Como um grupo de ministros isola o discurso de Bolsonaro

Por meio de Braga Netto, chefe da Casa Civil , ala militar cria bloco apoiado por Sergio Moro e Paulo Guedes para sustentar medidas de Luiz Henrique Mandetta. Enquanto isso, presidente expõe publicamente sua insatisfação

    Num sinal de isolamento do presidente Jair Bolsonaro dentro do próprio governo, a ala militar liderada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, assumiu neste início de abril — num bloco com os ministros Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia) — a defesa das medidas de quarentena recomendadas pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no combate à pandemia do novo coronavírus.

    Informações de bastidores publicadas por diversos veículos de comunicação apontam para um ponto de virada: quando Bolsonaro decidiu ignorar mais uma vez as recomendações do Ministério da Saúde e foi visitar, em 29 de março, comerciantes de cidades-satélite de Brasília. Em 15 de março, sob suspeita de estar contaminado, o presidente já tinha ido às ruas confraternizar com apoiadores que protestavam contra o Congresso e contra o Supremo.

    No dia seguinte à visita de Bolsonaro aos comerciantes das cidades-satélite, cinco ministros concederam uma entrevista para anunciar as ações federais de combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A princípio, parecia que Bolsonaro havia enquadrado seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Isso porque a iniciativa pôs fim ao formato anterior de entrevistas, em que apenas Mandetta e sua equipe técnica informavam diariamente a situação da epidemia no Brasil.

    Mas o que se viu no comunicado, comandado por Braga Netto, foi a confirmação do apoio do governo às medidas de isolamento social. O ministro da Casa Civil negou a demissão de Mandetta e disse que Moro e Guedes estavam alinhados ao responsável pela pasta da Saúde. Segundo a revista Época, Braga Netto, Moro e Guedes demonstraram solidariedade a Mandetta internamente. O general da reserva, então, assumiu um papel de pôr em prática as orientações do Ministério da Saúde, apesar das resistências de Bolsonaro, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo.

    Na terça-feira (31), em pronunciamento em rede nacional, Bolsonaro até mudou de tom. Chamou a doença de o maior desafio de nossa geração e pediu um pacto nacional de enfrentamento ao novo coronavírus. No dia anterior, ele havia se encontrado com o ex-comandante do Exército general Eduardo Villas Bôas, o que o teria motivado a suavizar sua fala.

    A atitude moderada do presidente, porém, durou pouco, e ele voltou nos dias seguintes a falar com seus eleitores mais fiéis. O presidente divulgou um vídeo de uma mulher pedindo para que os militares fossem às ruas a fim de abrir o comércio. Depois, numa entrevista a uma rádio, disse que poderia baixar um decreto determinando a volta à normalidade e atacou Mandetta, pedindo humildade ao ministro.

    O papel de Braga Netto

    Bolsonaro tem ficado isolado em seus discursos, enquanto os ministros tocam a política de incentivo às quarentenas. A coordenação da estratégia do governo no combate à doença ficou a cargo de Braga Netto. Considerado um general durão por seus pares, ele foi responsável pela segurança dos Jogos Olímpicos de 2016 e por comandar em 2018 a intervenção militar do governo Michel Temer na segurança pública do Rio de Janeiro.

    Nomeado em fevereiro de 2020 para a Casa Civil, em substituição a Onyx Lorenzoni, que foi remanejado para a pasta da Cidadania, o general da reserva não vinha tendo um papel de relevância até então. Por causa da pandemia, assumiu o Gabinete de Crise, responsável por reuniões diárias com representantes de todos os ministérios envolvidos no combate à pandemia. O objetivo é unificar o discurso e evitar ruídos de comunicação.

    Durante as entrevistas com os jornalistas, o ministro passou a controlar as perguntas que serão respondidas e a passar “colas” para os colegas. Quando, por exemplo, Moro e Guedes foram questionados sobre o que achavam da manutenção do isolamento social no país, Braga Netto interveio e respondeu: Os ministros concordam plenamente com a posição do ministro Mandetta”.

    O equilíbrio de Mandetta no cargo

    Médico ortopedista e ex-deputado federal por dois mandatos, Mandetta ganhou protagonismo ao conceder diariamente entrevistas para falar sobre a situação da pandemia no Brasil. Ele reconheceu que o país enfrentaria dias “duríssimos” no combate à doença, alertou sobre os riscos de colapso do sistema de saúde e defendeu medidas de isolamento.

