Ir direto ao conteúdo

O que o Exército disse sobre a quarentena. E depois apagou

Recomendaç��es feitas por centro militar, como o isolamento durante a pandemia, contrariavam visão do presidente Jair Bolsonaro

    Isolamento total dos brasileiros que formam o grupo de risco e apoio econômico a empresas e cidadãos são algumas das recomendações que o CEEEx (Centro de Estudos Estratégicos do Exército) apresenta em um documento, publicado na quinta-feira (2), para analisar os cenários de crise no combate ao novo coronavírus no Brasil.

    O trabalho, com pouco mais de 30 páginas, discute maneiras de conter a pandemia no país. Além disso, aborda os impactos econômicos e as estratégias políticas utilizadas por governantes. Ao sugerir tais medidas, o órgão contraria algumas das principais bandeiras do presidente Jair Bolsonaro até o momento. Nesta segunda-feira (6), o texto foi apagado e o site ficou indisponível.

    Em nota, o CEEEx afirmou que os textos produzidos "são de caráter acadêmico" e que "as opiniões, neles externadas, não representam a posição oficial do Exército, mas têm por objetivo contribuir para o debate dos grandes temas nacionais, com ênfase para aqueles com impacto para a Defesa".

    Defendendo uma “atitude responsável” e “coesão nacional”, o estudo estimula o fechamento do comércio, propõe ações coordenadas entre o Executivo, o Congresso e o Legislativo, pede atenção ao desenvolvimento de medidas emergenciais para os mais necessitados e ressalta a importância do fortalecimento da economia em setores estratégicos da capacidade produtiva.

    Criado em 2003, o órgão estratégico está vinculado ao Estado-Maior do Exército. O objetivo do CEEEx é propor políticas e estratégias de nível militar, assim como acompanhar e avaliar, no nível nacional, políticas e estratégias ligadas aos interesses das Forças Armadas.

    Momento é de ‘achatar a curva’

    Intitulado “Crise Covid-19: estratégias de transição para a normalidade”, o documento traz uma série de medidas que contrariam a visão do presidente Jair Bolsonaro. Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem dado seguidas declarações defendendo o isolamento vertical como forma mais eficaz durante o período de quarentena.

    No isolamento vertical, medida sem comprovação científica, apenas as pessoas no grupo de risco - mais de 60 anos e com doenças crônicas - são poupadas do convívio social. O CEEEx, assim como grande parte dos infectologistas, defende o modelo horizontal, quando todos devem permanecer em quarentena, estando ou não no grupo de risco.

    O estudo aponta que, "apesar de estarmos no começo da curva ascendente de casos e mortes, é provável que o isolamento horizontal adotado, especialmente das cidades com maior número de casos, tenha alongado a curva da doença”. De acordo com o relatório, o isolamento vertical poderia ser utilizado em uma fase de transição, posterior a que vivemos, com um “comprovado achatamento da curva de novos casos”.

    Toda preocupação das autoridades de saúde, no momento, está em evitar que muitas pessoas peguem o vírus num curto espaço de tempo, algo que provocaria um volume muito concentrando de doentes, com especial risco de colapso do sistema de saúde.

    “Achatar a curva” significa diluir as contaminações ao longo do tempo, assim o sistema de saúde seria capaz de lidar com a demanda. A melhor forma de fazer isso, no momento, é adotando quarentenas mais rígidas, segundo a (Organização Mundial de Saúde).

    Segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda (6), 76% da população acredita que a melhor forma de combater o vírus é permanecer em casa, contrariando a visão do presidente.

    Alternativa de isolamento misto, mas no futuro

    Em uma outra alternativa apontada pelo estudo, o órgão cita um “isolamento misto”, com um esquema de revezamento na sociedade para o funcionamento de determinadas atividades. Essa medida, no entanto, só aconteceria depois da redução de danos com o isolamento horizontal.

    Uma das críticas de Bolsonaro ao isolamento horizontal é o evidente impacto econômico que a medida terá no país. Essa tem sido o principal ponto de discórdia nas ações desenvolvidas por governadores e as medidas do Executivo Federal. Nesta segunda (6), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), prorrogou a quarentena no estado por mais 15 dias.

    Na sexta-feira (3), no Palácio da Alvorada, o presidente voltou a criticar o fechamento do comércio e disse que a medida "vai quebrar tudo", referindo-se à economia. "Não pode fechar dessa maneira que atrás disso vem desemprego em massa, vem miséria, vem violência", afirmou.

