A exaltação da cloroquina por Bolsonaro na TV

Em 5º pronunciamento sobre a crise do novo coronavírus, presidente reforça defesa de medicamento e diz que a decisão de isolamento social é exclusiva de governadores e prefeitos

    Jair Bolsonaro fez mais um pronunciamento de rádio e TV na noite desta quarta-feira (8) sobre a crise do novo coronavírus. No quinto discurso em cadeia nacional sobre o tema em pouco mais de um mês, o presidente voltou a defender a reabertura do comércio e reforçou o uso da cloroquina para combater a covid-19, doença causada pelo vírus.

    Pela primeira vez, Bolsonaro se solidarizou com as famílias brasileiras das vítimas do coronavírus. Na quarta (8), o país contabilizava 819 mortes e 16.170 casos. A primeira vítima fatal do novo coronavírus no país foi registrada em 17 de março.

    Apesar de evitar o confronto direto com governadores e prefeitos, como havia feito em um dos seus pronunciamentos anteriores, Bolsonaro buscou descolar sua figura das decisões de isolamento social, que tentam evitar o alastramento das contaminações, mas cujo impacto econômico deve ser profundo.

    “Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos. Muitas medidas de isolamento são de responsabilidade exclusiva dos mesmos. O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em pronunciamento de 8 de abril

    Bolsonaro também fez questão de citar sua relação com o ministério. Isso num momento em que ficou isolado na tentativa de demitir Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde que é contrário à volta à normalidade no momento. “Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do país de forma ampla, usando o time de ministros que escolhi. Todos devem estar sintonizados comigo”, disse o presidente.

    Como das vezes anteriores, o pronunciamento foi alvo de panelaços em grandes cidades brasileiras, em um protesto que vem se repetindo há cerca de três semanas.

    A cloroquina no discurso presidencial

    No pronunciamento, Bolsonaro disse ter conversado com o médico Roberto Kalil Filho, que ficou internado por dez dias, vítima do novo coronavírus. O cardiologista afirmou nesta quarta (8) ao jornal Folha de S.Paulo que fez uso da cloroquina misturada com outros remédios, como corticóide somado a antibióticos.

    Após ouvir médicos, pesquisadores e chefes de Estado de outros países, passei a divulgar nos últimos 40 dias a possibilidade de tratamento da doença desde sua fase inicial, disse o presidente, segundo quem a decisão de Kalil “poderá entrar para história como tendo salvo milhares de vida no Brasil”.

    A citação ao cardiologista ocorre num momento de choque de Bolsonaro com outro médico. Na manhã de terça-feira (7), o presidente usou o Twitter para questionar o infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência da pandemia em São Paulo, estado governado por João Doria (PSDB). Doria, assim como outros governadores, se contrapõe a Bolsonaro na questão do isolamento social. Por ora, é considerado seu principal rival político.

    O presidente queria saber se Uip havia utilizado ou não a cloroquina em seu tratamento. O infectologista, que também foi contaminado pelo vírus, pediu, em coletiva de imprensa nesta quarta (8), que Bolsonaro respeitasse sua privacidade. Afirmou ainda que, assim como o presidente não havia mostrado os resultados dos seus exames sobre contaminação pelo novo coronavírus, ele também não revelaria o seu tratamento.

    Uip teve então sua receita médica, que mostrava o uso de cloroquina, vazada. O médico confirmou a autenticidade da prescrição, mas afirmou que vai tomar providências legais contra o vazamento. A minha privacidade foi invadida. A privacidade da minha clínica foi invadida. Tomarei as providências legais adequadas para a invasão da minha privacidade e dos meus pacientes”, disse.

    Ainda sobre a cloroquina, Bolsonaro disse em seu pronunciamento ter feito um acordo com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para receber, até sábado (11), matéria-prima para intensificar a produção do medicamento, sem especificar qual é o composto.

    O descompasso com o Ministério da Saúde

    Mais cedo, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Band, o presidente já havia dito que o medicamento deveria ser utilizado no começo do tratamento, “até o quarto ou quinto dia útil do tratamento”. Passando disso, como a evolução é muito rápida e ele ataca basicamente o pulmão, quando entrar no estado grave ou no estado gravíssimo, a possibilidade de você se curar é mínima, é quase zero”, completou o presidente.

    O Ministério da Saúde recomenda o uso do medicamento apenas para pacientes em estado grave ou crítico. A gente divide os pacientes em formas leves, graves e críticos. Nós estávamos adotando para os críticos. Vamos adotar também para os graves, que são aqueles que vão para o hospital, mas ainda não necessitando de CTI [Centro de Terapia Intensiva], disse Mandetta em 3 de abril.

    Os estudos inconclusivos sobre a cloroquina

    Como a covid-19 é uma doença causada por um vírus novo, seu avanço rápido pelo mundo tem feito cientistas correrem contra o tempo para achar um tratamento. Estudos científicos com esse fim, no entanto, demoram a ser concluídos.

