Do desdém ao medo: a dolorosa trajetória britânica na pandemia

Um mês depois de ter minimizado o risco de contaminação, Boris Johnson é internado com coronavírus, enquanto rainha faz pronunciamento histórico defendendo medidas de isolamento social

    O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, foi internado no Hospital St. Thomas, de Londres, no domingo (5), dez dias depois de ter sido diagnosticado com o novo coronavírus. Na segunda-feira (6), seus sintomas pioraram e o premiê foi para uma unidade de tratamento intensivo.

    A trajetória do premiê acontece após uma atitude inicial desdenhosa em relação à pandemia. Johnson foi, juntamente com o presidente americano, Donald Trump, e com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, um dos líderes mundiais que tratou com incredulidade a ameaça do coronavírus, demorando para adotar a quarentena como política pública nacional e atitude pessoal.

    No dia 3 de março, 24 dias antes de ser diagnosticado com a doença, um sorridente Boris Johnson contava em tom informal, de cima de um púlpito, como ele tinha cumprimentado pacientes contaminados pelo coronavírus num hospital de Londres.

    “Eu tenho apertado mãos continuamente. Eu estive no hospital outra noite e acho que tinha alguns pacientes com coronavírus e eu apertei as mãos de todos. Vocês terão satisfação em saber: eu continuo a apertar as mãos”

    Boris Johnson

    Primeiro-ministro do Reino Unido, em pronunciamento em Londres, no dia 3 de março

    O premiê também enalteceu na ocasião o “fantástico” NHS britânico, sigla em inglês do Sistema de Saúde Nacional do Reino Unido, e recomendou que “a grande maioria do país continue no 'business as usual'” – na tradução literal, “continuar nos negócios, como sempre”, expressão usada no sentido de não alterar o ritmo normal da vida cotidiana.

    O premiê repetiria a recomendação de “business as usual” dois dias depois, em 5 de março, após o Reino Unido registrar a primeira morte por coronavírus em seu território.

    A atitude displicente não é exclusiva de Johnson. Nos EUA, em 26 de fevereiro, Trump se referia ao coronavírus como “uma gripe”, enquanto, no Brasil, Bolsonaro dizia que tudo não passava de “uma fantasia” – isso já em 10 de março, quando havia 4 mil mortos no mundo e 25 pessoas contaminadas no Brasil.

    Explosão de casos e mudança de discurso

    Ao ser internado, no domingo (5), o premiê apresentava entre os sintomas febre alta persistente, mas seus assessores dizem que a internação não está relacionada a nenhuma emergência, e que ele seguirá exercendo suas funções. Se tiver de ser afastado, quem assume é Dominic Raab, ministro das Relações Exteriores.

    Johnson, de 55 anos, é o primeiro líder mundial a ser internado por causa da doença que, até segunda-feira (6), já havia contaminado mais de 1,2 milhão pessoas em 183 países, deixando mais de 69 mil mortos.

    Desde que o premiê testou positivo, no dia 27 de março, o Reino Unido viu os casos de contaminação e morte por coronavírus explodirem em seu território. Até segunda-feira (6), os britânicos contavam 47.806 casos de contaminação e 4.934 mortes pelo vírus.

    O Reino Unido tornou-se o quarto país europeu em número de mortos, atrás de Itália, Espanha e França. Em número de contaminados é o quinto, logo atrás da Alemanha.

    Johnson foi adaptando seu discurso e também as ações do governo à medida que a crise foi revelando sua extensão e gravidade no Reino Unido. O problema é que – como demonstraram as experiências da Itália e da Espanha – a quarentena demora para fazer efeito. É uma medida que, para funcionar, deve ser adotada precocemente.

    O governo britânico perdeu um tempo precioso que passou discutindo a possibilidade de investir numa estratégia de imunização de rebanho, que consistia em permitir que as pessoas fossem contaminadas, na esperança de que desenvolvessem anticorpos aos poucos.

    A ideia foi abandonada no meio do caminho, mas o tempo perdido nela provocou um efeito previsível: a superlotação das unidades de saúde e o temor de colapso no sistema.

    Em 23 de março, Johnson fez um pronunciamento em cadeia nacional, no qual decretou finalmente a quarentena, ou “lockdown”, como os britânicos chamam as medidas de confinamento.

    “Dizendo de maneira simples: se muitas pessoas ficarem severamente doentes ao mesmo tempo, nosso sistema nacional de saúde não terá capacidade para lidar com isso. Mais pessoas morrerão – não apenas [por causa] do coronavírus, mas de outras doenças também”

    Boris Johnson

    Primeiro-ministro do Reino Unido, em pronunciamento feito no dia 23 de março de 2020

    Quatro dias depois de fazer esse pronunciamento, o premiê anunciaria publicamente que estava contaminado pelo coronavírus. Nos dez dias seguintes, Johnson lutaria com uma febre alta que, ao não ceder, terminaria por interná-lo neste domingo (5).

    A preocupação da Rainha Elizabeth 2ª

    A gravidade da situação no Reino Unido foi demonstrada não apenas pelos altos números de contaminação e pela internação do premiê, mas também por um pronunciamento carregado de simbolismo e dramaticidade, feito pela Rainha Elizabeth 2ª no mesmo domingo (5) em que Johnson deu entrada no hospital.

    Em 68 anos de reinado, esta foi apenas a quinta vez que Elizabeth 2ª fez um discurso extraordinário à nação. Anteriormente, ela havia se pronunciado no 60º aniversário de sua própria coroação (2012), após a morte da rainha-mãe, Isabel Ângela Margarida Bowes-Lyon (2002), após o funeral da princesa Diana (1997) e após a Guerra do Golfo de 1991.

    Em aproximadamente quatro minutos, a rainha comparou o drama atual das famílias confinadas e separadas ao drama das crianças britânicas que foram enviadas a outros países-membros da Commonwealth para escapar dos bombardeios alemães durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

    A rainha defendeu as medidas extraordinárias de confinamento social, elogiou os funcionários do Sistema Nacional de Saúde e afirmou que a atual geração será conhecida no futuro por sua resiliência diante de um das maiores crises sanitárias que o país já viveu.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.