O impacto do racismo estrutural nas mortes por covid-19

Dados dos EUA e do Brasil apontam que pessoas negras estão morrendo em proporção maior do que brancos

Nos Estados Unidos e no Brasil, as populações negras vêm apresentando vulnerabilidade maior com relação ao novo coronavírus em comparação a pessoas brancas. A desigualdade de índices sociais, econômicos e de acesso à saúde é o principal fator que explica as diferenças nas taxas de letalidade e infecção.

Vários estados e cidades americanas têm reportado uma desproporção de mortes afro-americanas devido à covid-19, doença causada pelo vírus. Na Louisiana, elas equivalem a 70% de todas as mortes, embora só 33% da população do estado seja negra. No Alabama, negros são 44% das mortes e 26% do total de habitantes. Na cidade de Chicago, 68% das mortes pelo vírus são de afro-americanos, sendo que eles perfazem 30% da população. As estatísticas são preliminares porque a maioria das cidades e estados americanos não inclui informações sobre raça.

Dados históricos mostram como epidemias atingem negros e brancos de forma diferente nos EUA. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do país, lembrou da devastação na comunidade negra causada pelo HIV e pela aids na década de 1980. “Os afro-americanos estarem morrendo mais de covid-19 pode ser uma situação semelhante”, disse à imprensa.

Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças também apontam para a disparidade em nível nacional nos EUA. Uma amostra compilada a partir de informações de 14 estados ao longo de março, totalizando 580 pacientes, mostrou que 33% dos hospitalizados por covid-19 eram afro-americanos, enquanto apenas 13% dos habitantes do país são negros.

“Temos provas preliminares de que precisamos prestar atenção especial à raça e etnia”, afirmou a presidente da Associação Médica Americana, Patrice Harris, em declaração à imprensa americana.

Os primeiros dados brasileiros

No Brasil, o Ministério da Saúde só começou a publicar dados de pessoas infectadas com o recorte de cor/raça em 10 de abril, a pedido da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade). A Coalizão Negra por Direitos também solicitou os dados via Lei de Acesso à Informação.

De acordo com os primeiros números disponibilizados, pretos e pardos representam 23,1% das pessoas internadas por Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave), mas correspondem a 32,8% dos óbitos por covid-19.

Vale lembrar que os casos e as mortes pelo novo coronavírus são subnotificadas no país, devido ao baixo índice de realização de testes específicos. Em áreas periféricas, o acesso a diagnósticos é ainda mais limitado. Isso significa que o quadro pode ser pior do que os números disponíveis permitem ver.

“Assim como nos Estados Unidos fica evidente que a população periférica, majoritariamente composta por pessoas negras, é mais afetada pela covid-19. É importante que tenhamos esses dados categorizados por raça e cor no Brasil para tomar providências”, afirmou Denize Ornellas, diretora da SBMFC, ao jornal Folha de S.Paulo.

A desigualdade histórica

“Por que a comunidade afro-americana é tão numerosas vezes mais [afetada] que qualquer outra?”, perguntou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um pronunciamento em 7 de abril. Ele afirmou que autoridades federais iriam buscar produzir dados para ajudar no entendimento da situação.

Para especialistas de várias áreas, a explicação é simples. São as disparidades sociais e econômicas estruturais entre negros e brancos. Nos EUA, uma grande parte da população negra vive em áreas onde faltam oportunidades de trabalho, a habitação é instável e é difícil encontrar comida saudável nos mercados, de acordo com Sharrelle Barber, professora assistente de epidemiologia e bioestatística na Universidade Drexel, em entrevista ao jornal The New York Times.

Afro-americanos também têm menos acesso a serviços de saúde de qualidade, pois têm menos chances de ter plano médico privado. Nos EUA, o sistema público de saúde não dispõe de atendimento universal.

Em geral, o serviço também costuma ser pior. “O racismo sistêmico e os preconceitos do sistema de saúde têm impacto negativo na saúde dos negros americanos”, afirmou Kristen Clarke, presidente de um organização de advogados contra a desigualdade, em carta enviada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos e aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças do país. Estudos listam como consequências o tratamento inadequado de dores ou de problemas cardíacos.

Trabalho e exposição

Devido a fatores biológicos e socioeconômicos, entre outros, a população negra têm em média 60% mais chances de desenvolver diabetes do que os brancos não-hispânicos nos EUA e uma probabilidade 20% maior de morrer de doença cardíaca. Ambas são comorbidades da covid-19, ou seja, a combinação das duas condições aumenta a chance do infectado morrer.

