Como a queda histórica da China afeta a economia mundial

Atividade do país asiático tem primeira retração registrada em mais de 40 anos. Números apontam para uma recuperação lenta em meio à pandemia do novo coronavírus

    O governo da China divulgou na quinta-feira (16) os números do PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre de 2020. Os resultados vieram tão ruins quanto o esperado pelo mercado. Ou até piores.

    6,8%

    foi a queda do PIB chinês no primeiro trimestre de 2020, em comparação ao mesmo período de 2019

    O PIB é a soma de tudo que um país produz de bens e serviços em um determinado período, o que permite medir o ritmo da atividade econômica do local. O resultado do PIB da China no primeiro trimestre diz, portanto, que a atividade encolheu consideravelmente entre janeiro e março, feita a comparação com o mesmo período do ano anterior.

    E, não bastasse o tamanho da queda, os números divulgados na quinta-feira (16) também confirmaram o fim de uma sequência de crescimento da economia chinesa que durava décadas.

    A interrupção do crescimento

    Assim como fez nos EUA, onde o PIB crescia por dez anos consecutivos, a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, levou a uma freada brusca em uma economia chinesa que vinha em alta. Mas, no caso chinês, tanto o ritmo de crescimento quanto a duração da série eram maiores que nos EUA.

    A queda do PIB no primeiro trimestre de 2020 é o primeiro tombo da economia chinesa reconhecido nas estatísticas oficiais desde 1976 – ano da morte de Mao Tsé-Tung e do fim da Revolução Cultural. Foram mais de quatro décadas de crescimento ininterrupto, e quase sempre a taxas altas.

    44 ANOS DE ALTA

    Crescimento anual do PIB da China, 1976 a 2019. 44 anos de alta, com apenas dois anos abaixo de 5%: 1989 e 1990.

    Nessa sequência de crescimento, o pior resultado veio em 1990, quando o PIB chinês cresceu “apenas” 3,9% em relação ao ano anterior. O melhor resultado veio em 1984, ano em que a economia cresceu pouco mais de 15%. Não se sabe se a economia chinesa irá encolher no ano de 2020 – o FMI prevê um crescimento de 1,2% no total dos quatro trimestres do ano –, mas o resultado negativo de janeiro a março indica o pior desempenho nos últimos 44 anos.

    O governo da China só começou a divulgar oficialmente dados trimestrais da economia em 1992. Desde então, em nenhuma ocasião o crescimento do PIB em três meses havia sido negativo. O começo de 2020 quebra essa série.

    EVOLUÇÃO TRIMESTRAL DESDE 2018

    Crescimento trimestral do PIB da China desde 2018. Entre 6% e 7% de alta em todos os trimestres (em comparação ao mesmo período do ano anterior) até a queda de 6,8% no primeiro trimestre de 2020.

    O gráfico acima detalha a trajetória de crescimento trimestral da China no final da década de 2010 e mostra o tamanho da queda no início de 2020. Se antes a economia crescia a taxas entre 6% e 7%, o primeiro trimestre da nova década praticamente inverteu o sinal ao mostrar uma contração de 6,8%.

    Os números da queda

    Além dos números do PIB em si, outros dados mostram o que está por trás da contração da economia chinesa. Eles também refletem a paralisação da economia perante os esforços para conter a pandemia do novo coronavírus.

    O fechamento de fábricas e comércios e a restrição da circulação de pessoas levou a uma suspensão de boa parte das atividades. Em março de 2020, o varejo chinês encolheu 15,8% em relação ao mesmo mês no ano anterior. Nos dois primeiros meses do ano, a queda havia sido de 20,5% em relação ao primeiro bimestre de 2019.

    Da mesma forma, o investimento em ativos fixos – como maquinário, veículos e propriedades imobiliárias – caiu 16,1% no primeiro trimestre do ano, em comparação com o mesmo período de 2019.

    A produção industrial, que havia tombado 13,5% entre janeiro e fevereiro, teve queda substancialmente menor em março. A redução foi de 1,1% em relação a março de 2019.

    Em entrevista, o porta-voz do Departamento de Estatística do governo chinês, Mao Shengyong, deixou claro que não vê os resultados do primeiro trimestre como indicativos de redução do ritmo de crescimento do país no longo prazo.

