Qual o papel que a China assume em meio à pandemia

Após superar primeira onda de contaminações pelo novo coronavírus, país asiático ganha protagonismo e é disputado como parceiro

    Ainda em janeiro, no início da pandemia que varreria o mundo todo deixando mais de 1 milhão de pessoas contaminadas, a China era vista como um foco de problema e preocupação. Passados três meses, o país, comandado por regime autoritário comunista, passou a figurar como modelo para muitas das estratégias empregadas no combate ao coronavírus e também como provedor de insumos médicos indispensáveis.

    A mudança de status abriu uma janela inesperada de projeção do poder chinês. O fato de o país estar em recuperação quando as demais potências ainda estavam afundando na crise sanitária, facilitou esse processo. Os chineses passaram a ser disputados como parceiros. Equipes médicas foram enviadas por Pequim a países como Itália e Irã, e é possível que o país ainda venha a desempenhar um papel influente na etapa seguinte, de retomada de atividade da economia mundial.

    Essa projeção chinesa não ocorreu, no entanto, sem questionamentos, e nenhum governo do mundo deixou sua contrariedade tão clara quanto o governo brasileiro. Em pelo menos duas ocasiões, pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro entraram em atrito com representantes do governo chinês pelo Twitter. Pouco antes, o presidente americano, Donald Trump, havia se referido ao coronavírus como um “vírus chinês”, atraindo acusações de xenofobia.

    O Nexo entrevistou dois especialistas em relações internacionais que acompanham de perto a política externa chinesa. As entrevistas foram feitas na terça-feira (7), por escrito, com:

    • Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e comparada da UFMG. Integrou o comitê coordenador do Centro de Estudos da Ásia Oriental, na UFMG, entre 2013 e 2018.
    • Oliver Stuenkel, Professor de relações internacionais da FGV em São Paulo e autor do livro “O Mundo Pós-Ocidental: Potências Emergentes e a Nova Ordem Global”

    Que China emerge da pandemia?

    Dawisson Belém Lopes Uma China fortalecida, com aparência de potência global, domesticamente coesa, capaz de ditar os protocolos técnico-sanitários e liderar a retomada econômica no mundo pós-coronavírus. A capacidade de mobilização rápida de recursos – humanos, tecnológicos, financeiros, médico-hospitalares – para conter o alastramento da epidemia pelo território chinês foi uma das mais espetaculares operações de logística a que assistimos nos últimos muitos anos.

    Oliver Stuenkel Levará tempo para se poder avaliar como a pandemia afetará cada país, sobretudo porque não podemos descartar uma segunda ou terceira onda do novo coronavírus ao longo dos próximos meses ou anos. Porém, muito indica que o impacto econômico da pandemia será menor na China do que na maioria dos países ao redor do mundo. Uma contração da economia chinesa em 2020 certamente é possível – e representa um grande desafio para a população, acostumada com altíssimas taxas de crescimento –, mas acredito que o estrago nos EUA será muito maior.

    Democracias liberais adotaram políticas restritivas que antes só eram adotadas em regimes fechados como o da China, como o confinamento e o monitoramento de sinal de celular. De que maneira isso afetará o juízo de valor que o Ocidente faz do modo chinês de governar daqui para frente?

    Dawisson Belém Lopes De fato, muitas das táticas operacionais que fazem sentido em ambientes com deficit de democracia – democracia liberal, na acepção que nós, no Ocidente, nos habituamos a praticar – tornam-se problemáticas na Europa ou nas Américas. Mesmo as democracias da Ásia Oriental – Japão, Coreia do Sul, Taiwan – trazem consigo concepções de direitos civis que não são rigorosamente as mesmas de Espanha, Itália ou Estados Unidos. Não obstante, as restrições severas à mobilidade das pessoas, inicialmente percebidas como atentatórias e até ultrajantes, foram rapidamente normalizadas pelos governos de países mais duramente acometidos pela pandemia de covid-19. É sintomático que no Brasil, em abril de 2020, 76% da população apoie o confinamento domiciliar durante a emergência de saúde pública.

    Criticada por fazer lembrar as quarentenas da Idade Média, a selagem da província de Hubei [região chinesa onde o surto do coronaívurs começou], com aproximadamente 60 milhões de habitantes, chegou a ser tratada em importantes meios de imprensa ocidental – por exemplo, numa matéria do New York Times – como um genocídio programado para salvar o resto da população, hoje estimada em 1,4 bilhão de pessoas. Muito ao contrário, essa intervenção massiva do poder público chinês mostrou-se decisiva para não deixar o vírus espalhar-se e, assim, impedir que a escala do problema se tornasse ingerenciável. Pequim deu uma lição de governança em saúde pública, que aos poucos foi sendo assimilada pelos demais países do mundo. Os protocolos que integram as estratégias nacionais de enfrentamento da pandemia têm nítidas digitais chinesas.

