O uso de testes por amostra para rastrear e combater o coronavírus

Primeira pesquisa do tipo abarcou 4.189 pessoas no Rio Grande do Sul e mostrou que o número de infectados pode ser 15 vezes maior do que o registrado oficialmente

    A primeira fase de um estudo realizado no Rio Grande do Sul mostrou que o número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no estado pode ser 15 vezes maior do que os casos confirmados oficialmente, reforçando que o país tem lidado com uma subnotificação de casos.

    A conclusão consta da primeira pesquisa por amostragem feita no Brasil, batizada de Epicovid19. Ela foi coordenado pela Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) e pelo governo estadual.

    Seu objetivo foi estimar a proporção de pessoas no estado que já estão com anticorpos para o vírus Sars-CoV-2, além de avaliar a velocidade de expansão da infecção, determinar o número de casos assintomáticos e obter cálculos mais precisos de letalidade.

    Para isso, foram testadas 4.189 pessoas de nove cidades do Rio Grande do Sul, entre 11 e 13 de abril. Juntas, esses municípios representam 31% da população do estado, que possui 11,3 milhões de habitantes. Elas serão testadas quinzenalmente em mais três etapas, até o final de maio.

    O mesmo levantamento será realizado pela Ufpel em todo o país, a pedido do Ministério da Saúde, a um custo de R$ 12 milhões. O governo federal doou 100 mil kits para a iniciativa.

    Os resultados

    Desse total de testes, apenas dois apresentaram resultados positivos, o que representa 0,05% da amostra. Estima-se, portanto, que exista um infectado a cada 2.000 habitantes, o equivalente, naquela data, a 5.650 pessoas em todo o Rio Grande do Sul.

    No período de realização da pesquisa, o governo do estado – que devido à falta de kits aplica os testes apenas nos pacientes mais graves – confirmava 384 casos de infectados pelo novo coronavírus. Ou seja, o número real de infectados pode ser 15 vezes maior.

    O estudo concluiu que, para cada caso registrado, quatro não são notificados. Os resultados da pesquisas mostram ainda que, para cada 1 milhão de habitantes no Rio Grande do Sul, existem 500 infectados, dos quais apenas 65 são oficialmente notificados.

    A proporção de infectados observada na pesquisa brasileira (0,05%) é inferior à de países como Coreia do Sul (2,1%) e Islândia (0,9%), que também realizaram testagens em amostras da população.

    As equipes foram a campo em Porto Alegre, Canoas, Pelotas, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Passo Fundo, Ijuí e Uruguaiana. O estudo, que usou testes rápidos (feitos a partir da coleta de sangue), foi financiado pelo Instituto Serrapilheira, pela Unimed Porto Alegre e pelo Instituto Cultural Floresta.

    Os testes rápidos identificam anticorpos contra o coronavírus no organismo de sete a dez dias depois que a pessoa se infectou. Eles são diferentes do testes PCR, que analisam secreções das vias respiratórias e identificam o vírus no momento em que está agindo.

    O uso das amostras

    Na impossibilidade de testar toda a população de um país (no Brasil seriam necessários quase 210 milhões de kits), pesquisas feitas com amostras já estão sendo utilizadas por alguns governos para tomar decisões sobre a flexibilização do isolamento social.

    A Áustria, por exemplo, que tem 8,5 milhões de habitantes, descobriu que o número de pessoas que se curaram da infecção (6.987) já supera o número de doentes (6.608) e de mortos (350). Os dados são de 12 de abril. Pessoas já infectadas adquirem imunidade, mas os cientistas ainda tentam descobrir o tempo de duração dessa proteção natural do organismo contra o vírus.

    Os dados por amostragem ajudaram o governo local a decidir, por exemplo, pela abertura de pequenos comércios não essenciais em 14 de abril. A partir de 1º de maio, todas as lojas devem reabrir e, em meados de maio, o país pretende voltar à normalidade, com o funcionamento de escolas, restaurantes e hotéis.

    Uma análise sobre o teste amostral

    O Nexo conversou com Aluísio Barros, professor titular do programa de pós-graduação em epidemiologia da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) e um dos autores do estudo, sobre o papel da testagem amostral no combate à pandemia.

    Como os testes por amostragem podem ajudar o país?

    ALUÍSIO BARROS A importância desses testes é que a gente precisa ter uma ideia de qual a proporção de pessoas na população, como um todo, que já foi infectada e que já desenvolveu alguma imunidade contra o coronavírus. O que acontece, na prática, não só no Brasil como no mundo inteiro, é que ninguém tem condição de testar em larga escala e nem faria sentido testar as pessoas em larga escala individualmente. O que a gente tem é um número relativamente pequeno de gente que é testada, e esse número de casos confirmados que são divulgados diariamente pela imprensa é uma parcela pequena do número de casos que existem na população.

    Na impossibilidade de testar a população inteira, o que não faria sentido, a gente faz uma amostragem numa lógica que é parecida, para ficar fácil de entender, à de pesquisas de intenção de voto. O Ibope não vai entrevistar todo os eleitores do país. Pega-se uma amostra, entre 2.000 e 3.000 eleitores do país inteiro, e dela se consegue ter a ideia de qual é a intenção de voto das pessoas. Da mesma forma, a gente faz uma pesquisa por amostragem para ver qual é o percentual de pessoas na população que já teve contato com o vírus e que já tem anticorpos contra ele. Isso é uma informação super importante no sentido de ter ideia do momento de evolução dessa epidemia e como é que se pode gerenciar essa coisa toda do distanciamento social, para saber se dá para flexibilizar, se não dá. Isso vai ajudar nessa tomada de decisão.

    A pesquisa é um retrato do momento. Ela tem que ser refeita periodicamente?

