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Como Osmar Terra nega evidências científicas na pandemia

Deputado federal, que é médico e foi cotado para assumir o Ministério da Saúde, tornou-se porta-voz de uma extrema direita que minimiza os riscos do coronavírus e critica medidas de isolamento social 

    O deputado federal Osmar Terra tornou-se um dos principais opositores das medidas de isolamento social recomendadas pelo Ministério da Saúde e pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Sem apresentar provas, afirma que as quarentenas não estão funcionando para conter a covid-19, embora as evidências em diversos países apontem o contrário. Segundo ele, as ações defendidas por uma “corrente catastrofista” jogam “milhões de brasileiros na miséria”.

    Alinhado ao presidente Jair Bolsonaro, Terra tem participado de reuniões do governo, como uma espécie de conselheiro sobre a pandemia. Ele foi cogitado para assumir o Ministério da Saúde no lugar de Luiz Henrique Mandetta, que tem desagradado Bolsonaro por, entre outras medidas, recomendar o isolamento social para tentar conter a pandemia do novo coronavírus.

    Segundo relatos de bastidores publicados na imprensa ao longo da segunda-feira (6), Bolsonaro avaliou demitir Mandetta. O ministro da Saúde disse que chegou a ter suas “gavetas esvaziadas” mas afirmou, no fim do dia, que continua no cargo. Ele pediu “paz” para trabalhar.

    Em entrevistas, artigos e tuítes, Terra passou a se comportar como um porta-voz da extrema direita que nega os riscos da doença. Como estratégia, ao ser contestado, defende que seu discurso sem base científica é apenas “um ponto de vista diferente”. O Twitter, porém, já restringiu suas publicações por violar as regras da rede social, como também fez ao apagar uma publicação de Bolsonaro.

    Como ainda não há vacina ou remédios para a covid-19, como é chamada a doença causada pelo novo coronavírus, o isolamento social, adotado hoje por quase a metade da população mundial, tem sido a medida mais eficaz para tentar conter uma explosão de casos de infecção — o que poderia colapsar os sistemas de saúde e levar a mais mortes.

    Quem é Osmar Terra

    Deputado federal pelo MDB em seu sexto mandato, Osmar Terra formou-se em medicina pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1974. Tem especialização pela UnB em saúde perinatal, educação e desenvolvimento do bebê.

    Nos anos 1980, em Porto Alegre, dirigiu o sindicato dos médicos, presidiu um grupo hospitalar e foi superintendente do Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social).

    Na década seguinte, elegeu-se prefeito do município de Santa Rosa (RS), que comandou entre 1993 e 1996. Em 1999, foi escolhido secretário executivo do programa Comunidade Solidária, criado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pela primeira-dama, Ruth Cardoso, com o objetivo de combater a extrema pobreza no país.

    Foi ainda secretário de Saúde do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2010, nos governos de Germano Rigotto (do então PMDB) e Yeda Crusius (PSDB). Terra esteve à frente do Ministério do Desenvolvimento Social, no governo de Michel Temer, e do Ministério da Cidadania, no governo de Jair Bolsonaro. Foi substituído na pasta pelo também deputado Onyx Lorenzoni, que deixou a chefia da Casa Civil.

    A quarentena e o número de casos

    Segundo Terra, o isolamento social não achata a curva de infecção e “não funcionou em nenhum país do mundo”. “Insisto que a quarentena aumenta os casos do coronavírus. A curva da epidemia nos países que a adotaram mostra isso. Isso porque o contágio se transfere da rua para dentro de casa e fica mais fácil”, escreveu em sua conta no Twitter, em 4 de abril, em publicação que teve sua visualização restrita pelo site por violar as normas da rede social.

    Ao fazer tais afirmações, o deputado não apresentou nenhum estudo ou dado científico que comprovasse sua tese. Em outra publicação, Terra usou gráficos publicados pelo jornal americano The New York Times.

    A reportagem, porém, mostra que países como a China conseguiram achatar suas curvas. “Apenas algumas semanas atrás, a China estava sobrecarregada pela pandemia do coronavírus iniciada em Wuhan. Desde então, o número de casos reduziu drasticamente, no que é conhecido como achatar a curva”, diz o primeiro parágrafo do texto. A China impôs o isolamento forçado de sua população.

    Um artigo publicado em 17 de março pela revista científica Nature mostrou que o isolamento imposto em Wuhan, o epicentro da epidemia na China, e em outras 15 cidades da província de Hubei, onde vivem 60 milhões de pessoas, fez com que a taxa de infecção despencasse nos sete primeiros dias de adoção das medidas restritivas. Antes do isolamento, uma pessoa doente poderia infectar outras duas ou mais pessoas. Uma semana após a quarenta, um doente infectava apenas mais uma pessoa.

    Pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, concluíram que, se a China tivesse adotado as mesmas medidas uma semana antes, poderia ter evitado 67% dos casos que acabaram sendo registrados. Se a adoção das ações tivesse ocorrido três semanas mais cedo, o número de doentes chegaria a apenas 5% do total que acabou sendo observado posteriormente.

    Informações falsas sobre países

    O deputado disse, numa de suas publicações, que a Itália adotou uma “quarentena radical” em 9 de março e, desde então, “aumentou muito o número de casos e mortes pelo coronavírus”. Segundo ele, o país não “achatou a curva”. “Atingiu o pico da epidemia no dia 22/03. Já começa a cair o número de casos para terminar no início de maio”, escreveu.

    Uma comparação feita pelo site americano Vox entre os números dos Estados Unidos e da Itália mostra, entretanto, que o isolamento social teve, sim, efeitos no país europeu. A comparação, que tem início a partir do centésimo caso confirmado, revela que o ritmo de crescimento de infecção na Itália era superior ao dos Estados Unidos.

    Em 4 de março, o governo italiano decidiu suspender as aulas e, em 9 de março, impôs uma quarentena em todo o país. Nos dias seguintes, a curva, que era superior à americana, começa a perder fôlego. A dos Estados Unidos, que não adotou as mesmas medidas no mesmo período, ultrapassou a da Itália no ritmo de crescimento, sugerindo que a curva italiana começava a ser achatada após o isolamento social.

    Em 31 de março, ao citar outro país, Osmar Terra publicou que a Holanda não fazia quarentena, não havia fechado nenhuma loja e mesmo assim havia passado pelo pico da doença e estava caminhando para o fim da epidemia. A informação é falsa. O governo holandês havia proibido em 16 de março o funcionamentos de estabelecimentos comerciais como bares e restaurantes e fechado equipamentos públicos como teatros e museus.

    A comparação com a H1N1

    Em artigo publicado na segunda-feira (6) no jornal Folha de S.Paulo, Terra diz que, quando coordenou o enfrentamento à pandemia de H1N1 no Rio Grande do Sul, na época em que era secretário da Saúde, não fechou escolas, comércio e indústrias porque não teve evidências de que as medidas “reduziriam o curso da epidemia”. “Resolvi correr o risco sanitário e político disso. A ciência prevaleceu com o controle rápido do surto, sem faltar atendimento à população”, escreveu.

    A comparação feita pelo deputado, porém, omite que a covid-19 é mais contagiosa e mais letal. Enquanto o número reprodutivo da gripe H1N1 era de 1,5 (ou seja, um doente infecta até 1,5 pessoas) e do novo coronavírus está entre 2 e 3. Isso significa que, no final de quatro ciclos, um doente de H1N1 infectaria 31 pessoas, enquanto alguém com a covid-19 seria responsável por passar o vírus para 192 pessoas.

    Por se espalhar de forma mais rápida, o novo coronavírus tem uma curva de contágio que cresce de forma mais acelerada do que de outras gripes, o que representa uma ameaça maior ao sistema de saúde.

    O novo vírus também mata muito mais, embora ainda não se conheça com exatidão sua taxa de letalidade. Em Wuhan, seu epicentro, 2% dos infectados morreram e, fora da China, o número varia de país para país. Mesmo assim, o índice é entre 3 e 20 vezes superior ao da mortalidade da gripe comum (0,13%) e da H1N1 (0,2%).

    O colapso do sistema de saúde

    Em outro trecho de seu artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, na segunda-feira (6), o deputado diz que a progressão de uma pandemia é reduzida com a imunização da maior parte da população. “Isso ocorre em todas as epidemias/pandemias virais e produz um padrão em forma de uma curva, que sobe com o aumento rápido do número de casos, estabiliza quando a maioria da população já foi contaminada, e cai provocando o fim da epidemia”, escreve.

    A ciência não questiona essa informação. Quando a maior parte da população é infectada por um vírus e adquire anticorpos, a epidemia perde força, no que é conhecido como “imunidade de grupo” ou “efeito rebanho”. Pesquisadores da Universidade Harvard, por exemplo, estimam que, ao longo de um ano, algo entre 40% e 70% da população mundial será infectada pelo novo coronavírus. A questão é quando isso vai acontecer.

    Ao falar do aumento rápido de casos, Terra ignora que a necessidade de achatar a curva acontece porque o sistema de saúde não daria conta de atender todos os doentes se todos pegarem o vírus ao mesmo tempo, o que aumentaria o número de mortes.

    Na Itália, por exemplo, onde o sistema de saúde entrou em colapso, os médicos foram obrigados a decidir quem viveria, devido a falta de leitos de internação para os casos graves. Eles escolhiam atender quem tinha mais chances de sobreviver e quem poderia viver por mais tempo, ou seja, os mais jovens. “Se decide por idade e condições de saúde. Como em todas as situações de guerra”, afirmou o médico Christian Salaroli, ao jornal italiano Corriere della Sera.

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