    Oliver Stuenkel O governo chinês cometeu erros no início da pandemia, e é bastante provável que Pequim não tenha sido totalmente transparente em relação ao número de vítimas. Mesmo assim, o país foi capaz de consertar muitos dos seus erros iniciais e já parece ter superado a primeira onda da pandemia. Sua estratégia tem sido melhor do que a de várias democracias, mas a resposta bem-sucedida da Coreia do Sul mostra que democracias também têm como responder à altura a este tipo de desafio.

    É verdade que a população coreana se preocupa menos com a privacidade do indivíduo do que pessoas na Europa – o parlamento alemão rejeitou, por exemplo, uma proposta do ministro de Saúde que envolvia o monitoramento de sinal de celular, como ocorre na Coreia do Sul. Cada país terá que fazer suas próprias escolhas nesse difícil compromisso entre saúde pública e privacidade, levando as preferências da população em consideração.

    Como o atual protagonismo chinês deve impactar na liderança tradicionalmente exercida pelos EUA?

    Dawisson Belém Lopes Os Estados Unidos ainda detêm a maior economia do mundo (mensurada em dólar americano), o maior parque científico e universitário, o maior poderio militar do mundo. Especialmente os dois últimos elementos – capacidade intelectual e militar – são difíceis de construir, requerem muito tempo e investimento. Pequim, porém, já está nos calcanhares de Washington. A economia de China, hoje, já é maior que a dos Estados Unidos, em paridade de poder de compra; as universidade chinesas já começaram a integrar o seleto rol das cem melhores do mundo; a produção científica dos chineses já é maior, em número de documentos, do que a dos estadunidenses; e os investimentos em defesa nacional são massivos e crescentes. Mais importante: a China vem apostando em outras plataformas de poder, como as tecnologias cibernéticas (internet das coisas, 5G), aeroespaciais e pós-humanas (inteligência artificial, robótica). Há quem aponte – como Fareed Zakaria [jornalista e analista político nos EUA] – que esse é o maior desafio à liderança global dos Estados Unidos ao longo de toda a história.

    Oliver Stuenkel A decisão do governo chinês de doar equipamento médico em grandes quantidades a países ao redor do mundo – não apenas a países em desenvolvimento, mas também desenvolvidos –, bem como sua capacidade de aumentar a produção de máscaras e ventiladores em meio à pandemia, é prova da grande ambição chinesa de preencher o vácuo de poder global deixado por Washington.

    Veremos o mesmo depois da pandemia. Será Pequim, e não os EUA, a principal fonte de financiamento para ajudar outros países a superar a recessão global que virá. O coronavírus não marca uma virada, mas acelera uma tendência que já existe há bastante tempo. A comunidade internacional já não olha para Washington para resolver seus problemas, e o governo chinês sabe que outros países só aceitarão a liderança global chinesa se Pequim tiver condições de oferecer bens públicos globais. A pandemia mostra de maneira mais nítida que já acabou a época da liderança americana.

    Pessoas importantes no governo brasileiro assumiram uma posição de antagonismo com o governo chinês. Que efeitos isso pode provocar no curto e no longo prazo?

    Dawisson Belém Lopes Tendo a achar que a China, dentro da tradição de pragmatismo encarnada por Deng Xiaoping, não se comove com manifestações depreciativas de atores políticos como Eduardo Bolsonaro [deputado e filho do presidente Jair Bolsonaro] ou Abraham Weintraub [ministro da Educação brasileiro]. Suas falas e seus gestos não têm tanta importância per se. Trata-se, a rigor, de figuras sem relevância internacional, cujas palavras não têm peso. Nas recentes tomadas de posição das autoridades diplomáticas e consulares chinesas no Brasil, percebo um quê de ornamentalismo e um ânimo de contenção. É um “basta!”, uma sinalização de que Pequim não mais tolerará do governo brasileiro gestos de hostilidade dos seus representantes. Como se diz popularmente, “riscou-se o chão”. Isso parece se coadunar com a intenção chinesa de construir para si uma imagem global positiva, de liderança generosa, magnânima. Por outro lado, e ainda dentro da peculiar objetividade chinesa, há negócios a conduzir. O território brasileiro continuará sendo um celeiro importante de proteína e reservatório de minérios, ao passo que as compras chinesas seguirão sendo fundamentais para o fechamento das contas nacionais brasileiras.