    A recomendação de ação do Estado na economia

    Segundo o relatório do Exército, a fragilidade econômica decorrente da pandemia deve ser suprida com a atuação do Estado. "No contexto de fragilidade econômica ora emergente, é possível identificar a relevância do papel do Estado na mitigação dos efeitos negativos da crise, bem como a centralidade de sua atuação como indutor e protagonista do grande processo de recuperação que, inevitavelmente, terá que ocorrer".

    No dia 2 de abril, o presidente sancionou o auxílio emergencial de R$ 600 para famílias de baixa renda e trabalhadores informais. Segundo o governo, a medida deve ajudar 54 milhões de pessoas. De acordo com o governo, o pagamento será feito pelos próximos três meses para quem está no Cadastro Único. Um aplicativo para auxiliar os cidadãos será lançado nesta terça-feira (7), pela Caixa Econômica Federal.

    Cloroquina é tratada como ‘incipiente’

    Em outro ponto de discórdia com o presidente, o documento é cuidadoso ao citar o uso da cloroquina como possível cura ao novo coronavírus, diferentemente do que tem defendido Bolsonaro. Segundo a CEEEx, os estudos sobre a substância ainda são "incipientes e ainda têm um longo caminho até a produção de soluções viáveis”.

    O estudo baseia suas análises observando também o contexto internacional. São citados Japão, Coreia do Sul, Suécia e Alemanha. De maneira geral, ao diagnosticar a atuação dos países que conseguiram controlar a pandemia, o estudo diz que algumas medidas recorrentes estão apresentando resultados: isolamento social, fechamento de comércio e escolas, proibição de eventos públicos e controle rígido das fronteiras.

    No contexto político, o CEEEx afirma que o êxito das estratégias para o país à fase de transição depende da harmonia entre as lideranças políticas do país. “Esse consenso deve ser construído de forma urgente. Não parece razoável uma quebra de governabilidade num momento tão crítico”.

    O clima de guerra dentro do governo

    Neste domingo (5), Bolsonaro afirmou, no Palácio da Alvorada, que alguns ministros do seu governo "viraram estrelas", que "estavam se achando demais" e que ele não tinha medo de usar a caneta contra eles, em uma ameaça velada de demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Nesta segunda (6), Mandetta admitiu que não sabia até quando será ministro. Após um dia dominado por especulações, em que Bolsonaro teria avaliado demitir o ministro, Mandetta afirmou que continua no cargo.

    O relatório, que não cita nominalmente o presidente ou qualquer um dos seus ministros, diz que "a responsabilidade das lideranças políticas frente às inúmeras adversidades que ainda se apresentarão é demasiada. Diante do tamanho do desafio, ainda não totalmente mensurado, parece clara a necessidade de coesão nacional e de definição de estratégias eficazes e claras".

    O Exército e o coronavírus

    Atualmente, todos os ministérios dotados no Palácio do Planalto são comandados por militares. O último a assumir, em fevereiro de 2020, general da reserva Walter Souza Braga Netto, responsável pela Casa Civil, recebeu a tarefa do presidente de estar à frente do Gabinete de Crise instituído para o combate ao coronavírus.

    O general tem a responsabilidade de articular, juntamente com os estados, ações no contexto da crise. Esse foi um jeito de tentar apaziguar o relacionamento conflituoso entre governadores e o presidente na adoção de medidas restritivas.

    Durante as entrevistas com os jornalistas, Braga Netto passou a controlar as perguntas respondidas e também a orientar as respostas dos colegas. Na entrevista coletiva realizada no dia 31 de março, para falar sobre o coronavírus, o general interveio quando Moro e Paulo Guedes foram questionados. "Eles concordam plenamente com o ministro Mandetta", disse Braga Netto.

    Enquanto Bolsonaro se vê cada vez mais isolado por outros ministros e vê sua avaliação positiva cair nas pesquisas de popularidade, os militares estão servindo de apoio ao presidente para contornar o desgaste político criado pela crise. O ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, disse ao jornal Estado de S.Paulo que "ninguém tutela o presidente" e que ele ainda tem o apoio da área militar

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro chegou a chorar e a buscar refúgio no setor militar por conta das críticas que vem recebendo pela condução da crise.

    No dia 24 de março, quando Bolsonaro fez um pronunciamento chamando o coronavírus de "gripezinha", o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, gravou um vídeo afirmando que o combate à pandemia "talvez seja a missão mais importante de nossa geração".

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.