O embate entre empresas e bancos pelo acesso ao crédito na crise

Apesar de medidas do governo para ampliar a liquidez na economia, varejistas reclamam de dificuldade para obter empréstimos. O ‘Nexo’ ouviu especialistas para entender o que está em jogo na disputa

    O avanço do novo coronavírus ao Brasil em março de 2020 criou um choque econômico negativo. A orientação de não sair de casa e a maior dificuldade para obter renda abalaram uma economia que já vinha em ritmo lento de recuperação após a recessão que durou de 2014 a 2016.

    As empresas foram duramente atingidas, em especial aquelas ligadas a setores que dependem do movimento nas ruas, como o varejo. Nesse cenário, surge a pressão para que o governo ajude esses segmentos, dando condições mais favoráveis para que os negócios permaneçam de pé.

    Um dos elementos centrais nesse momento é o crédito, que pode ajudar as empresas que estão em apuros a manter as portas abertas e as contas em dia até a crise passar. Desde o agravamento da pandemia no Brasil, o governo tomou medidas na direção de ampliar os recursos disponíveis para empréstimos nos bancos.

    Mesmo com as ações do governo, no entanto, as empresas estão reclamando que conseguir empréstimos não ficou mais fácil – teria ficado, na verdade, mais difícil. Isso abriu uma disputa entre firmas e bancos, com o acesso ao crédito no centro da discussão.

    O que dizem as empresas

    Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 27 de março de 2020 revelou um descontentamento entre empresas por dificuldades em acessar crédito em meio à pandemia.

    Segundo o jornal, empresas de todos os tamanhos e setores estão enfrentando dificuldades para tomar empréstimos junto aos bancos. A reclamação é de que os juros estão sendo elevados até mesmo em casos de empréstimos que estavam perto de ser aprovados pelos bancos antes da pandemia.

    A prorrogação de prazos de pagamentos de parcelas que havia sido prometida pelos maiores bancos brasileiros também não estaria sendo cumprida. Em alguns casos, o adiamento é condicionado a um aumento nas taxas de juros do empréstimo.

    A reclamação também passa pela maior exigência dos bancos de garantias para fornecer crédito, o que restringiria ainda mais o acesso a esses empréstimos.

    O questionamento surge justamente em um momento em que o Banco Central tomou medidas para ampliar a liquidez da economia e facilitar o acesso ao crédito. Isso ficou claro em um documento assinado por cinco entidades representantes do varejo, que foi enviado ao Ministério da Economia e ao Banco Central em 30 de março. Entre os signatários estão a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) e o IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), ao qual estão associadas empresas como Riachuelo, Lojas Americanas, Magazine Luiza e Lojas Renner.

    “Solicitamos atenção a despeito das medidas de injetar liquidez no sistema financeiro nacional, pois observa-se o aumento expressivo das taxas, com médias superiores a 50% e, alguns casos superiores a 70%, em operações habituais do varejo. Entendemos que num momento de crise, as medidas adotadas pelo Bacen [Banco Central] devam caminhar juntas com as instituições financeiras”

    Entidades representantes do varejo

    em carta enviada ao Banco Central em 30 de março de 2020

    O que dizem os bancos

    O presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Isaac Sidney, afirmou ao jornal Valor Econômico que as taxas de juros médias no varejo estão estáveis neste momento da crise da pandemia. As queixas das empresas, portanto, seriam referentes a aumentos pontuais, e não refletiriam uma elevação generalizada nos juros.

    “Nós, bancos, não produzimos essa crise, não é produtivo procurar culpados e nem apontar o dedo; é momento de mais racionalidade e serenidade”

    Isaac Sidney

    presidente da Febraban, em entrevista publicada pelo Valor Econômico em 1° de abril de 2020

    À Folha de S.Paulo, os bancos afirmaram que estão cumprindo o compromisso de ficar abertos a prorrogação de dívidas por 60 dias. A Febraban também disse que a decisão de conceder ou não um empréstimo, bem como as taxas praticadas, cabe a cada banco, e depende de sua metodologia de avaliação.

    Outra matéria publicada pelo Valor Econômico ouviu pessoas próximas aos bancos e mostrou que, nos bastidores, a questão do risco é vista como central. Os bancos não se sentem confortáveis emprestando diante da perspectiva de aumento da inadimplência, mesmo com as medidas para ampliar a liquidez tomadas pelo Banco Central. A reportagem também apontou que o aumento extraordinário da procura por empréstimos ajudou a pressionar as taxas de juros para cima.