    Oliver Stuenkel A postura anti-China de algumas pessoas importantes no governo brasileiro faz parte de uma onda de sinofobia, que de certa maneira era previsível e não necessariamente tem a ver com a China em si. Ao longo da história, grandes potências sempre têm gerado resistência e desconfiança ao redor do mundo. Seu poder assusta, e essas grandes potências servem como bode expiatório para políticos que buscam alguém que possam culpar por problemas internos, mesmo quando não há lógica na acusação.

    Do mesmo jeito que políticos latino-americanos usaram a retórica anti-americana com frequência ao longo das últimas décadas, agora é a vez da China, e o discurso anti-China veio para ficar. Não é uma invenção do bolsonarismo; Bolsonaro apenas foi o primeiro a copiar o que acontece ao redor do mundo há anos, onde nacionalistas se elegeram com frequência atacando a China. Trump fez o mesmo. Pessoalmente, eles não têm nada contra a China, mas sabem que precisam de um inimigo poderoso para mobilizar seus seguidores.

    A resposta dura dos diplomatas chineses no Brasil também não deve surpreender e faz parte de uma nova tendência de uma China muito confiante e também um pouco arrogante, empoderada pela atuação confusa dos EUA. Ciente de que o Brasil depende da China neste momento – inclusive para o envio de equipamentos médicos – ela utilizará o caso para negociar vantagens importantes em outras áreas da relação bilateral, como por exemplo as regras do leilão da rede 5G, na qual a Huawei terá um papel chave. A China aceitará as desculpas do presidente Bolsonaro, mas saberá aproveitar do momento.

    É claro o protagonismo do governo chinês nas relações internacionais, mas nós não vemos tão claramente a vivacidade da sociedade chinesa, de suas universidades, seus artistas, enfim, dos elementos de soft power. Isso é algo que pode começar a mudar a partir de agora? Ou os chineses não se preocupam com esses elementos de projeção cultural?

    Dawisson Belém Lopes Ouso discordar do pressuposto em que se assenta a pergunta. Há grande investimento, por parte do Hanban (órgão cultural do governo chinês), em fazer o “poder brando” (soft power) chinês alcançar os quatro quadrantes. As estratégias são variadas e passam, de maneira importante, pela máquina dos Institutos Confúcio – hoje existem centenas deles ao redor do mundo – e a ideia de que o mandarim deve tornar-se uma segunda língua franca global, juntamente com o inglês.

    Universidades como Tsinghua, Peking, Jiao Tong e Fudan nada devem às melhores do Ocidente. A cultura sínica é percebida como veículo para a projeção de poder de Pequim e, com toda segurança, os recursos destinados para esse fim deverão aumentar nos próximos anos. Não é gratuito ou ingênuo, neste momento da pandemia, o movimento chinês de enviar equipes médicas inteiras para Itália e Irã, o aceno aos Estados Unidos com provisão de respiradores, a chamada “diplomacia das máscaras”, com doação de equipamentos de proteção individual para hospitais e profissionais de sa��de no mundo todo. Por trás dessas ações, há uma noção muita clara de construção de imagem do “líder benevolente”. Isso é soft power, ora.

    Oliver Stuenkel Consciente das grandes limitações que seu sistema político autoritário impõe na tentativa de acumular soft power – por exemplo, a ausência da liberdade de expressão, censura contra acadêmicos etc – o governo chinês está optando por uma outra estratégia do que a dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial.

    Qualquer político chinês sabe que nem daqui a duas ou três décadas, jovens americanos ou brasileiros querem viver o “Sonho Chinês” – não apenas porque o sistema é pouco atraente, mas também porque a China ainda é um país em desenvolvimento. Em vez disso, o governo de Pequim decidiu prover cada vez mais bens públicos. Por exemplo, a China envia um número grande de soldados para missões de paz da ONU – atualmente, há mais soldados chineses em missões do que soldados de todos os outros membros permanentes do Conselho de Segurança juntos.

    Também é o maior investidor em tecnologias verdes, e já se tornou o principal parceiro comercial de um número cada vez maior de países ao redor do mundo. Além disso, constrói estradas, portos e estádios de futebol em países em desenvolvimento. O foco do soft power chinês não é o mundo desenvolvido – sabe que lá não atrairá muita simpatia por enquanto –, mas no mundo em desenvolvimento, sua estratégia é muito mais sofisticada do que parece à primeira vista.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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