Como a pandemia pôs Lula e Doria do mesmo lado

Adversários políticos, ex-presidente e governador de São Paulo trocaram afagos nas redes sociais sobre combate ao novo coronavírus

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    O combate ao novo coronavírus provocou afagos entre dois ferrenhos adversários políticos nesta quinta-feira (2). O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), trocaram gentilezas no Twitter em meio à crise provocada pela pandemia.

    “Nossa obsessão agora tem que ser vencer o coronavírus. Chegamos ao ponto do Doria ter que mandar a PM invadir fábrica para pegar máscara. A gente tem que reconhecer que quem tá fazendo o trabalho mais sério nessa crise são os governadores e os prefeitos”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    ex-presidente, em mensagem no Twitter

    No dia 27 de março, Doria recolheu 500 mil máscaras para profissionais de saúde da empresa 3M. Ele usou uma lei federal intitulada “requisição administrativa”, que tipifica uma série de medidas em emergências de saúde pública ou em casos de iminente perigo público no uso de propriedade particular. Na mesma rede social, Doria respondeu a Lula.

    Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros”

    João Doria

    governador de São Paulo, em resposta a Lula também no Twitter

    A mensagem de Lula em apoio a Doria é também uma indireta ao presidente Jair Bolsonaro, já que governadores e o presidente travam uma disputa pelo controle das ações nos estados de combate ao vírus.

    No epicentro dos casos da doença no país, Doria foi um dos vários governadores a implementar regras mais duras de isolamento e fechamento do comércio não essencial. As medidas não agradaram ao presidente, que considera exagerada a quarentena para pessoas fora do grupo de risco.

    Bolsonaro e Doria chegaram a discutir em uma videoconferência no dia 25 de março. Para o presidente, o governador está reunindo capital político na crise pensando em concorrer ao Palácio do Planalto em 2022. Bolsonaro também cobrou o tucano por ter usado seu nome em 2018, ao surfar na onda de extrema direita daquelas eleições, usando o slogan “BolsoDoria”.

    Bolsonaro ensaiou atenuar o discurso no pronunciamento em rede nacional de rádio e TV na terça-feira (31), pedindo um “pacto nacional com Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos”. Nesta quinta (2), entretanto, o presidente compartilhou em suas redes sociais um vídeo de uma manifestante com críticas aos governadores. No dia anterior, já tinha publicado e apagado algo parecido.

    Doria e o antipetismo como bandeira

    Apesar do aceno à cordialidade, Doria sempre foi crítico de Lula e do PT. Filiado ao PSDB desde 2001, o atual governador venceu as eleições para a prefeitura paulistana em meio ao clima de antipetismo do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

    Em janeiro de 2017, durante uma ação do programa urbanístico Cidade Linda, Doria utilizou uma muda de pau-brasil para atacar Lula. “Vou dedicar o plantio dessa muda ao Lula, Luiz Inácio Lula da Silva, o maior cara de pau do Brasil. Presente para você, Lula”, disse.

    Em julho de 2017, quando o então juiz Sergio Moro condenou Lula por corrupção no caso do tríplex em Guarujá, Doria comemorou. Chamou Moro, agora ministro da Justiça de Bolsonaro, de “herói nacional”. Já em abril de 2018, o tucano fez um vídeo para também comemorar a iminente prisão do petista, que ocorreria dias depois.

    Após 15 meses na gestão na capital paulista, Doria se lançou como candidato ao governo do estado. A campanha tucana, então, surfou a onda bolsonarista. Desde que assumiu o comando de São Paulo, porém, Doria vem pontuando diferenças com o presidente. Na pandemia, a briga é aberta. Apesar de ter usado o slogan “BolsoDoria” (pedido de voto em Bolsonaro presidente e Doria governador), o tucano afirma que nunca foi bolsonarista.

    Em novembro de 2019, Lula foi beneficiado pelo novo entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre prisões após condenações em segunda instância e deixou a cadeia. Na liberação, o ex-presidente recebeu críticas de Doria. O tucano afirmou que a saída temporária de Lula não anulava “os crimes que cometeu”.

    Lula diante do ‘novo PSDB’

    PT e PSDB são rivais políticos desde meados dos anos 1990. Os dois partidos polarizaram as eleições presidenciais a partir de então. Os tucanos venceram duas vezes com Fernando Henrique Cardoso. Os petistas venceram quatro vezes, duas com Lula e duas com Dilma.

    Os escândalos revelados pela Operação Lava Jato, a recessão econômica a partir do fim de 2014 e uma descrença crescente da população em relação à política tradicional abriram espaço para a ascensão de um outsider: Bolsonaro, que apesar de estar no Congresso havia quase 30 anos, era identificado como alguém de “fora do sistema”.

    Doria aproveitou-se desse contexto para também se apresentar aos eleitores como um “outsider”. Na campanha de 2016, quando derrotou o então prefeito paulistano Fernando Haddad ainda no primeiro turno, o tucano dizia que não era político. Aos poucos, foi ganhando espaço dentro do PSDB, desbancando antigos líderes e até padrinhos políticos, como o ex-governador Geraldo Alckmin.

    Em 2017, durante a abertura do Congresso do PT, Lula disse o seguinte em relação ao tucano em ascensão: Um almofadinha, um coxinha, ganha as eleições de São Paulo se fazendo passar, junto ao povo mais humilde, de ‘João Trabalhador’. Se algum dia vocês encontrarem ele, perguntem se ele já teve, na vida, uma carteira profissional assinada, que você vai ver se ele foi ou não trabalhador”.

    No dia seguinte, Doria gravou um vídeo mostrando sua carteira de trabalho e disse que Lula era “mentiroso, covarde e desinformado”. “Eu sou decente, diferente de você, Lula”, rebateu.

    Em outubro do mesmo ano, durante um encontro com militantes do PT em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, Lula criticou Doria pela proposta de distribuição de um composto alimentar processado para pessoas de baixa renda. O ex-presidente chamou a comida de ração e disse que fazer o pobre comer restos de comida era “não respeitar a humildade das pessoas”.

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