Como a pandemia interrompeu 10 anos de crescimento dos EUA

País cresceu por uma década consecutiva a taxas consistentes. Economia sustentada em consumo e endividamento deve ser profundamente abalada em 2020

    Os EUA são um dos principais locais atingidos pela pandemia do novo coronavírus em 2020. Na quarta-feira (8), o país registrou 2.000 mortes pela covid-19 em 24 horas. A cidade de Nova York, epicentro da epidemia no país, foi responsável por quase metade das mortes nacionais até o início de abril.

    Os poderes públicos nos EUA têm se mobilizado para tentar controlar a disseminação da doença. Medidas de restrição à circulação foram determinadas para cerca de 97% da população, com intensidade que varia de acordo com o estado. Mesmo assim, a Casa Branca projeta entre 100 mil e 240 mil mortes pelo novo coronavírus em 2020, com pico ocorrendo em meados de abril.

    A pandemia também impacta a economia americana, que vinha em uma trajetória de dez anos consecutivos de crescimento. Abaixo, o Nexo mostra como foi essa década e como a crise do coronavírus expõe as fragilidades do modelo de crescimento dos EUA.

    A década de crescimento

    Em 2008, os EUA foram o berço da maior crise financeira global desde a Grande Depressão iniciada em 1929. A ameaça de colapso de grandes bancos e o aumento do desemprego levaram o governo americano a agir, injetando dinheiro na economia e socorrendo grandes empresas.

    Na virada para a década de 2010, os EUA já haviam saído da grave recessão, e iniciaram um período de dez anos consecutivos de crescimento econômico com pouca turbulência. Entre 2010 e 2019, o PIB (Produto Interno Bruto) americano cresceu ininterruptamente, a taxas consistentes ao redor de 2% ao ano. Não só o percentual era particularmente alto como sua estabilidade era pouco comum.

    DÉCADA DE CRESCIMENTO

    Variação do PIB dos EUA. Perto de 2% ao ano de 2010 a 2019

    Os dez anos de alta também foram acompanhados por uma retomada consistente do mercado financeiro. Após atingir o ponto mais baixo da crise na virada de 2008 e 2009, a trajetória da bolsa foi de alta praticamente contínua até o início de 2020. Os principais índices da bolsa de valores americana registraram esse movimento ascendente.

    DEZ ANOS DE ALTA

    Evolução do índice Dow Jones. Alta contínua 2009 ao começo de 2020

    O gráfico acima mostra o desempenho do índice financeiro Dow Jones Industrial, que acompanha as 30 maiores corporações americanas, na década de 2010. A tendência foi de alta praticamente ininterrupta por 11 anos, acompanhando o curso do restante da economia americana.

    O papel do consumo

    O crescimento contínuo da economia americana na década de 2010 teve como principal componente o consumo das famílias. Isso significa que a maior parte da economia foi e é movida pelo que os americanos compram.

    Nos últimos anos da década de 2019, esse protagonismo do consumo na economia se consolidou. Cerca de 70% do PIB americano vem da demanda das famílias – um abalo no consumo, como o que se observa no primeiro semestre de 2020, pode ter efeitos graves sobre a economia dos EUA.

    CONSUMO PRIVADO PROTAGONISTA

    Componentes do PIB americano no último trimestre de 2019. Consumo em cerca de 70%. Governo e investimento pouco abaixo de 20%, exportações líquidas (diferença entre exportações e importações) negativas.

    A questão do crédito

    Boa parte desse consumo das famílias foi bancado com empréstimos. As famílias contraíam crédito para poder pagar as contas do dia a dia, e a dívida total aumentava progressivamente.

    Essa dívida podia assumir diferentes formas. Podia vir do cartão de crédito, de empréstimos imobiliários, de empréstimos estudantis, de crédito para comprar um carro etc.

    Isso levou o crédito ligado ao consumo nos EUA ao seu maior nível na história, mesmo ajustado pela inflação: US$ 4 trilhões ao todo em 2019, sem contar dívidas imobiliárias. Pela cotação de 9 de abril de 2020, esse valor equivale a R$ 20,85 trilhões.

    O aumento da dívida ajudou as famílias americanas a manterem o consumo em alta. Mas a crise econômica decorrente da pandemia do novo coronavírus mostrou como as famílias ficaram expostas financeiramente com esse endividamento.

    O crescimento do emprego

    Outro fator que ajuda a explicar o protagonismo do consumo na década de 2010 nos EUA é o baixo desemprego. Os níveis de desocupação atingidos no final de 2019 foram os menores em 50 anos – desde o final da década de 1960.

    DESEMPREGO EM BAIXA NA DÉCADA DE 2010

    Evolução da taxa de desemprego nos EUA. Em queda durante toda a década de 2010

    O aumento no número de vagas de trabalho não significou necessariamente uma melhora nas condições de emprego. Apesar da alta na taxa de ocupação, os salários não cresceram muito, nem os benefícios.