    Nesta terça (7), a colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, revelou que um estudo preliminar da Fiocruz e da Fundação de Medicina Tropical mostrou que a taxa de mortalidade de pacientes que usaram a cloroquina é semelhante à de pacientes que não usaram o remédio. Dos 81 pacientes que usaram o medicamento, 11% morreram. A taxa de mortalidade de pacientes em iguais condições que não usaram a droga é de 18%, segundo estudos internacionais, inclusive da China.

    Segundo o infectologista da Fiocruz, Marcus Lacerda, a proximidade entre os dois índices não permite afirmar que a cloroquina possa fazer diferença fundamental. "Os otimistas podem achar que [a taxa com o uso da cloroquina] é menor. Os pessimistas podem achar que é igual. Estatisticamente, é igual, na margem de confiança", disse.

    No início de fevereiro, um estudo de pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan, onde os primeiros casos do novo coronavírus foram identificados na China, concluiu que a cloroquina era barata, segura e potencialmente aplicável ao novo vírus. Em março, pesquisadores franceses defenderam o uso de um composto da cloroquina com outros medicamentos, em um estudo publicado na "International Journal of Antimicrobial Agents".

    O uso indiscriminado da cloroquina pode causar efeitos colaterais como graves arritmias, hepatite, pancreatite e choque anafilático. Nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump também se mostrou entusiasta do medicamento, um homem de 60 anos morreu e sua mulher foi hospitalizada após ingerirem fosfato de cloroquina, um produto usado para limpar aquários. As primeiras menções ao medicamento por Trump causaram uma corrida às farmácias pela droga nos EUA, situação parecida foi identificada no Brasil quando Bolsonaro falou sobre o remédio.

    Mesmo com a incerteza dos resultados, o governo federal no Brasil tem defendido o uso e a produção do medicamento. No dia 25 de março, o Ministério da Saúde anunciou a distribuição de 3,4 milhões de unidades do remédio a estados com pacientes em quadro grave. Cinco dias depois, o Ministério da Defesa anunciou que os laboratórios químicos militares também passariam a produzir a cloroquina, além de álcool em gel.

    De acordo com os pesquisadores da Fiocruz ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo, os testes com a cloroquina ainda vão durar de dois a três meses, em 440 pacientes. "Tudo pode. Mas não podemos achar nada", disse Marcus Lacerda.

    Cronologia na TV

    ‘Sigam os especialistas’ em 6 de março

    Bolsonaro fez seu primeiro pronunciamento sobre a crise do coronavírus. Em 2 minutos e 4 segundos, afirmou que o número de doentes poderia se agravar nas próximas semanas, mas disse “não haver motivo para pânico”. O presidente pediu “a união de todos”, incluindo estados e municípios, destacou a importância da população “seguir rigorosamente as recomendações dos especialistas” e afirmou que as instituições funcionariam até o “retorno à normalidade”.

    ‘Adiem as manifestações’ em 12 de março

    Um dia depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar estado de pandemia, Bolsonaro fez seu segundo pronunciamento sobre o tema. Disse que a decisão da OMS era “responsável” e pediu à população que adiasse as manifestações pró-governo e contra o Congresso e o Supremo. “Os movimentos espontâneos e legítimos marcados para o dia 15 de março atendem os interesses da nação e demonstram o amadurecimento da nossa democracia presidencialista. Precisam, no entanto, diante dos fatos recentes, ser repensados”. Três dias depois, Bolsonaro não seguiu as suas próprias recomendações e participou do ato em Brasília.

    ‘Voltem à normalidade’ em 24 de março

    No auge do enfrentamento com governadores sobre as medidas restritivas nos estados, Bolsonaro fez um pronunciamento de 4 minutos e 59 segundos atacando a imprensa, chamando o coronavírus de “gripezinha” e o distanciamento social de “histeria”. “Devemos sim voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa”, disse o presidente em tom de confronto, algo que causou uma reação em bloco da classe política contra o Palácio do Planalto.

    ‘Todos num grande pacto’ em 31 de março

    Uma semana depois, Bolsonaro baixou o tom para pregar a união. Sem o discurso de confronto do dia 24, ressaltou a importância de prefeitos, governadores, do Congresso e do Poder Judiciário para minimizar os efeitos da crise. “Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade”, afirmou o presidente, que no dia seguinte já voltou a atacar governadores e a defender o fim do isolamento social.

    Exaltação à cloroquina em 8 de abril

    Em seu 5º pronunciamento sobre a crise do novo coronavírus, num momento de grande isolamento político, Bolsonaro buscou afastar sua figura das medidas de isolamento decretadas pelo país: “Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos. Muitas medidas de isolamento são de responsabilidade exclusiva dos mesmos. O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude”. E redobrou a aposta no uso da cloroquina para contaminados pelo vírus, mesmo que não haja, até o momento, pesquisas que comprovem a real eficácia do medicamento.

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