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A atuação pública de Doria na pandemia em 3 momentos

Governador de São Paulo confronta presidente, ameaça prender quem sair de casa e depois fala ‘corrente de amor’ contra o novo coronavírus

    Estado com maior número de contaminações (11.043) e de mortes (778) pelo novo coronavírus, segundo dados oficiais de quarta-feira (15), São Paulo também protagoniza uma disputa política na pandemia envolvendo o governador João Doria (PSDB).

    O tucano, que associou seu nome ao de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, acabou por se tornar o principal rival do presidente em 2020, ao defender medidas restritivas de circulação, fechamento do comércio e a definição de regras para o isolamento social.

    Doria tem ao seu lado a comunidade científica, que condena a ideia de normalização do cotidiano defendida por Bolsonaro. O presidente, porém, explora as pretensões presidenciais do tucano para dizer que ele está agindo apenas de olho nas eleições de 2022.

    Doria se tornou alvo dos bolsonaristas nas redes sociais. É acusado de autoritarismo em razão das medidas que vêm tomando. E já chegou a fazer um acerto de discurso para atenuar as críticas. O Nexo lista abaixo três momentos do governador na pandemia.

    Quarentena e brigas com Bolsonaro

    Doria determinou o fechamento de shoppings, academias e outros estabelecimentos comerciais a partir de 24 de março. No mesmo dia à noite Bolsonaro estava em cadeia nacional de rádio e TV acusando os governadores de “histeria” e pedindo para a população voltar à “normalidade” sob o risco de a economia parar.

    “Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa”, disse o presidente na TV.

    No dia seguinte, as indiretas viraram confronto escancarado. Doria e Bolsonaro bateram boca numa teleconferência com governadores da região Sudeste.

    O tucano cobrou o governo federal e ameaçou entrar na Justiça contra o que chamou de confisco de equipamentos de combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus – o Ministério da Saúde centraliza a distribuição desses equipamentos no Brasil.

    O presidente respondeu de forma dura. Cobrou o tucano por ter usado o slogan “BolsoDoria” na campanha de 2018 e acusou o governador de fazer política para pavimentar sua candidatura ao Palácio do Planalto em 2022.

    Doria passou então a mandar recados quase diários a Bolsonaro. Suas entrevistas no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, servem não só para atualizar as medidas que a gestão tem tomado, mas também para rebater as orientações presidenciais.

    “Ele [Bolsonaro] não orienta corretamente a população e lamentavelmente não lidera o Brasil no combate ao coronavírus”, disse em 30 de março. No mesmo dia, o governo paulista lançou uma campanha publicitária para estimular o isolamento social. No dia 2 de abril, Bolsonaro afirmou que Doria "acabou com o comércio em São Paulo".

    Renovação da quarentena e ameaça de prisões

    Em 6 de abril, Doria anunciou a renovação da quarentena paulista até 22 de abril. Dias depois, o governador anunciou que o governo havia passado a monitorar a população por meio do sinal de aparelhos celular. E ameaçou: quem desrespeitasse a quarentena poderia "não só receber uma advertência, multa, mas também voz de prisão".

    Ainda que dura, a medida está prevista no artigo 268 do Código Penal prevê pena de detenção, de um mês a um ano, ou multa para quem “infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa”.

    Mesmo prevista em lei, policiais militares do estado de São Paulo não apoiaram a iniciativa. Em nota divulgada na segunda-feira (13), a Associação dos Oficiais, que representa a PM, chamou a ameaça de prisão de inconstitucional. “Segundo o artigo 139 da Constituição, somente com a decretação do Estado de Sítio, pelo Presidente da República, após autorização do Congresso Nacional, é que a pessoa poderá ser impedida de circular”, dizia a nota.

    Especialistas ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo afirmam que a prisão é um ato constitucional, mas improvável. Para colocar a lei em prática, Doria precisaria de um novo decreto explicando detalhadamente quais são as regras de isolamento que devem ser cumpridas.

    Por ser um crime de pena branda, os infratores seriam encaminhados à delegacia e assinariam um termo circunstanciado para responder judicialmente em liberdade. "Nenhum governante quer ter mais pessoas nos presídios agora e ninguém quer ter uma anotação criminal por representar riscos à saúde pública”, disse Davi Tangerino, professor da Escola de Direito da FGV.

    No dia de 5 abril, grupos bolsonaristas fizeram uma manifestação na capital paulista para criticar o governador. O movimento se repetiu uma semana depois, em uma carreata na capital.

    O recuo sobre as prisões e a ação educativa

    Na segunda (13), Doria recuou das ameaças de prisão de quem descumprisse a quarentena. Em tom mais ameno, o governador falou na criação de uma “corrente de amor” entre a população a fim de conter o coronavírus.

    O governo do estado busca uma adesão de 70% da população à quarentena, a partir de dados coletados dos celulares, pelos quais é possível identificar a movimentação das pessoas. Quando cogitou as prisões, o monitoramento apontava que apenas 49% dos paulistas estavam respeitando o isolamento social. Dados divulgados no domingo (12) mostraram que esse número subiu para 59%.

    "As pessoas estão respondendo positivamente, estão dando prova de amor, de compreensão à vida, delas mesmas e entes queridos. Que isso continue e possamos celebrar aqui uma corrente de amor e com isso acelerarmos o processo para ultrapassar a crise”, disse Doria na segunda-feira (13).

    Na quarta-feira (15), ele manteve o tom mais ameno e disse em entrevista coletiva que o uso da força “é a última alternativa”. “Eu não gostaria, como governador, ter que declarar que vamos ter que prender pessoas pelo fato de estarem fazendo aglomerações”, afirmou.

    Já as críticas às atitudes de Bolsonaro continuam a todo vapor. Na mesma quarta-feira (15), diante da iminente demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que assim como o tucano defende o isolamento social, o governador afirmou: “Se houver a saída do ministro e membros da sua equipe, entendo como um desastre e risco para saúde pública”.

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