Há também um número grande de afro-americanos em trabalhos que pagam menos e são mais expostos, muitos deles em ramos considerados essenciais durante a pandemia, como comércio de alimentos e limpeza.

Uma reportagem da BBC entrevistou uma atendente de caixa em Nova Orleans que precisa trabalhar para sustentar seus dois filhos. Segundo afirmou, seu chefe não permite que se use luvas ou máscaras na hora de lidar com os clientes. “Se eu ficar doente, vou só tomar algo pra passar e ir trabalhar. Não quero ficar sem receber. Não se trata de uma escolha”, disse. Nos EUA, empregadores não são obrigados a proporcionar licença médica a funcionários.

“Negros estão se infectando mais porque estão mais expostos e, uma vez infectados, estão morrendo mais porque seus corpos – nossos corpos – carregam o peso da falta crônica de investimento e da negligência ativa da comunidade.”

Camara Phyllis Jones

Epidemiologista, à rede de televisão americana CNN

A situação no Brasil

“As pandemias tornam mais evidentes e agravam desigualdades preexistentes, como esta, do coronavírus, demonstra”, afirmou ao Nexo Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá, direcionado para projetos em prol da igualdade racial. Moreira cita desigualdades no acesso a insumos de prevenção, informações corretas e serviços de saúde, no caso do Brasil. “Elas podem ser resumidas em um item: racismo estrutural”, resumiu.

Alguns dos fatores que contribuem para a vulnerabilidade da população negra brasileira diante do novo coronavírus podem ser encontradas no relatório “Covid-19 e desigualdade”, elaborado por Luiza Pires (Levy Economics Institute), Laura Carvalho (Universidade de São Paulo) e Laura de Lima Xavier (da escola médica da Universidade Harvard).

O estudo tem como recorte a renda e não a raça. Mas, conforme registra um levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019, dos 13,5 milhões de brasileiros vivendo em extrema pobreza, 75% são pretos ou pardos. Segundo o estudo, quanto mais pobre é a faixa da população, maior é a porcentagem negra.

As características enumeradas no trabalho incluem maior uso uso de transporte público, número maior de pessoas morando em um mesmo domicílio, falta de saneamento básico e acesso limitado a serviços de saúde. De acordo com o IBGE, 67% da população negra brasileira depende do SUS.

Por fim, há também um desafio de cumprir a demanda por isolamento social sem comprometer a renda ou o emprego, uma vez que muitos trabalham em atividades que exigem a presença física e não estão cobertas por benefícios ou direitos trabalhistas.

Segundo o IBGE, há uma proporção maior de pessoas de cor preta ou parda em ocupações informais, totalizando 47,3% das pessoas ocupadas. Em comparação, brancos nessa categoria de trabalho correspondem a 34,6% do total da população ocupada.

"A pandemia atingiu inicialmente uma população com condições muito favoráveis e foi dura mesmo neste grupo de pessoas brancas, ricas e com amplo acesso à saúde. É assustador pensar nos seus efeitos sobre a população negra, que tem péssimas condições de vida e comorbidades associadas", afirmou a assistente social Lúcia Xavier, diretora da ONG de mulheres negras Criola, à Folha de S.Paulo.

A disseminação de informações falsas agrava o quadro. “A limitação nos pacotes de dados muitas vezes permite acesso apenas a aplicativos de troca de mensagens”, de acordo com Selma Moreira, do Fundo Baobá, ao Nexo. “A questão da alfabetização também pesa, pois muita informação circula em texto e nem sempre em linguagem didática. São condições que favorecem a disseminação de fake news e dificultam o acesso a informações corretas.”

Mesmo o uso de máscaras em público, recomendação sanitária para conter a propagação do vírus, é problemática para pessoas negras. Nos EUA, diversas pessoas expressaram a preocupação de serem parados pela polícia se usarem o acessório na rua.

Em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, um estudante afirmou ter sido abordado de forma agressiva por seguranças de uma loja por estar de máscara e capuz. “Em tempos de coronavírus, a máscara para preto é um problema sério. Os seguranças querem ver a cara da gente, para onde estamos indo e o que estamos comprando”, escreveu o jovem em uma rede social.

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