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A perda de influência de Bolsonaro nas redes sociais

Plataformas como o Twitter têm sido tomadas por postagens negativas ao presidente em relação ao combate ao coronavírus, em quantidade superior às disseminadas por sua base de apoiadores

    Em meio à crise causada pelo novo coronavírus no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro perdeu, pelo menos por um período, seu alcance nas redes sociais. O modo como tem lidado com os riscos da doença geraram um turbilhão de publicações negativas ao governo a ponto de ofuscar a outrora predominante base bolsonarista na internet.

    Com pouco tempo de TV durante a campanha eleitoral de 2018, as redes sociais foram fundamentais para que ele pudesse se eleger. Depois da posse, exaltou as “novas tecnologias” por permitirem uma “relação direta entre o eleitor e seus representantes”.

    Como presidente, Bolsonaro passou a fazer transmissões ao vivo às quintas-feiras pelo Facebook e continuou usando sua conta no Twitter, onde possui uma expressiva base de apoiadores, para se comunicar com seus eleitores.

    No terceiro mês de seu governo, a startup Arquimedes identificou um padrão nas decisões do presidente em relação ao sentimento das redes sociais. Quando um tema era mal recebido por sua base de apoio, Bolsonaro recuava de uma decisão, o que indicava que plataformas como o Twitter e o Facebook eram usadas como uma bússola.

    Ele exigiu, por exemplo, que o ministro da Justiça, Sergio Moro, retirasse a indicação da cientista política Ilona Szabó para o cargo de suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária devido à reação bolsonarista nas redes. A desistência de fundir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente e o recuo no anúncio de transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém seguiram o mesmo padrão.

    Essa tomada de ação com base nas redes sociais passou até a ser usada em cálculos políticos em Brasília. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), por exemplo, disse na terça-feira (7) que tinha certeza de que Bolsonaro não demitiria o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, como foi cogitado na segunda-feira (6).

    Mandetta desagradou o presidente por, entre outras medidas, defender o isolamento social. Mas sua gestão na pasta em relação ao novo coronavírus tornou-se popular, com aprovação de 76% segundo o Datafolha. No dia em que o presidente cogitou sua demissão, a defesa de sua permanência mobilizou 60% das discussões nas redes sociais. “A decisão de manter Mandetta não foi política, Bolsonaro ouve mais as redes sociais do que o Congresso”, disse Maia.

    A queda na influência digital

    Segundo a consultoria Bites, o presidente começou a perder alcance nas redes sociais no segundo trimestre de 2019, por uma acomodação natural de sua base e pela restrição do apoio a grupos mais fiéis. Mesmo assim, mantinha-se como a maior influência política digital.

    Desde que a pandemia causou uma crise com contornos políticos, porém, o presidente vem perdendo substancialmente espaço nas redes sociais, segundo análises do engajamento de suas publicações e dos grupos que o apoiam. Elas levam em conta as curtidas e os compartilhamento das publicações no Twitter.

    O primeiro caso de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, foi identificado no Brasil em 25 de fevereiro. Já a primeira morte ocorreu em 17 de março.

    Bolsonaro, que desde o início minimizou a gravidade da pandemia e chegou a participar de um ato público contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal em 15 de março, contrariando recomendações do próprio Ministério da Saúde para evitar aglomerações, reuniu seus ministros em 18 de março, dia seguinte ao registro da primeira morte, para anunciar medidas contra a doença. Toda a equipe apareceu usando máscaras.

    Naquele dia, segundo dados da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV (Fundação Getulio Vargas), Bolsonaro já tinha perdido espaço nas discussões pautadas pela covid-19. Em 2 de março, as interações dos bolsonaristas em publicações sobre coronavírus representavam 12% do total. Em 18 de março, haviam caído para 8,5%. No mesmo período, as interações de perfis de oposição pularam de 16,4% para 18,2%.

    15.927

    casos de covid-19 foram registrados no Brasil até a quarta-feira (8), segundo o Ministério da Saúde

    800

    era o número de mortes pela doença na mesma data, de acordo com o órgão

    Entrevista no Ratinho

    Dias depois, em 20 de março, Bolsonaro concedeu uma entrevista ao apresentador Ratinho, do SBT, na tentativa de melhorar sua imagem. Mas uma medição feita pelo Sistema Analítico Bites mostrou que o presidente não obteve sucesso em tentar criar uma onda de propagação de seus posts.