    A importância da liquidez na crise

    A disputa entre os bancos e as empresas se dá em um momento de crise econômica, em que o ritmo de circulação do dinheiro está mais baixo. Na pandemia, isso ocorre porque as pessoas estão saindo menos de casa e comprando menos; com isso, a receita que entra no caixa das empresas é menor. A tendência é que, como consequência, o desemprego aumente, levando a uma redução no consumo e gerando um efeito em espiral descendente.

    Nesse cenário, as famílias ficam com menos dinheiro disponível para pagar as contas e gastar no dia a dia, e a mesma coisa acontece com as empresas. Ao mesmo tempo, quem pegou empréstimos antes da crise vai ter mais dificuldade de pagar as prestações e juros.

    Os bancos, portanto, também vão sentir os efeitos, com diminuição dos depósitos em conta (afinal, quando alguém fica desempregado, deixa de depositar dinheiro no banco todo mês) e com a inadimplência. Esses fatores reduzem a capacidade do banco de fazer novos empréstimos para pessoas e empresas.

    Desta maneira, o Banco Central, que tem como uma de suas funções ser “o banco dos bancos”, tomou medidas para aumentar a liquidez da economia. Traduzindo do economês: o Banco Central agiu para que mais dinheiro circulasse na economia, tendo como principal canal o aumento da capacidade de empréstimo dos bancos. Na teoria, se há mais recursos disponíveis para os bancos emprestarem, a tendência é que mais pessoas peguem empréstimos e haja mais dinheiro para circular na economia.

    Para que isso se concretize, no entanto, é necessário que o aumento da capacidade de empréstimo dos bancos se traduza, na prática, em um maior número e volume de empréstimos. Segundo as empresas, esse é o ponto onde o fluxo está travado.

    As medidas do Banco Central

    O Banco Central lançou no dia 23 de março um pacote de medidas para aumentar a liquidez da economia brasileira em até R$ 1,2 trilhão. Entre as ações está a redução da taxa de depósitos compulsórios de 25% para 17%, o que deve liberar R$ 68 bilhões para os bancos emprestarem. Os depósitos compulsórios são um mínimo de dinheiro que tem que ficar retido nos bancos para dar segurança ao sistema financeiro. Se essa taxa diminui, uma parte desses compulsórios é liberada para circular na economia, como foi feito em março.

    Além disso, o Banco Central prevê uma linha temporária de empréstimos para os bancos, tendo como garantias debêntures, que são uma espécie de títulos de dívida emitidos por empresas privadas. Essa linha pode liberar até R$ 91 bilhões para os bancos.

    Mas a maior parte do pacote consiste em um empréstimo para os bancos tendo como lastro letras financeiras garantidas por operações de crédito. Isso significa que os bancos, que têm carteiras de crédito, vão poder emitir títulos com base nessas carteiras. Então, esses papéis servirão de garantias para que os bancos peguem empréstimos no Banco Central, em uma operação que deve disponibilizar R$ 670 bilhões.

    O pacote veio poucos dias após o Copom (Comitê de Política Monetária) – órgão formado pelo alto escalão do Banco Central – reduzir a meta dos juros básicos brasileiros para 3,75% ao ano. Antes do anúncio do pacote, o Banco Central também havia divulgado outras medidas para aumento da liquidez em R$ 135 bilhões, e anunciado a compra de títulos de dívida externa, colocando US$ 3 bilhões no mercado.

    Mas o entendimento nos bancos é que, por mais que o Banco Central tenha ampliado a liquidez, faltou endereçar a questão do risco do crédito nas medidas.

    Duas análises sobre a disputa

    O Nexo conversou com especialistas para entender o que caracteriza a disputa e o que pode ser feito para liberar o fluxo de empréstimos.

    • Cristina Helena de Mello, professora de economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)
    • George Sales, professor de finanças do Ibmec de São Paulo

    Por que mesmo com as medidas do Banco Central o acesso ao crédito está mais difícil neste momento?

    CRISTINA HELENA DE MELLO Temos problemas na transmissão dessa política monetária. Há uma dificuldade [do dinheiro] de chegar na ponta, que é o consumidor final ou a empresa. O crédito nem sempre chega aonde deveria chegar, porque os bancos fazem escolhas seguindo outros critérios que não os das políticas econômicas. Em um mercado onde a informação é assimétrica, e quem está assumindo risco de não receber é o banco, ele obviamente vai querer garantias, verificar se a empresa tem liquidez, patrimônios, recebíveis. Ele vai querer alguma garantia de que ele vai poder receber esse recurso de volta. A assimetria de informação ocorre porque a empresa que está pegando crédito sabe a real condição dela de pagamento futuro. Mas o banco quer comprovações; quer ter certeza de que a empresa vai poder honrar seus compromissos.

