O que há de político na defesa presidencial da cloroquina

Medicamento que ainda não teve eficácia comprovada no tratamento da covid-19 tem aparecido com cada vez mais frequência no discurso de Bolsonaro

    A recusa de Luiz Henrique Mandetta em assinar um decreto pela liberação da cloroquina para tratamento da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, na noite desta segunda-feira (6), pôs o ministro da Saúde mais uma vez em oposição a Jair Bolsonaro. Mesmo sob o risco de ser demitido, Mandetta não tem endossado a utilização do medicamento, que é adotado em casos graves da doença em alguns hospitais do país mas ainda não teve a eficácia no combate ao coronavírus comprovada por estudos.

    O presidente, por sua vez, tem defendido o remédio em repetidas declarações à imprensa e também em suas redes sociais. A aposta na cloroquina acontece ao mesmo tempo em que Bolsonaro se posiciona contra medidas de enfrentamento à pandemia que são praticamente consenso entre autoridades sanitárias e especialistas, como o distanciamento social.

    Na terça-feira (7), Bolsonaro usou o Twitter para questionar se o médico David Uip, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, que teve a infecção pelo vírus confirmada no dia 23 de março, havia se recuperado graças ao uso da cloroquina. Uip concedeu entrevista a jornalistas no mesmo dia, mas se recusou a responder se tomou ou não o medicamento.

    A cloroquina e a ciência

    Como a covid-19 é uma doença causada por um vírus novo, seu avanço rápido pelo mundo tem feito cientistas correrem contra o tempo para achar um tratamento. Estudos científicos com esse fim, no entanto, demoram a ser concluídos.

    Nesta terça (7), a colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, revelou que um estudo preliminar da Fiocruz e da Fundação de Medicina Tropical mostrou que a taxa de mortalidade de pacientes que usaram a cloroquina é semelhante à de pacientes que não usaram o remédio. Dos 81 pacientes que usaram o medicamento, 11% morreram. A taxa de mortalidade de pacientes em iguais condições que não usaram a droga é de 18%, segundo estudos internacionais, inclusive da China.

    Segundo o infectologista da Fiocruz, Marcus Lacerda, a proximidade entre os dois índices não permite afirmar que a cloroquina possa fazer diferença fundamental. "Os otimistas podem achar que [a taxa com o uso da cloroquina] é menor. Os pessimistas podem achar que é igual. Estatisticamente, é igual, na margem de confiança", disse.

    No início de fevereiro, um estudo de pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan, onde os primeiros casos do novo coronavírus foram identificados na China, concluiu que a cloroquina era barata, segura e potencialmente aplicável ao novo vírus. Em março, pesquisadores franceses defenderam o uso de um composto da cloroquina com outros medicamentos, em um estudo publicado na "International Journal of Antimicrobial Agents".

    O uso indiscriminado da cloroquina pode causar efeitos colaterais como graves arritmias, hepatite, pancreatite e choque anafilático. Nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump também se mostrou entusiasta do medicamento, um homem de 60 anos morreu e sua mulher foi hospitalizada após ingerirem fosfato de cloroquina, um produto usado para limpar aquários. As primeiras menções ao medicamento por Trump causaram uma corrida às farmácias pela droga nos EUA, situação parecida foi identificada no Brasil quando Bolsonaro falou sobre o remédio.

    Mesmo com a incerteza dos resultados, o governo federal no Brasil tem defendido o uso e a produção do medicamento. No dia 25 de março, o Ministério da Saúde anunciou a distribuição de 3,4 milhões de unidades do remédio a estados com pacientes em quadro grave. Cinco dias depois, o Ministério da Defesa anunciou que os laboratórios químicos militares também passariam a produzir a cloroquina, além de álcool em gel.

    De acordo com os pesquisadores da Fiocruz ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo, os testes com a cloroquina ainda vão durar de dois a três meses, em 440 pacientes. "Tudo pode. Mas não podemos achar nada", disse Marcus Lacerda.

    A cloroquina e a política

    No campo da ciência, ainda há incertezas sobre a real eficácia da cloroquina. Por que, então, Bolsonaro aposta de forma tão veemente no uso do medicamento? Para entender o movimento presidencial, o Nexo conversou com:

    • Fábio Gentile, coordenador e professor do programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará
    • Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora

    Por que Bolsonaro insiste na liberação da cloroquina para o tratamento da covid-19?

    Fábio Gentile Bolsonaro está falando desse remédio para tentar aliviar a população. Mas é uma postura irresponsável. É um pouco como [Donald] Trump foi nos Estados Unidos, mas com uma diferença: o Brasil não tem a mesma estrutura dos EUA. Em segundo lugar, Trump recuou daquela postura de minimizar o coronavírus quando percebeu que o contágio estava avançando, algo que Bolsonaro demorou a fazer.​

    Odilon Caldeira Neto Bolsonaro é estruturado em três aspectos: um perfil antissistema da política, uma dimensão conspiratória da realidade e a dimensão religiosa, inclusive em sua base de apoio. Essa busca por uma explicação simples à pandemia é também um combate ao sistema político, uma resposta a conspiração contra ele e o seu governo e é também um remédio simples e imediato com apelo religioso, onde Bolsonaro é apresentado como aquele que trouxe a resolução do problema complexo. ​

    Como uma questão científica gera efeitos no campo político?

    Fábio Gentile Estamos observando um conflito entre ciência e política. De um lado, existem as medidas restritivas, a quarentena. De outro, a ideia de que não se pode parar tudo ou acabar com a liberdade das pessoas, também pelo impacto econômico. Os políticos querem a ciência a serviço da política, e isso não é possível. Esse conflito entre Bolsonaro e o Mandetta é um exemplo. Duas posições: uma política, totalmente irresponsável, e outra científica. Isso não é só no Brasil, mas em nível mundial. Agora, é preciso dizer que os países mais desenvolvidos do mundo não se prepararam para essa pandemia, do ponto de vista político, mesmo tendo conhecimento do vírus desde o final de 2019. São erros que justificam a tragédia que vivemos. ​

    Odilon Caldeira Neto O campo científico não está dissociado do campo político. O que estamos vendo aqui são os usos políticos da ciência. Quando digo que Bolsonaro participa de uma natureza política cujo conspiracionismo é fator importante para essa ideologia, é necessário pensar que quando se cria uma conspiração, é preciso criar “contra-conspiração”. Ele politiza a ciência com uma “contra-ciência”. Bolsonaro não está negando o saber científico, mas propondo um tipo específico do pensamento científico que possa ser manejado de acordo com os seus interesses políticos. Ele retira alguns elementos do campo científico para politizar esse debate. O campo científico é utilizado como munição para o processo de politização do próprio campo científico. ​

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