    Seu protagonismo passou a incomodar Bolsonaro. O presidente pressionou o ministro a adotar um discurso político, alinhado ao governo. Mandetta tentou se equilibrar em meio à briga entre governadores e o presidente: chegou a chamar as quarentenas de “precipitadas”. Foi cedo. Ficou uma situação do tipo: ‘Entramos e agora como é que saímos?’, afirmou numa das entrevistas.

    Nos dias seguintes, porém, voltou a defender critérios técnicos e científicos. Na quinta-feira (2), Bolsonaro revelou numa entrevista que ele e Mandetta não estavam se bicando, recomendou humildade ao ministro, mas negou que iria demiti-lo no meio da guerra. Mandetta afirmou que não iria se demitir e que só sairia por decisão do presidente.

    Segundo a revista Veja, o ministro revelou a interlocutores que sua situação era insustentável, mas foi aconselhado pelos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), seus colegas de partido com quem jantou na quinta-feira (2), a permanecer no cargo.

    Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (3) e realizada nos três primeiros dias de abril mostrou que a atuação de sua pasta é aprovada por 76% da população. Houve um aumento de 21 pontos percentuais nesse índice desde a pesquisa anterior feita entre 18 e 20 de março. Já a aprovação de Bolsonaro é de 33%, sendo que a reprovação ao presidente cresceu de 33% para 39%.

    A posição de Moro e Guedes

    Dois dos principais ministros de Bolsonaro, Sergio Moro e Paulo Guedes estavam apagados em meio à crise. Mas ambos se juntaram para apoiar as medidas de Mandetta.

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o ministro da Justiça ficou indignado com Bolsonaro por ele ter rompido um acordo para manter um discurso do governo afinado sobre a pandemia. Também o desagradou o fato de o presidente ter passeado por Brasília — algo que já havia feito nas manifestações de 15 de março —, desrespeitando recomendação do Ministério da Saúde, e de não ter sido convidado para participar de uma reunião com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

    A esposa de Moro, Rosângela Moro, publicou nas redes sociais, na quinta-feira (2), uma mensagem de apoio a Mandetta. “Entre ciência e achismos eu fico com a ciência. Se você chega doente em um médico, se tem uma doença rara você não quer ouvir um técnico?”, escreveu. Depois, complementou: In Mandetta I trust. Ela apagou a mensagem minutos depois de publicá-la.

    Guedes também se manifestou publicamente dizendo não ver motivos para que o país colocasse fim ao isolamento. Durante uma videoconferência com representantes de municípios, o ministro da Economia afirmou que, como economista, gostaria de ver a atividade econômica do país andando, mas, como cidadão, preferia ficar em casa e fazer o isolamento.

    Em quem Bolsonaro se apoia

    Isolado politicamente, com os índices de aprovação em queda e criticado por diversos atores políticos, o presidente Jair Bolsonaro tem se alternado entre um discurso mais moderado, como o pronunciamento de terça-feira (31), em que pediu união nacional contra a pandemia, e críticas ao isolamento social, como faz diariamente na porta do Palácio do Alvorada, onde recebe apoiadores.

    Suas falas moderadas são vistas como resultado da ação da ala militar, que interferiu em seu mais recente pronunciamento. Bolsonaro também se aconselhou com o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira (3), o general afirmou, porém, que "ninguém tutela" o presidente, negando interferência dos militares.

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Bolsonaro chegou a chorar e a buscar refúgio no setor militar por conta das críticas que vem recebendo pela condução da crise causada pelo novo coronavírus.

    Mas seu comportamento se alterna sempre entre momentos de moderação e falas radicais, que mobilizam seu eleitorado de extrema direita mais fiel. Nesses momentos, o presidente costuma consultar seus filhos. Um dos discursos mais criticados de Bolsonaro, transmitido em cadeia nacional em 24 de março, quando chamou a covid-19 de gripezinhae atacou governadores, foi elaborado com a ajuda de seu filho Carlos e do chamado gabinete do ódio, um grupo de assessores apontados como responsável por ataques a adversários.

    Carlos Bolsonaro, que chefia esse gabinete informal, passou a acompanhar reuniões do pai em Brasília, ao lado dos ministros de Estado, e ganhou uma sala no Palácio do Planalto, mesmo não tendo cargo no governo federal. Ele é vereador no Rio de Janeiro.

    O presidente também tem se apoiado na chamada ala ideológica do governo, representada por ministros como Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, que é admirador do escritor Olavo de Carvalho, considerado o guru do presidente.

    Bolsonaro, que tem defendido também a manutenção de igrejas abertas em meio à pandemia, por ouvir setores evangélicos que o apoiam, convocou a população brasileira para um jejum no domingo (5), para que o Brasil fique livre desse mal o mais rápido possível.

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