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Por que o Amazonas é o 1º estado a ter um colapso na saúde

Governo federal anunciou envio de médicos, respiradores e recursos para a abertura de novos leitos no estado

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    Apenas um mês após a confirmação da primeira infecção pelo novo coronavírus em Manaus, o sistema de saúde do Amazonas entrou em colapso. Pacientes em estado grave são obrigados a esperar numa fila por uma vaga de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e há falta de médicos nos hospitais. Enquanto isso, a população descumpre as orientações de distanciamento social e de fechamento do comércio.

    Em números absolutos, o Amazonas é o quarto estado brasileiro com mais casos confirmados da doença (1.275), e o quinto em mortes (71), segundo dados do Ministério da Saúde de segunda-feira (13). Ao todo, o Brasil havia registrado, na mesma data, 23.430 casos e 1.328 mortes. O que preocupa, porém, é que o Amazonas possui a maior taxa de incidência da doença no país, com 303 casos por 1 milhão de habitantes, e a maior taxa de mortalidade, com 17 mortes por 1 milhão de habitantes.

    Devido à situação crítica, a prefeitura de Manaus inaugurou no domingo (12) um hospital de campanha com, inicialmente, 18 leitos de Unidades de Terapia Intensiva. A estimativa é que ele chegue a 150 leitos, sendo 36 de UTI.

    O Ministério da Saúde anunciou no sábado (11) o envio de médicos intensivistas de outras regiões no país para reforçar o atendimento na cidade, por meio do programa Brasil Conta Comigo. A iniciativa cadastrou profissionais de saúde para atuar em regiões de emergência por causa da pandemia do novo coronavírus.

    Segundo o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, o programa já conta com cerca de 1.000 enfermeiros e 80 médicos cadastrados que poderiam ser deslocados para trabalhar na região. Na segunda-feira (13), ele anunciou, porém, que seriam enviados sete médicos e dez enfermeiros. Eles devem chegar à capital amazonense na quinta-feira (16).

    O cenário em Manaus

    O primeiro caso de um paciente infectado pelo novo coronavírus na cidade foi confirmado em 13 de março. Tratava-se de uma mulher de 39 anos que havia viajado para Londres. Na época, o então secretário de Estado de Saúde, Rodrigo Tobias, afirmou que a rede de assistência estava preparada para atender os infectados pela doença.

    Onze dias depois, o estado registrou a primeira morte, de um empresário de 49 anos, morador de Parintins, que sofria de hipertensão. Ele foi atendido em Manaus. O Ministério Público do Amazonas chegou a recomendar à prefeitura de Parintins que determinasse toque de recolher entre as 20h e as 6h, a partir de 25 de março, por 15 dias, para tentar conter a doença.

    Em 3 de abril, o discurso do secretário estadual de Saúde já havia mudado, e ele reconhecia que o estado poderia não dar conta de atender todos os doentes. “O nosso sistema de saúde é limitado, não temos leitos de UTI suficiente para enfrentar uma pandemia. O colapso pode acontecer dependendo do aumento do número de casos”, disse Tobias. Apesar das medidas de restrição da circulação, a população continuava saindo de casa.

    No dia seguinte à fala do secretário, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), disse em sua conta no Twitter que a rede de saúde estadual havia colapsado. “O hospital principal, que é o Delphina Aziz, está absolutamente lotado de pessoas que não estão encontrando solução ali”, afirmou. Ele pediu ao governador Wilson Lima (PSC) que garantisse o funcionamento da unidade.

    O prefeito criticou o presidente Jair Bolsonaro por “desmobilizar” o combate ao vírus com suas saídas às ruas de Brasília, por servirem de mau exemplo para a população.

    “O fato é que muitas ruas de Manaus estão cheias de carros. As pessoas entram no que está aberto tentando fingir uma economia normal. Isso não ativa a economia de maneira nenhuma. Dá a impressão que reativa, mas vai causar mais doentes, um colapso do sistema de saúde e atraso na recuperação econômica”, disse.

    Em 8 de abril, o governo do Amazonas anunciou que o secretário Rodrigo Tobias, que vinha alertando para o risco de colapso, deixaria o cargo. Wilson Lima não esclareceu o motivo da troca. Doutor em saúde pública pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, Tobias comandava a pasta desde março de 2019. Ele foi substituído pela biomédica Simone Papaiz, que atuava como diretora técnica de saúde na Secretaria de Saúde do estado de São Paulo.

    Em entrevista no mesmo dia, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticou a mudança no primeiro escalão do governo amazonense. “Precisamos de pessoas que estejam habituados com a rede para que não tenha que começar tudo do zero”, disse.

