Como a pandemia afeta a produção científica no Brasil

O ‘Nexo’ conversou com pesquisadores de três universidades públicas sobre o trabalho de cientistas diante da covid-19

    A pandemia do novo coronavírus, que causa a síndrome respiratória chamada de covid-19, tem sido marcada pela rápida disseminação do vírus, o aumento de doentes e mortos e a pressão sobre os sistemas de saúde em todo o mundo. A crise, que extrapola os problemas sanitários, também abalou a economia e redefiniu prioridades de governantes.

    Ainda pouco conhecido, o novo coronavírus virou objeto de análise de cientistas de diversos países, que tentam entender as características da covid-19, como ela se espalha de forma tão voraz e qual o possível tratamento para a doença, que segue sem vacina nem cura. As pesquisas que surgiram também buscam dar suporte para hospitais.

    Após o decreto da pandemia pela OMS (Organização Mundial da Saúde), em março, diversas universidades brasileiras mudaram a rotina. Atividades presenciais foram interrompidas com a recomendação de distanciamento social em estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, pesquisadores se uniram para estudar a covid-19.

    O Nexo conversou sobre o tema com Helder Nakaya, professor na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo), Marcelo Mori, biomédico e coordenador de um grupo de trabalho contra a covid-19 na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e Roberto Medronho, professor de epidemiologia e coordenador de grupo contra a covid-19 na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O que mudou nas universidades

    A pandemia levou à criação das chamadas forças-tarefas (ou seja, grandes grupos de trabalho) em universidades em todo o país. A ideia das iniciativas é reunir profissionais de diferentes áreas para entender a doença, analisar seus impactos no Brasil e ajudar o sistema de saúde, que deve ficar sobrecarregado com o avanço do número de infectados.

    Muitas vezes por iniciativa própria, pesquisadores interromperam os estudos que vinham fazendo para contribuir para os estudos sobre a covid-19. Além da força de trabalho, as universidades realocaram recursos e equipamentos para essas forças-tarefas, em um movimento marcado pela solidariedade e a colaboração entre diferentes áreas.

    “Vi vários laboratórios se mobilizando. Quem tinha projetos em epidemiologia se voltou a estudar. As engenharias começaram a produzir equipamentos para hospitais e pensar softwares. Na biologia molecular, forneceram reagentes para testes da covid-19. Se as pessoas não podem ajudar com a expertise, elas doam sua força de trabalho, equipamentos e o que podem para poder contribuir”

    Helder Nakaya

    professor e pesquisador na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em entrevista ao Nexo

    A Unicamp, por exemplo, fundou a força-tarefa a partir de um projeto que buscava ceder laboratórios para ajudar o hospital universitário a diagnosticar casos de covid-19. A iniciativa logo se ampliou e abrigou outras linhas de trabalho, depois de receber doações de equipamentos e inscrições de mais de 400 voluntários, disse Marcelo Mori ao Nexo.

    A UFRJ mobilizou cientistas da área da saúde e de engenharia, economia e ciências humanas para enfrentar a covid-19, disse Roberto Medronho. “Isso demonstra o vigor da universidade durante a crise”, afirmou ao Nexo. Os laboratórios de química estão produzindo álcool em gel, os engenheiros estão fabricando respiradores e quem trabalha com inteligência artificial vem monitorando o avanço do vírus.

    Ao Nexo Nakaya contou que seu laboratório criou novas linhas de trabalho sobre o coronavírus. Como é um laboratório de bioinformática (análise de dados biológicos usando computadores), os focos dos estudos são dados da covid-19 no Brasil, do sistema de saúde e de remédios que podem ser testados para a doença, por exemplo.

    “Entre as pessoas que conheço, o foco está em se unir e tentar ajudar. Agora, diferentemente de um momento normal, em que você esconde os dados até publicar o artigo, você já [os] deixa no repositório. Já recebe as críticas das pessoas, já melhora o projeto, vê se ele pode mesmo ser usado. Pesquisadores do mundo inteiro estão fazendo isso”

    Helder Nakaya

    professor e pesquisador na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em entrevista ao Nexo

    Iniciativas como essas se repetem em todo o país. A USP tenta uma desenvolver vacina para a covid-19 e isolou o vírus em laboratório para aprimorar o diagnóstico. A UFMG, em Minas Gerais, também vem desenvolvendo testes para a doença. A UFRN, no Rio Grande do Norte, fez um manual para atender a pessoas infectadas que chegam aos hospitais, e a UnB trabalha ao lado do governo distrital em Brasília.

    Após a pandemia, o Ministério da Ciência criou a chamada RedeVírus, um comitê de especialistas, representantes de governo, agências de fomento à pesquisa, centros de pesquisa e universidades para integrar as iniciativas de combate à covid-19 e a outras viroses emergentes. A ideia é discutir o desenvolvimento de diagnósticos, tratamentos, vacinas e todo tipo de produção de conhecimento sobre o novo coronavírus.

    Como a pesquisa funciona no isolamento

    A partir da metade de março, a maior parte dos alunos, professores e pesquisadores das instituições públicas começou a trabalhar longe dos laboratórios e da universidade, em respeito às recomendações de distanciamento social que têm sido adotadas na maioria dos estados para reduzir a velocidade de contágio do novo coronavírus.

    A mudança teve grande impacto nas atividades práticas de pesquisa, que agora estão paradas, segundo Mori. Medronho deu exemplos de tipos de estudos prejudicados, como testes clínicos com voluntários (que não podem mais sair de casa) e pesquisas de campo nas ciências humanas que envolvem saídas e entrevistas com a população.