    Dois fatos negativos foram os principais responsáveis por derrubar sua estratégia. Enquanto a entrevista gerou 11 mil posts, o termo "gripezinha", usado por ele para se referir ao novo coronavírus, foi responsável por 46.732 tuítes nas horas seguintes ao programa. Sua recusa em mostrar os resultados de seus exames para a covid-19 foi tema de outras 83.753 publicações. Ao todo, cinco posts negativos ao presidente nas redes sociais criaram 1 milhão de interações, soterrando as publicações feitas pelos bolsonaristas.

    "A rede de aliados digitais do presidente sempre conseguiu ofuscar os seus críticos. Agora, ainda que ela se empenhe em atacar a imprensa e jornalistas, o movimento contrário está mais forte", afirmou o diretor da Bites, Manoel Fernandes, ao site UOL.

    O pronunciamento sobre a 'gripezinha'

    Em 24 de março, o presidente fez um pronunciamento em rede nacional em que chamava, novamente, a covid-19 de "gripezinha" ou "resfriadinho". Ele também defendia o fim do "confinamento em massa" e a volta à normalidade das escolas e do comércio no país, embora as recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e do próprio Ministério da Saúde fossem pela manutenção do isolamento social como a melhor forma de combater a doença.

    Um estudo publicado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV sobre as reações ao pronunciamento nas redes sociais apontou o isolamento de grupos bolsonaristas nas discussões no Twitter. Apenas de 6% a 8% das interações na rede social partiram desses grupos. A pesquisa observou uma união entre perfis de esquerda e de pessoas não alinhados ao presidente em torno de publicações informativas e factuais. A hashtag #ForaBolsonaro ficou em primeiro lugar na lista de assuntos mais comentados do site.

    Nas primeira horas em que o vídeo do pronunciamento ficou disponível no YouTube, 85% das avaliações eram negativas, segundo o estudo.

    A melhora dos adversários

    Um levantamento do site Núcleo publicado na terça-feira (7), com base na análise de mil tuítes (responsáveis por 45,5% de todas as interações em relação ao presidente entre 17 de março e 4 de abril), mostra que 71% das interações no Twitter no período foram negativas ao presidente, e só 20,5% foram positivas. O restante foi neutro.

    Em meio à queda em seu alcance, Bolsonaro também viu seus principais adversários crescerem. Embora ainda possua o maior IPD (Índice de Popularidade Digital), que é medido pela consultoria de dados Quaest, o presidente despencou de 83,1 pontos para 69,1, numa queda de 16,8%, medida entre 25 de fevereiro e 25 de março.

    O índice vai de 0 a 100. No mesmo período, os governadores João Doria (São Paulo), Flávio Dino (Maranhão) e Wilson Witzel (Rio de Janeiro) cresceram 66,1%, 54,9% e 39,6%, respectivamente.

    O uso de robôs

    Bolsonaro alternou em 2020 picos de notícias positivas e negativas, segundo uma outra pesquisa da consultoria Arquimedes. Os picos negativos já vinham ocorrendo antes mesmo da pandemia se tornar o principal assunto do país. Foi observado, por exemplo, em 4 de março, quando foi anunciado o "pibinho" de 1,1% que frustrou expectativas de economistas de um crescimento de 2,5% para o país em 2019.

    Mas houve também alguns positivos. Na quarta-feira (8), por exemplo, a hashtag #BolsonaroTemRazao foi o assunto mais falado no Twitter, por causa da defesa do presidente da cloroquina, remédio que está sendo testado contra o coronavírus mas que ainda não tem comprovação científica de sua eficácia. Os bolsonaristas comemoravam o fato de o cardiologista Roberto Kalil Filho, do hospital Sírio-Libanês, ter admitido o uso da substância em seu tratamento contra a covid-19.

    Outro pico aconteceu em 15 de março, quando os apoiadores de Bolsonaro organizaram atos públicos pelo país contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, o presidente fez mais de 40 publicações sobre o protesto, o que impulsionou sua rede.

    Uma pesquisa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), divulgada em 3 de abril, mostra, entretanto, que 55% dos 1,2 milhão de posts com a hashtag #BolsonaroDay, usada em 15 de março, foram publicados por robôs.

    Segundo o estudo, dos 66 mil usuários que usaram a hashtag, 23.500 eram "bots", ou seja, perfis programados para disseminar um determinado conteúdo. Cerca de 1.700 contas, responsáveis por 22 mil mensagens favoráveis ao presidente, foram apagadas horas depois de publicarem a hashtag, o que indica, de acordo com o estudo, que se tratavam de perfis falsos.

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