A acusação contra os EUA de prática de ‘pirataria moderna’

Franceses, alemães e brasileiros dizem que governo americano desvia cargas médicas usadas para combater o novo coronavírus

    No mesmo dia 3 de abril, três gigantescas encomendas de material médico feitas junto à China por governos da Alemanha, da França e do Brasil foram retidas em diferentes pontos do mundo, antes de chegarem a seus destinos finais.

    Em todos esses casos, os países compradores acusaram os EUA de desviarem as cargas, num ato agressivo de disputa comercial, chamado pelos alemães de “pirataria moderna”, pelos franceses de “caça ao tesouro” e pelos brasileiros de “mega corrida” e de “capitalismo selvagem”.

    As três compras eram de produtos médicos, especialmente máscaras destinadas a funcionários das áreas de saúde e de segurança que estão na linha de frente do combate à pandemia que, até terça-feira (7), já tinha deixado 1,3 milhão contaminados e mais de 74 mil mortos em 184 países.

    Os episódios demonstram que o desespero por ter acesso a equipamentos indispensáveis de proteção individual não levou a uma estratégia global de cooperação e solidariedade entre os países, como pedia a OMS (Organização Mundial da Saúde).

    Em vez disso, instalou-se uma disputa selvagem com contornos nacionalistas, na qual o governo americano adotou ao mesmo tempo um comportamento ultraliberal da livre oferta e procura, e uma postura intervencionista do Estado em assuntos de livre mercado.

    A faceta ultraliberal ficou clara quando políticos franceses relataram que havia representantes americanos oferecendo o triplo do preço por produtos médicos que já tinham sido adquiridos por outros compradores.

    Já a faceta intervencionista estatal americana apareceu quando, no dia seguinte a esses desvios, 4 de abril, o presidente americano, Donald Trump, fez um pronunciamento em Washington no qual anunciou que aplicaria uma lei dos anos 1950 para obrigar empresas gigantescas, como a 3M, a fornecerem suas produções prioritariamente aos EUA.

    “Precisamos das máscaras. Não queremos outros [países] conseguindo máscaras. Você pode até chamar de retaliação porque é isso mesmo. É uma retaliação. Se as empresas não derem o que precisamos para o nosso povo, nós seremos muito duros”

    Donald Trump

    presidente dos EUA, em declaração no dia 4 de abril de 2020

    Estados do Nordeste perdem respiradores

    O caso brasileiro diz respeito a um carregamento de 600 mil respiradores artificiais que tinham sido encomendados da China por um consórcio formado pelos nove estados do nordeste.

    A carga, avaliada em US$ 42 milhões, ficou retida no aeroporto de Miami, nos EUA. O pagamento brasileiro ainda não havia sido feito. A Casa Civil do governo da Bahia disse que a justificativa para a retenção foi de natureza “técnica”. A Embaixada dos EUA no Brasil disse que o país “não comprou nem bloqueou nenhum material ou equipamento médico da China destinado ao Brasil”.

    No dia seguinte ao bloqueio da carga brasileira, Trump fez o pronunciamento no qual disse não querer que outros países consigam esses suprimentos. E, no dia seguinte a esse pronunciamento, o governador da Bahia, Rui Costa, publicou a seguinte mensagem nas redes sociais:

    “Lamentáveis as declarações de Trump. O mundo precisa de respiradores e outros insumos nesta guerra contra o coronavírus. Deixa o capitalismo selvagem de lado e seja solidário. Na Bahia e no Nordeste, vamos continuar trabalhando incansavelmente e buscando alternativas no mercado”

    Rui Costa

    governador do estado da Bahia, em post no Twitter no dia 5 de abril de 2020

    Em Brasília, o ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, alertou para a existência de uma “mega corrida” por insumos médicos no mundo.

    “Os EUA mandaram 23 aviões cargueiros para levar da China materiais que eles adquiriram. Das nossas compras, que tínhamos expectativas de concretizar, muitas caíram. Tem um problema de sistema de saúde”, disse o ministro brasileiro.

    Mandetta deu a entender que essa competição deve ainda se acirrar com a entrada de outros grandes atores em cena: “A Índia mandou fazer isolamento de 1,3 bilhão de pessoas. Já imaginaram a quantidade de máscaras e de EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] necessários para os hospitais da Índia, dos EUA, do México.”

    Desvio de encomendas alemãs

    No mesmo dia em que a carga dos governos nordestino era retida em Miami, o governo alemão queixava-se de bloqueio semelhante ocorrido num aeroporto da Tailândia, por interferência dos americanos.

    O carregamento continha 200 mil máscaras do tipo FFP-2, encomendadas e pagas pela polícia de Berlim. O ministro do Interior do estado de Berlim, Andreas Geisel, disse que os EUA “desviaram” as máscaras na Tailândia, num ato de “pirataria moderna” que reproduzia “métodos do Velho Oeste”.

    “Consideramos isso um ato de pirataria moderna. Não é assim que você lida com parceiros transatlânticos. Mesmo em tempos de crise global, não deve haver métodos selvagens do Velho Oeste. Exorto o governo federal a instar os Estados Unidos a cumprir as regras internacionais”

    Andreas Geisel

    ministro do Interior da Alemanha, em comunicado do dia 3 de abril de 2020

    França fala em “caça ao tesouro”

    Problema semelhante foi relatado por autoridades francesas no mesmo período. Valérie Pécresse, governadora da região de Île-de-France – uma das mais afetadas, onde fica a capital, Paris – relatou a existência de uma verdadeira “caça ao tesouro” internacional por insumos.

    "Encontrei um estoque de máscaras disponíveis e os americanos – não estou falando do governo americano – ofereceram o triplo do preço e se propuseram a pagar adiantado”, disse Pécresse.

    Outro político francês, Jean Rottner, governador da região de Grand Est – zona tão colapsada que teve de enviar pacientes para serem internados em países vizinhos, como a Alemanha e a Suíça – contou que dinheiro vivo está sendo oferecido por americanos na disputa pelos produtos de outros países.

    “Na pista [dos aeroportos chineses], os americanos oferecem dinheiro e pagam três ou quatro vezes o preço que oferecemos”, disse ele à emissora de rádio RTL France. “É complicado. Nós lutamos 24 horas por dia” para que as máscaras sejam entregues.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que Andreas Geisel é ministro do Interior da Alemanha. Na verdade, ele é ministros do Interior do estado de Berlim. A informação foi corrigida às 13h19 de 14 de abril de 2020.

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