    Um grupo de economistas e pesquisadores americanos criou um índice para tentar medir a qualidade do emprego no país, levando em conta fatores como salário e horas trabalhadas. O índice mostrou que a qualidade do emprego no final da década de 2010 era baixa, sendo comparável apenas com o começo de 2012, quando o mercado de trabalho ainda sentia os efeitos da crise de 2008. Os pesquisadores também estimaram que a fragilidade de postos de trabalho nos EUA deixa cerca de 37 milhões de trabalhadores americanos sob o risco de demissão imediata em meio à pandemia. A maioria desses postos são de baixa remuneração.

    Os trabalhadores e a saúde

    Em termos de benefícios, o mercado de trabalho americano é marcado por uma flexibilidade alta. Não há garantia do direito à falta remunerada por motivos de doença, e o seguro de saúde provido pela empresa também é opcional.

    Dados do Departamento de Estatísticas de Trabalho dos EUA (Bureau of Labor Statistics) mostram que há 80,4 milhões de pessoas que ganham por hora no país, mais da metade do mercado de trabalho. Essas pessoas não têm o direito garantido à falta remunerada em caso de doença.

    Esses fatores começam a pesar nos tempos de pandemia. Há ainda o agravante de que não há, nos EUA, um sistema público de saúde de ampla abrangência.

    O impacto da pandemia no emprego

    A pandemia do novo coronavírus atingiu os pontos frágeis do mercado de trabalho americano. Assim como no Brasil, a orientação de isolamento social – que nos EUA também não foi coordenada pelo governo federal, e sim pelos estados – impactou as receitas das empresas de todos os portes. Com empregos de baixa qualidade e dezenas de milhões de trabalhadores expostos a demissões no curto prazo, isso levou a um recorde de empregos perdidos.

    Ainda não há dados consolidados da nova taxa de desemprego nos EUA. Mas os números dos novos pedidos semanais por auxílio-desemprego revelam um movimento sem precedentes no mercado de trabalho americano.

    Entre as duas últimas semanas de março e a primeira de abril de 2020, 16,8 milhões de pessoas tentaram obter o benefício. Ao todo, pouco mais de 10% da força de trabalho ocupada dos EUA pode ter perdido o emprego.

    O SEGURO-DESEMPREGO

    Novos pedidos semanais por auxílio-desemprego nos EUA desde 2019. Um pouco acima de 200 mil por semana até o final de março de 2020. Últimas três semanas (duas finais de março mais a primeira de abril) em níveis muito superiores.

    O gráfico acima mostra como em apenas três semanas o número de pedidos por auxílio-desemprego aumentou a níveis muito superiores aos observados desde o início de 2019. Mas, mesmo considerando um recorte temporal mais amplo, os números do final de março e começo de abril de 2020 seguem muito mais altos de qualquer outro.

    Olhando desde a crise financeira de 2008, fica claro como a crise pandêmica de 2020 tem um impacto diferente sobre o emprego. Durante o período da crise financeira do final da década de 2000, o maior número de pedidos por seguro-desemprego foi na última semana de março de 2009: cerca de 665 mil pedidos novos foram feitos. Exatamente onze anos depois, esse número foi mais de dez vezes maior.

    NA DÉCADA

    Novos pedidos semanais por auxílio-desemprego nos EUA desde 2008. Durante a crise de 2008, ultrapassou 600 mil por semana, mas passou longe de 1 milhão. Em 2020, recorde é 6,9 milhões em uma semana.

    A perspectiva para 2020

    O aumento do desemprego irá levar a uma diminuição na renda das famílias americanas. Como consequência, o consumo deverá cair, abalando o principal pilar da economia dos EUA. Além disso, as famílias endividadas podem simplesmente não ter condições de pagar seus empréstimos, possivelmente quebrando e pressionando o sistema financeiro do país.

    Diante desse cenário, a perspectiva de economistas é que os EUA entrem em uma grave recessão em 2020. As projeções do tamanho da queda variam muito. Mas já não há dúvidas de que a economia americana irá encolher em 2020, em comparação ao ano anterior.

    O primeiro ano da terceira década do século 21, portanto, irá quebrar a sequência de dez anos de crescimento estável da economia dos EUA.

    As reações do governo

    O governo americano tem se mobilizado para dar suporte aos mais afetados pela crise. O Congresso aprovou um pacote trilionário com medidas de apoio à saúde, auxílio de renda para as famílias e socorro para pequenas e grandes empresas. Ao todo, as medidas somam pouco mais de US$ 2 trilhões – R$ 10,15 trilhões à cotação de 9 de abril de 2020.

    O dinheiro será usado para atenuar as quedas no consumo das famílias e ajudar as empresas a se manterem abertas durante a crise, com incentivos para manutenção de emprego. Os canais de ação vão desde a ampliação dos benefícios de seguro-desemprego até criação de fundos bilionários de crédito para as empresas americanas. O Federal Reserve, o Banco Central Americano, ainda se movimenta para colocar mais US$ 2,3 trilhões (R$ 11,7 trilhões pela cotação de 9 de abril) à disposição das empresas e governos locais na forma de crédito.

    Além da crise econômica e de saúde, os EUA ainda terão de passar em 2020 por uma eleição presidencial. O presidente republicano Donald Trump, eleito em 2016, enfrentará o democrata Joe Biden, que foi vice de Barack Obama (2009-2017) e superou Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata.

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