Qual o impacto da pandemia de coronavírus no comércio mundial

Projeções do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) traçam cenários com base em diferentes fatores em meio à alta volatilidade. Crise deve se estender até 2021

    O comércio internacional deve ser fortemente abalado pela pandemia do novo coronavírus em 2020. Com as economias pelo mundo desaquecidas e restrições de transporte entre países, crescem os obstáculos para que empresas de diferentes lugares comprem e vendam bens entre si.

    Um estudo de pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) publicado na terça-feira (14) tentou estimar qual vai ser o tamanho da queda sofrida pelo comércio global no cenário da pandemia.

    Os próprios pesquisadores destacam que fazer previsões em meio ao cenário incerto é uma tarefa difícil – os fatores que podem variar de forma imprevisível são muitos, o que compromete boa parte das metodologias que normalmente são aplicadas nesse tipo de projeção.

    O estudo lista os principais fatores que podem interferir com as projeções sobre o comércio internacional, influenciando os cenários tanto para bem como para mal. Segundo o instituto, os fatores com possíveis impactos negativos são mais numerosos que os positivos. Mesmo na visão mais otimista, a expectativa para o comércio internacional é de tombo.

    Os potenciais fatores positivos

    Efetividade de políticas econômicas

    Um fator que poderia ajudar a economia global a ter um desempenho melhor do que o esperado é a efetividade das medidas tomadas pelos governos pelo mundo. Ainda não se sabe qual será o efeito das ações econômicas lideradas pelos poderes públicos. O que se sabe é que a reação, no geral, foi rápida e volumosa, o que pode gerar resultados melhores do que os esperados em um primeiro momento.

    Eficiência no combate à covid-19

    Outro fator que pode ajudar é o avanço da ciência no combate à pandemia. É impossível saber se e quando os esforços científicos chegarão a resultados e descobertas concretas. Mas se isso ocorrer mais cedo do que o imaginado, o impacto da pandemia sobre a atividade econômica será atenuado.

    Os potenciais fatores negativos

    A longevidade da pandemia

    Não se sabe quanto tempo a pandemia e seus efeitos restritivos irão durar. Caso o período seja mais longo do que o esperado, ou caso haja novas ondas de disseminação do novo coronavírus, os impactos sobre a economia podem ser duradouros.

    As rupturas nas cadeias

    A crise está levando muitas empresas a reformularem suas cadeias de fornecedores, buscando parcerias com firmas que estejam mais próximas geograficamente. A depender da escala do rearranjo, a retomada do crescimento pós-pandemia pode ser mais demorada, levando mais tempo para que as cadeias voltem às suas configurações originais.

    Desequilíbrios econômicos e sociais profundos

    Caso a crise leve a problemas estruturais mais graves, o desempenho econômico será pior do que o imaginado. Os desequilíbrios estruturais vão desde a quebra de grande número de empresas até o desemprego muito alto e um aumento acentuado na pobreza. Quanto mais potentes esses problemas, maior será o impacto negativo sobre a economia.

    A possibilidade de crise financeira

    Com a crise, famílias e empresas estão vendo o dinheiro que entra todos os meses diminuir consideravelmente. Isso pode levar a problemas de pagamentos de empréstimos, afetando os sistemas financeiros dos países. Em países mais desenvolvidos, esse risco é menor, por haver mais solidez no setor bancário e pelos esforços que estão sendo feitos de aumentar a liquidez da economia.

    O cenário em países em desenvolvimento

    Em países em desenvolvimento, a crise pandêmica pode levar a uma fuga de capitais. Isso significa que o dinheiro colocado por estrangeiros na economia pode ser retirado em ritmo acelerado, com pouco dinheiro novo entrando. Isso pode levar a desvalorizações das moedas locais, trazendo dificuldades para os países que não têm reservas para conter variações fortes no câmbio.

    O protecionismo

    O estudo do Ipea prevê a possibilidade de restrições ao comércio internacional crescerem em decorrência da crise. Isso porque os países tentariam proteger suas economias, estimulando a produção interna de bens e aumentando as barreiras para as importações.

    O fator político

    O documento publicado pelo Ipea fala em “possíveis instabilidades políticas” que podem ocorrer em diferentes partes do mundo – principalmente em países em desenvolvimento. O estudo não entra em detalhes sobre a natureza desses eventos nem onde especificamente eles poderiam ocorrer.

    A construção do modelo

    Considerando fatores de alta volatilidade que podem interferir nos rumos da economia mundial durante e após a crise, o estudo coloca cenários para a variação do PIB (Produto Interno Bruto) global em 2020 e 2021. Esses cenários servirão de base para as projeções sobre o comércio internacional.

    TRÊS CENÁRIOS PARA CADA ANO

    Cenários para variação do PIB global em 2020 e 2021. Cenários otimista, básico e pessimista.

    Os cenários foram considerados antes do FMI (Fundo Monetário Internacional) publicar sua estimativa de queda de 3% na economia global em 2020. Nesse sentido, a projeção do fundo está mais alinhada com o cenário pessimista utilizado pelo Ipea, em que a redução da atividade mundial em relação a 2019 é de 3,5%.

    O estudo considera três cenários para cada ano (2020 e 2021). Os cenários podem se intercalar. Ou seja, em 2020 pode ocorrer um cenário pessimista, mas no ano seguinte o desempenho ser mais próximo ao otimista. Isso gera nove combinações diferentes de trajetórias para a economia global.

    Os efeitos sobre o comércio internacional

    A partir dos possíveis caminhos percorridos pela atividade econômica nos dois anos considerados, o estudo do Ipea tenta transpor os números do PIB para o comércio internacional. Para fazer isso, a pesquisa olha para o histórico de comportamento do comércio frente ao desempenho do PIB global.

    Os antecedentes mostram que não é necessário que haja queda da atividade econômica (PIB com variação negativa) para que o comércio internacional caia. Isso porque crescimentos econômicos fracos geralmente são amortecidos pelo setor de serviços; mas os momentos de crise ou ritmo baixo tendem a ser mais pesados sobre a indústria, que tem participação maior no comércio internacional. Dentro disso, um crescimento do PIB global a menos de 2% já seria suficiente para levar a uma queda no comércio internacional.

    O estudo monta, então, os cenários possíveis para o comércio internacional em 2020 e 2021. Eles se baseiam nas projeções já mencionadas para o PIB global de cada ano.

    COMÉRCIO EM 2020 E 2021

    Cenários para variação do comércio global em 2020 e 2021. Cenários otimista, básico e pessimista.

    Os cenários projetados pelo Ipea são de forte retração do comércio em 2020, mesmo quando há um olhar otimista. No melhor dos casos, o comércio internacional cai 15% em relação a 2019; no pior, 25%. Para 2021, a tendência é que haja alta – os cenários são de aumento de 4%, 7% ou 10%. Em todos os cenários, a recuperação não será suficiente para compensar as reduções de 2020.

    O cenário base

    O cenário básico construído pelo estudo mostra uma queda de 20% no comércio internacional em 2020. A partir daí, é possível estimar qual seria o impacto acumulado entre 2020 e 2021, como mostra o gráfico abaixo.

    QUEDA DE 20% EM 2020

    Cenário base, com queda de 20% no comércio em 2020 e 2021

    Na combinação dos cenários medianos – queda de 20% em 2020 e alta de 7% em 2021 –, o resultado acumulado em dois anos é de redução de 14,4% no comércio global.

    Os cenários otimista e pessimista

    Os cenários otimista e pessimista mostram como a volatilidade da crise é alta. O melhor cenário possível – onde o comércio cai “apenas” 15% em 2020, mas cresce 10% em 2021 – resulta em uma perda acumulada de 6,5% do comércio internacional. Já o pior – onde há queda de 25% em 2020 e alta de 4% em 2021 – resulta em uma redução de 22% do comércio em dois anos.

    QUEDA DE 15% EM 2020

    Cenário otimista, com queda de 15% no comércio em 2020

    QUEDA DE 25% EM 2020

    Cenário pessimista, com queda de 25% no comércio em 2020

    O que o Ipea espera, portanto, é que em dois anos, o comércio internacional caia entre 6,5% e 22%. Mesmo com um intervalo alto, todos os cenários previstos são de queda.

    As projeções da OMC

    As projeções feitas pelo estudo do Ipea vão na mesma direção do que foi divulgado pela OMC (Organização Mundial do Comércio) em 8 de abril, em especial no que diz respeito a 2020. A maior diferença entre as duas publicações é que o órgão internacional prevê uma recuperação mais rápida, conforme refletido em projeções mais otimistas para o comércio em 2021.

    OS NÚMEROS DA OMC

    Variação do comércio nos cenários projetados pela OMC. Otimista e pessimista

    No estudo, o Ipea rejeita a tese da OMC de que a economia global terá uma recuperação acentuada e rápida. As características da crise e a volatilidade dos fatores impediriam uma volta à normalidade no curto prazo. Não à toa, o cenário pessimista da OMC, de queda de 15,6% no acumulado de 2020-21, está próxima do cenário mediano elaborado pelo Ipea, onde o tombo é de 14,4% nos dois anos.

    O peso do comércio internacional no Brasil

    O Brasil tem um papel importante no quadro internacional de comércio, principalmente nos mercados de commodities – bens com pouco valor agregado, como produtos de extração e agricultura. Entre os produtos que o país mais vende ao exterior estão a soja, o petróleo e o minério de ferro.

    Já entre as mercadorias que o Brasil mais compra estão bens usados em processos produtivos, como fertilizantes, peças de carro e produtos da indústria de transformação. Em 2019, o saldo da balança comercial – exportações menos importações – foi o menor desde 2015.

    US$ 48,04 bilhões

    foi o saldo da balança comercial em 2019

    Seja pela desaceleração da economia global, pela limitação de transporte de produtos ou pelo possível aumento de restrições ao comércio – caso das medidas protecionistas alertadas pelo Ipea –, a queda no cenário comercial internacional deve afetar o Brasil.

    Por um lado, o setor exportador pode encontrar obstáculos para vender no exterior e ter queda significativa de receitas, mesmo com o real desvalorizado frente ao dólar. Por outro, quem depende de insumos importados para manter sua cadeia produtiva de pé pode ter dificuldade em comprar as mercadorias necessárias. Isso porque o dinheiro a entrar na empresa pode sofrer uma queda brusca, e também porque o câmbio alto encarece os produtos comprados fora do país.

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