    ALUÍSIO BARROS Talvez a grande diferença da pesquisa de opinião em relação à de intenção de votos é que as pessoas mudam de opinião. De repente sai uma declaração assim ou assado, e a pessoa muda de opinião. No caso do teste que é usado para esse tipo de pesquisa, a pessoa não pode mudar de opinião. Na medida em que a pessoa tem contato com o vírus, e desenvolve imunidade e tem uma determinada quantidade de anticorpos circulando, esses anticorpos vão ficar lá durante pelo menos alguns meses. Então, essa pessoa vai dar positivo nesse teste durante um período relativamente longo. O que a gente faz ao fazer pesquisa seriada é tentar traçar e estimar o aumento do número de pessoas que já possuem anticorpos contra o vírus na população.

    Por que foram usados os testes rápidos? A pesquisa poderia ter sido feita com os testes PCR?

    ALUÍSIO BARROS O teste rápido identifica as pessoas que já tiveram contato com o vírus há pelo menos dez, 15 dias, e tiveram tempo de produzir imunidade. A grande diferença é que o teste PCR [feito a partir da análise de secreções] vai dar positivo só no período em que a pessoa tem a infecção aguda e tem uma quantidade relativamente grande do vírus no organismo. Faz-se um esfregaço da orofaringe [parte mediana da faringe], com um cotonete gigante, e tenta identificar a presença do vírus naquele material, naquela secreção da orofaringe da pessoa. Seria muito menos interessante fazer o teste na população desse jeito porque você vai ter, na verdade, um número muito pequeno de pessoas que têm a infecção ativa naquele momento, e você não sabe quantas pessoas ficaram doentes e já se curaram e estão imunes. É muito mais importante, do ponto de vista do manejo da epidemia, ter essa ideia de quanta gente já se contaminou e não é mais suscetível, pelo menos num período de tempo curto, a uma infecção.

    Como as pessoas testadas foram escolhidas?

    ALUÍSIO BARROS A gente tem toda uma estratégia de cálculo de tamanho de amostra que a gente, para conseguir uma determinada precisão de estimativa, calcula seguindo um protocolo da Organização Mundial da Saúde, que recomenda um número até um pouco menor de testes. Eles recomendam entre cem e 300 testes para cada unidade ou cidade. A gente está fazendo 500 testes por cidade-sentinela. Isso nos dá uma precisão razoável.

    A proposta de trabalhar com cidades-sentinelas é porque facilita a logística. Nós temos que fazer esse estudo numa velocidade muito grande, então concentrar isso em algumas cidades facilita muito a logística, diferente dessas pesquisas do IBGE que têm representatividade nacional, e que espalha entrevistadores pelo país inteiro, em cidades grandes e pequenas, na zona urbana e rural. E, também, é mais útil do ponto de vista da própria decisão das autoridades de saúde, porque o grosso dos casos e a própria questão de definir necessidade de mais leitos nos hospitais, de mais UTI [Unidade de Terapia Intensiva], mais respiradores, se concentram nessas cidades que são polos de atração de doença.

    A gente não chegou a fazer uma amostra estratificada por faixa etária. A gente sabe que a gravidade da manifestação da doença é maior em pessoas de mais idade que tenham comorbidades. Mas, como nosso objetivo é medir o percentual de pessoas que já teve contato com o vírus, a gente não estratificou por idade. A gente está pegando uma amostra da população inteira, de todas as idades.

    É uma amostra feita no Rio Grande do Sul, e o resultado vale para essas cidades e para o estado. A gente tem uma amostra nacional que já está em andamento do ponto de vista do planejamento cuja primeira rodada provavelmente deve ir a campo na semana que vem. Com isso, nós vamos ter uma panorama, da mesma forma que já tivemos numa pequena rodada no Rio Grande do Sul, vamos ter um panorama nacional da epidemia.

    Quais as limitações dessa estratégia?

    ALUÍSIO BARROS Esse tipo de estudo traz uma informação que quase ninguém tem, e agora estão começando a aparecer alguns poucos estudos, principalmente na Europa. Tem estudo na Alemanha, na Áustria, na Itália, na Islândia. Nós estamos sendo pioneiros enquanto país na abordagem, de conhecer como é que está isso na população. Até porque talvez a gente tenha começado a pensar e a se organizar para a epidemia um pouco antes dos outros, num momento mais precoce da epidemia do que os outros países que foram pegos meio que de surpresa.

    Limitações todo estudo científico tem. Uma das grandes dificuldades que encontramos nessa primeira rodada foi as pessoas se recusando a receber os nossos entrevistadores. A gente não teve tempo talvez de fazer uma divulgação adequada. As pessoas estão assustadas por conta da epidemia e por conta de algumas histórias que rolaram por aí de gente se aproveitando, se fantasiando de agente de saúde para entrar em casas e assaltar. Nós tivemos vários casos de gente que se recusou a participar, viu que um vizinho foi convidado e participou e foi atrás da entrevistadora pedindo para participar também. O receio da população é uma dificuldade. O recorte amostral pode levar a algum tipo de viés no resultado.

    A outra limitação é a questão do próprio teste, que tem boas qualidades em termos de precisão, mas nenhum teste é perfeito – ainda mais um teste rápido, que com uma gota de sangue em 15 minutos tem o resultado. A própria disponibilidade do teste é limitada. Dentro daquilo que está sendo disponibilizado pelo Ministério da Saúde para o uso nos serviços de saúde, uma pequena parcela foi disponibilizada para nós, para esses estudos no Rio Grande do Sul e no Brasil inteiro. A gente gostaria até de ter uma amostra maior, mas, neste momento, não é possível. No mundo inteiro, está todo mundo brigando para conseguir insumos e testes, e a situação ainda está bem difícil.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.