    “Não podemos dizer que os fundamentos do crescimento econômico de longo prazo da China tenham mudado por causa de um choque de curto prazo”

    Mao Shengyong

    porta-voz do Departamento de Estatística do governo chinês, em coletiva de divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2020

    A pandemia na China

    A China foi o primeiro epicentro da pandemia do novo coronavírus no mundo. As origens específicas da doença são desconhecidas, mas a suspeita é que o vírus tenha vindo de animais vendidos no mercado central de Wuhan, metrópole chinesa onde o vírus foi descoberto, em dezembro de 2019.

    Conforme a doença foi se espalhando nos primeiros dias de 2020, foi crescendo o temor de que o surto poderia levar a uma ocorrência grave na área da saúde. Ainda no final de janeiro, a China decidiu implementar as primeiras medidas de restrição de circulação de pessoas, mantendo milhões de pessoas isoladas.

    Foram mais de dois meses com medidas de isolamento social em diversas regiões do país. No final de março, as restrições começaram a ser retiradas gradualmente, com abertura de cidades e retomada de aulas presenciais em algumas escolas.

    A China foi o primeiro país a ter de lidar com o novo coronavírus e o primeiro também a optar pelo isolamento como forma de combate à pandemia. As ações se mostraram efetivas para controlar a doença, cujo número de infectados no país estacionou na casa dos 87 mil, com pouco mais de 4.500 mortes.

    Como consequência, o país é o primeiro a mostrar que tipo de impactos essas medidas terão efetivamente na economia e seus principais indicadores.

    A prévia para o restante do mundo

    O resultado do PIB chinês no primeiro trimestre serve como um sinal para outros países impactados pela covid-19. É o primeiro número concreto que existe sobre o tamanho que os efeitos da pandemia podem ter sobre o total da atividade econômica de um país.

    Antes da divulgação dos dados, a expectativa entre analistas de mercado era de uma queda de 6,5% no PIB do primeiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2019. O resultado veio 0,3 ponto percentual acima do esperado.

    O papel da China na economia global

    A China é a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA. Não apenas isso, como o país é o maior exportador e o segundo maior comprador do planeta. Em meio à tendência de queda forte no comércio internacional, a situação chinesa pode influenciar e ser influenciada pelo cenário global.

    Enquanto exportadora, a China teme que as vendas no exterior sofram quedas significativas por conta da pandemia. As exportações representam cerca de 20% do PIB do país.

    Os efeitos já estão sendo sentidos. Nos primeiros dois meses de 2020, a queda das exportações foi de 17,2% em relação ao primeiro bimestre de 2019. Em março, a queda foi atenuada por liberação de compras retidas no início do ano – mas ainda assim houve contração de 6,6%. A expectativa é que, com o aumento de medidas de restrição em outros países do mundo e a contração da demanda por todo o globo, as exportações chinesas sofram mais choques de grande escala durante a crise.

    As importações chinesas

    A queda da economia da China é má notícia para as empresas e países que tem no gigante asiático seu principal parceiro comercial. Com a economia operando a um nível mais baixo, a tendência é que a demanda chinesa por produtos vindos do exterior caia, prejudicando os vendedores que costumam ter no mercado chinês uma clientela importante.

    A China é a principal importadora de commodities do mundo. Commodities são bens com pouco valor agregado, como produtos de extração e agricultura. Países que exportam esse tipo de mercadoria, portanto, podem ser impactados pela crise na China.

    E o ritmo de importação já está em baixa. Entre janeiro e fevereiro, a queda nas importações foi de 4% em relação ao mesmo bimestre em 2019. Em março, a queda foi menor, ficando em 0,9%.

    O peso da China para o Brasil

    O Brasil é um desses países que tem na China seu principal comprador no exterior. A retração do país asiático, portanto, pode atingir com força a balança comercial brasileira.

    28,1%

    foi o peso da China nas exportações brasileiras em 2019

    Há três produtos que se destacam nas exportações do Brasil à China: a soja, o petróleo e o minério de ferro. Juntos, esses produtos foram responsáveis por mais de três quartos do valor total vendido por produtores brasileiros aos mercados chineses.

    A soja é destinada para a alimentação da população e para a criação de rebanhos de animais de abate. Já o petróleo e o minério de ferro são importantes insumos da cadeia de produção industrial, que passa por um momento de baixa em meio à pandemia. Caso a demanda chinesa por esses produtos seja reduzida significativamente em meio à pandemia, o prejuízo para exportadores brasileiros pode ser grande.

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