    O número de leitos e respiradores

    Em 10 de abril, o governo do Amazonas informou que o hospital Delphina Aziz, referência para internação de casos graves do novo coronavírus, havia atingido sua capacidade máxima. Dos 69 leitos de UTI disponíveis, 60 estavam ocupados, e não havia equipe médica para atender os outros nove. O hospital recebeu contêineres frigoríficos para armazenar os corpos das vítimas da doença.

    Quando todos os leitos foram ocupados, formou-se uma fila com mais de 60 pacientes esperando uma vaga na UTI. O governo do estado decidiu antecipar a formatura de alunos de medicina, enfermagem e farmácia da Universidade Estadual do Amazonas para reforçar as equipes de atendimento. Decidiu ainda transferir pacientes para hospitais de campanha no Pará.

    Segundo dados publicados pelo jornal O Estado de S.Paulo, o Amazonas possui 919 leitos de UTI (na rede pública e privada) e 899 respiradores, sendo que 62 deles estavam fora de uso. A taxa do estado é de 1,24 leito desse tipo por 10 mil habitantes. Ele precisaria de ao menos 2,4 leitos pelo mesmo número de habitantes, segundo cálculo da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) com base na demanda ocorrida nos epicentros da pandemia.

    Quando ainda era secretário da Saúde do Amazonas, Rodrigo Tobias havia reconhecido, em 8 de abril, que a relação de leitos pelo número de habitantes era um "problema histórico".

    “Nós não temos leitos de UTI no interior. Quando temos um caso que precise de UTI, a gente traz o paciente de avião para cá. Até agora, a doença atingiu, principalmente, pessoas das classes A e B. Como a gente ainda está na curva ascendente, se o coronavírus pegar as classes menos favorecidas economicamente, onde há residências em que moram muitas pessoas, isso pode ser um grande problema”, disse.

    Segundo ele, o quadro poderia se agravar porque o estado faz fronteira com a Colômbia e com o Peru, além de fazer divisa com Roraima, estado vizinho à Venezuela.

    Além do envio de profissionais, o Ministério da Saúde encaminhou 20 respiradores cedidos pela Rede D'or do Rio de Janeiro para Manaus na tentativa de amenizar a falta de aparelhos. A pasta também decidiu liberar recursos para a instalação de 350 leitos extras no hospital Delphina Aziz, em andares da unidade que estavam desativados.

    O número de médicos

    O mais recente relatório “Demografia Médica no Brasil”, de 2018, coordenado pelo professor Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), mostra que o estado do Amazonas tem uma taxa de médicos por habitantes menor do que a média nacional. E eles estão concentrados na capital do estado, Manaus.

    Enquanto o Brasil tem 2,1 médicos por mil habitantes, índice próximo ao de países como Coreia do Sul (2,2) e Japão (2,4), mas bem abaixo da Itália (4,1), Espanha (4,2) e Alemanha (4,5), o Amazonas possuía em 2018 apenas 1,19 médico por mil habitantes. O estado todo tinha 4.844 médicos registrados naquele ano.

    Com uma população de 4,1 milhões de habitantes, o Amazonas tem quase metade de seus habitantes (2,2 milhões de pessoas) morando em Manaus. O problema é que 93,1% dos médicos do estado atuam na capital. Apenas 336 médicos, o que corresponde a 6,9% do total, atendiam 62 municípios espalhados por uma área de 1,57 milhão de km². O Amazonas tem apenas 1,1% dos médicos do país.

    A morte de indígenas

    A morte de indígenas também preocupa o Amazonas. Segundo o governo federal, três indígenas já morreram no país devido ao novo coronavírus. O ministro da Justiça, Sergio Moro, afirmou que as contaminações ocorreram fora das aldeias. A pasta responde pela Funai (Fundação Nacional do Índio). Apenas um deles vivia em Manaus. Os outros eram de Roraima e do Pará. Segundo o ISA (Instituto Socioambiental), nove indígenas ao todo já foram infectados pela doença no país.

    Devido ao risco de contaminação dessas comunidades, o Ministério Público Federal recomendou às autoridades medidas como a inclusão deles no grupo prioritário para a vacinação contra a gripe, a realização de testes para detectar a covid-19 e o envio de alimentos e produtos de higiene para as aldeias.

    Segundo o órgão, “há risco de propagação exponencial da doença, afetando muitos indígenas em uma mesma aldeia, o que demanda, por parte da atenção de média e alta complexidade, a oferta de leitos e aparelhos (sobretudo respiradores) em quantidade suficiente para atendimentos simultâneos”. O Ministério Público chegou a classificar o cenário como um "risco de genocídio" dos povos indígenas.

    Em 8 de abril, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que o governo tinha "extrema preocupação" com as comunidades indígenas do país, e anunciou a construção de um hospital de campanha em Manaus voltado exclusivamente ao atendimento dessas populações.

    Segundo ele, a iniciativa, que deve funcionar em um prédio cedido, terá um custo de R$ 10 milhões e capacidade para 200 leitos.

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