras comerciais e transparência, incluindo facilitação de comércio e boas práticas regulatórias” para “expandir o comércio e desenvolver o relacionamento econômico bilateral”. Mas não indica negócios e valores concretos.

    A Argentina, em comparação, aprofundou o movimento de aproximação com os países europeus, antevendo a necessidade de crédito. No dia 19 de abril, o presidente Alberto Fernández anunciou que havia mantido uma conversa telefônica com o presidente da França, Emmanuel Macron.

    Nas redes sociais, Macron – desafeto de Bolsonaro desde pelo menos agosto de 2019, quando os dois divergiram sobre queimadas na Amazônia – disse que a França vai “ajudar a Argentina a enfrentar seus desafios econômicos e financeiros”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante? x

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: