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Quando a literatura retrata a experiência do confinamento

Dois escritores e dois editores escolhem, a pedido do ‘Nexo’, obras cujos personagens e narradores se encontram detidos em um único espaço

Temas

A vivência de milhões de pessoas fechadas em suas casas devido à pandemia do novo coronavírus é uma situação sem precedentes no século 21, e certamente constituirá um marco histórico e cultural incontornável para as sociedades nos próximos anos.

Muitos dos que cumprem as determinações de distanciamento social têm se voltado para a leitura para ocupar o tempo passado em casa. Países como a França chegaram a incluir as livrarias entre os comércios considerados essenciais durante a pandemia, que devem se manter abertos para atender aos clientes.

O contexto é propício para refletir sobre como a impossibilidade de circular livremente é tratada nos livros. O confinamento, seja ele voluntário ou imposto, está longe de ser um tema estranho à literatura. Muitos autores já exploraram suas possibilidades estéticas e os efeitos psicológicos causados em suas personagens. Outros registraram sua experiência pessoal ao serem submetidos ao encarceramento.

O Nexo perguntou a dois escritores e dois editores sobre suas recomendações de obras que falam do tema, e apresenta abaixo uma seleção de seis livros feita e comentada por eles, além de trechos de alguns.

“Viagem à roda do meu quarto”, de Xavier de Maistre

Andrea del Fuego

Escritora

“No romance de Xavier de Maistre (1763-1852), publicado em 1794, o personagem faz uma jornada de 42 dias dentro do próprio quarto, um retângulo que mede 36 passos. Fazem parte da rota os móveis e os badulaques, as impressões surgem não só de cada objeto encontrado, mas do lugar, quinas, graus do espaço que ele ocupa lentamente.

Logo no início vem a descoberta metafísica: o homem é composto por uma alma e uma besta, ele oscila entre a regência de um e outro. Ao viajante falta espaço, mas é pelo tempo que ele transporta sua metade racional, enquanto a besta se veste com o roupão de viagem e tropeça no mobiliário. O personagem de Xavier abre a porta do retângulo de 36 passos e o leitor entra alargando o recinto, já que ele pode fazer o mesmo: visitar o próprio íntimo usando a cartografia de ‘Viagem à roda do meu quarto’”.

“Às avessas”, de Joris-Karl Huysmans

Graziella Beting

editora da Carambaia

“O confinamento em casa, à espera da passagem da pandemia, pode ser uma boa ocasião para explorar um dos grandes clássicos da literatura francesa, o romance “Às avessas” (À rebours), de 1884, . A obra de Huysmans (1848-1907) – traduzida por José Paulo Paes em 1987 e relançada pela Penguin-Companhia das Letras em 2011 –, é praticamente uma ode ao isolamento social. O romance causou estranhamento quando foi lançado, ao romper com o

naturalismo vigente na literatura e vislumbrar o simbolismo e o decadentismo que marcariam a produção naquele fin de siècle, e provocou “confusão” em seus leitores – para repetir o termo usado por Émile Zola.

“A essa altura, já sonhava com uma refinada tebaida, num deserto confortável, com uma arcada imóvel e tépida onde ele se refugiaria, longe do incessante dilúvio da parvoíce humana”

Joris-Karl Huysmans

Trecho de ‘Às avessas’

‘Às avessas’ não tem propriamente um enredo. É uma longa descrição, em terceira pessoa, do enclausuramento voluntário de um dos personagens que se tornou um símbolo na literatura francesa, Jean des Esseintes. Último representante de uma linhagem aristocrática, esse duque, sofrendo de spleen, numa mistura de tédio e total desprezo pela mediocridade da cultura burguesa e mercantilista dos ambientes mundanos que frequentava em Paris, deixa a capital para se isolar voluntariamente em Fontenay-aux-Roses. Perfeito exemplo do dândi, Des Esseintes é acima de tudo um esteta – além de misantropo – e, à vida em sociedade, prefere viver recluso, rodeado pela arte e literatura, em ambientes finamente decorados, pensados nos mínimos detalhes.

Os capítulos do livro são de certa forma independentes, cada um abordando diferentes temas e sensações, da literatura às artes plásticas, das cores aos aromas, proporcionando uma leitura caleidoscópica, em que tudo vai se encaixando, explorando todos os artifícios e estímulos sensoriais ao limite da vertigem. O excêntrico Des Esseintes elimina qualquer sinal exterior e convida o leitor a uma viagem, estética e sensitiva, para o seu mundo “às avessas”.

“A gaiola”, de José Revueltas

Joca Reiners Terron

Escritor

“Esses dias de confinamento não têm sido fáceis para ninguém, mas são bem piores para os ansiosos. Em ‘A gaiola’, um clássico da literatura mexicana do século 20, três presidiários aguardam na cela do presídio de Lecumberri a droga que será trazida clandestinamente pelas visitas que receberão. Enquanto aguardam, a tensão explode. É mais ou menos o que andamos sentindo ao olhar o mundo pela janela do apartamento, à espera de alguma esperança”.

“Salão de beleza”, de Mario Bellatin

Joca Reiners Terron

Escritor

“Uma peste desconhecida mata os habitantes da metrópole. Em seu salão de beleza decorado por dezenas de aquários com peixes exóticos, um cabeleireiro travesti recebe os moribundos que vivem nas ruas. Antes de adoecer também, o cabeleireiro transforma o lugar num morredouro medieval. Publicada em 1999, essa novela de linguagem tão neutra e letal quanto a de Kafka, é a primeira grande obra da ficção mexicana deste século”.

“Faz alguns anos, o interesse pelos aquários me levou a decorar meu salão de beleza com peixes de cores variadas. Agora que o salão se tornou um Morredouro, um lugar onde aqueles que não têm para onde ir vão terminar seus dias, me causa muita tristeza ver como os peixes vão desaparecendo pouco a pouco”

Mario Bellatin

Trecho de ‘Salão de Beleza’

“Cartas da prisão de Nelson Mandela”, org. Sahm Venter e Zamaswazi Dlamini-Mandela

Leandro Sarmatz

Editor da Todavia Livros

“Encarcerado pelo Apartheid de 1963 a 1990, Madiba passou boa parte desse tempo numa cela minúscula, incomunicável e com pouco acesso a correspondência. Mas foram as palavras e a resiliência quase sobre humana que o mantiveram afinado e perfeitamente são nessa jornada pelo inferno do confinamento”.

“O sobrinho de Wittgenstein”, de Thomas Bernhard

Leandro Sarmatz

Editor da Todavia Livros

“Romance autobiográfico do mestre austríaco da devastação, começa com o narrador e o sobrinho do famoso filósofo internados num hospital vienense: o primeiro, devido a problemas pulmonares; o segundo, na ala psiquiátrica. A internação, porém, não exclui vastos passeios mentais e o confronto diário – mas sempre com alguma ironia – com a morte”.

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