    Muitas vezes, as empresas – principalmente as que não são exatamente formais – não têm condições de oferecer essas garantias. O banco não consegue acessar essa informação. Então ele precifica isso: ou ele não empresta o recurso, ou ele cobra [mais] para emprestar esse recurso. Para as empresas que ele julga ter menor probabilidade de devolução, ele normalmente precifica isso, coloca um custo mais alto para essas empresas na concessão desse empréstimo. Essa é, talvez, a maior dificuldade de fazer política monetária: porque existe uma diferença nas intenções. A [intenção] do governo é de colocar liquidez e atender as empresas e a população; mas os bancos, que são os tomadores de risco, têm outros critérios para fazer a distribuição desses recursos.

    George Sales Por conta do risco que as empresas estão vivendo de não conseguir honrar o pagamento lá na frente. Apesar de você ter um dinheiro que é repassado pelas linhas governamentais, o risco da análise de crédito tem que ser assumido pela instituição financeira que está fazendo a colocação dele.

    Se os bancos estão correndo risco porque estão emprestando dinheiro, eles vão exigir garantias e uma série de informações. Muitas empresas dessas que vêm pedir crédito não eram acostumadas a pedir esse tipo de linha de crédito, então as exigências de informações ou exigências de contrapartida acabam sendo novas para muitas empresas, e isso gera essa insegurança. Ele [o fluxo de crédito] não é na velocidade que todo mundo acha que tem que ser; não é automático. A empresa que está precisando [de crédito] tem garantias, e se vai ser uma empresa sobrevivente desse episódio todo tem que se posicionar perante as instituições financeiras e dizer: “sim, a minha empresa é uma empresa sobrevivente”.

    O que ela precisa fazer é conseguir se comunicar melhor com a instituição financeira. Não adianta ficar irritado e achar que nessa hora o banco tem que fazer filantropia. Ele não vai fazer. Ele tem acionistas, tem risco, tem depositantes do banco. Imagine você como depositante de um banco. Você vai querer que o banco quebre com a sua poupança lá dentro? Não. Você quer que o banco faça o serviço dele direito, de colocar os recursos e assumir riscos que sejam mensuráveis. Se quem está pedindo dinheiro emprestado no banco não consegue mensurar para o banco o seu risco, o banco não empresta. Ele fica restritivo, mesmo.

    Como fazer o dinheiro chegar às empresas?

    CRISTINA HELENA DE MELLO Esse não é um problema só no Brasil, é um problema mundial. É uma característica dos sistemas financeiros. O Banco Central americano [o Federal Reserve] está fazendo um canal direto com as instituições do setor privado. Ou seja, quem tomaria o risco do não-pagamento é o Banco Central, não o banco comercial. Essa é uma das alternativas que estão sendo estudadas [no Brasil]. Outra forma é trabalhar com os bancos públicos, porque os bancos públicos também são direcionadores de crédito. O critério deles não é o critério do acionista, da rentabilidade e do risco. O banco público é um braço de política econômica do Banco Central, então eles são uma outra alternativa. O governo também pode ser o garantidor de crédito para essas empresas. Isso significa que quando essas empresas não pagarem o dinheiro de volta para o banco, quem vai pagar é o Tesouro. O que quer dizer que cada um de nós que paga imposto vai pagar esse dinheiro que a empresa não pagou para o banco.

    George Sales O meio é as empresas, nessa hora, fazerem a prestação de contas e informações o melhor possível. E dar garantias, da melhor forma possível, para a instituição financeira.

    Ele [o governo] já está dispondo parte do dinheiro. As medidas de liquidez são justamente para que os bancos possam colocar esse dinheiro à disposição das empresas. Mas não significa fazer uma doação. Tem muita empresa que é desorganizada, não tem informação ou não sabe o que prover para uma instituição financeira, aí realmente a coisa fica restritiva.

    A instituição financeira que empresta assume riscos sobre esse dinheiro. As empresas têm que verificar as informações e garantias que os bancos exigem para que tenham acesso a esse dinheiro. É uma questão de saber trabalhar nessa hora, de desenvolver um trabalho para buscar esse crédito.

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