    “As universidades também estão pagando seu preço [pela crise]. Mas todos nós [na UFRJ] consideramos que esse sacrifício vale a pena, porque agora nós estamos preocupados em salvar vidas”

    Roberto Medronho

    professor titular de epidemiologia da UFRJ e coordenador do grupo para o enfrentamento da covid-19 na universidade, em entrevista ao Nexo

    De casa, alguns pesquisadores conseguem realizar tarefas possíveis de fazer longe das ruas ou do laboratório, como analisar dados no computador, escrever e revisar artigos, ler estudos e fazer reuniões usando aplicativos de videoconferência. Ao Nexo Nakaya disse que, como trabalha com bioinformática, seu trabalho continua ativo.

    Do outro lado, alguns seguem indo à universidade. Estão entre eles médicos e enfermeiros dos hospitais universitários e pesquisadores cujo trabalho exige presença constante em laboratório (como quem trabalha em biotério, observando animais). “Às vezes, não ir à universidade [agora] representa anos de perda de pesquisa”, afirmou Medronho.

    Além deles, estão os cientistas que se juntaram aos esforços de fazer trabalhos relacionados à covid-19 e relatam trabalhar dia e noite nos institutos de pesquisa. É nos laboratórios que fazem álcool em gel, fabricam materiais para hospitais e testam as amostras com o vírus. Quem tem saído adota medidas especiais para não se contaminar.

    O que mudou no financiamento da pesquisa

    Após o anúncio da pandemia, as agências de fomento à ciência adotaram medidas contraditórias na hora de decidir como pagar os pesquisadores. Ao mesmo tempo em que, em alguns casos, cientistas ganharam acesso a novos recursos e tiveram suas bolsas prorrogadas no período da crise, outros correm risco de perder o auxílio.

    A Capes, agência vinculada ao Ministério da Educação para financiar bolsas de pós-graduação, abriu chamada para um programa de 2.600 bolsas e R$ 200 milhões para cientistas que querem estudar epidemias. As pasta da Saúde e da Ciência planejam investir outros R$ 20 milhões em pesquisa sobre o coronavírus. Em medida provisória, o governo do país liberou mais R$ 100 milhões para a Ciência financiar estudos.

    Quem financia a pesquisa no Brasil

    • agências federais, como Capes e CNPq
    • fundações estaduais, como Fapesp e Fapemg
    • outras fontes, como empresas, instituições e doadores

    Antes de adotar as medidas, as agências do governo federal receberam críticas. Após o decreto da pandemia, em março, a Capes alterou regras para concessão de bolsas de pesquisa, em medida que levaria a cortes, segundo representantes das universidades. O órgão negou, defendendo a mudança. Mais tarde, a medida levou, de fato, ao fim de 6.000 bolsas no país. A Capes disse que se tratou de erro e restituiu os auxílios.

    Ainda em março, o Ministério da Ciência publicou uma portaria em que excluiu a ciência básica e as ciências humanas das prioridades dos projetos de pesquisa do CNPq, agência de fomento da pasta. A ideia, segundo o texto, é que o órgão dê mais espaços aos estudos na área de tecnologia, considerada importante para o desenvolvimento do país.

    Ao Nexo Nakaya disse que seu laboratório está bem financiado, pois os recursos vêm de fontes diversificadas. Mori afirmou o mesmo sobre a Unicamp, destacando que acredita que o financiamento não deve ser um problema para quem está fazendo pesquisa voltada à covid-19. Eles mencionaram o auxílio da Fapesp, agência de fomento de São Paulo, que por causa da pandemia prorrogou o prazo de vigência das bolsas.

    Medronho, da UFRJ, disse que há pesquisadores usando recursos de outros projetos e os direcionando aos trabalhos sobre o coronavírus. “A Faperj é compreensiva quanto a isso”, disse sobre a agência do Rio. Apesar disso, diz que vê muitos cientistas que estão indo ao laboratório de graça, pois já não tinham bolsa nenhuma, no contexto dos cortes para verba de pesquisa que universidades acompanham desde 2014.

    25 mil

    bolsas foram cortadas no CNPq entre 2014 e 2019, segundo dados do governo federal; investimento caiu de R$ 2,5 bilhões para R$ 1,1 bilhão

    Medronho diz que a redução dos recursos para pesquisa é inadmissível, pois o orçamento da ciência no país é muito pequeno se comparado com os benefícios que ela traz. “Não vamos esmorecer”, disse. “Mesmo com os cortes, continuaremos a fazer pesquisa. Assim como o médico não abandona o paciente, o pesquisador não abandona sua pesquisa.”

    Nakaya afirmou que a pandemia mostra a importância do investimento contínuo na pesquisa. “A maioria do que sabemos sobre o coronavírus veio por causa das pesquisas sobre a Sars [outro tipo de coronavírus]”, disse. “Não partimos do zero. E sabemos muito sobre Sars porque, anos atrás, houve investimento em ciência para entender esse vírus.”

    Mori disse o mesmo. “A resposta que os cientistas estão dando neste momento [da pandemia] só é possível porque houve preparação prévia, com pesquisa, ciência e educação sólidas”, disse. “A Unicamp consegue dar retorno rápido porque tem um parque de equipamentos que anos atrás foi financiado por agências de fomento”, exemplificou.

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